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Estádios sustentáveis e ecoarenas

Estádios sustentáveis e ecoarenas – 10/11/2009

Fonte:Arcoweb Com os projetos de estádios da Copa de 2014 andando a todo vapor, Fifa e arquitetos propõem a construção das chamadas ecoarenas. Esse momento único pode marcar o Brasil como o primeiro país do mundo a ter feito todo o campeonato mundial de futebol em estádios sustentáveis.

“Completa?”, pergunta José, frentista do enorme posto de gasolina na esquina das avenidas Faria Lima e Cidade Jardim, na zona sul de São Paulo. O posto está ali há 25 anos. Antes dele, no terreno havia um grande sobrado, que abrigou por mais de 15 anos o escritório de arquitetura de Ícaro de Castro Mello. Engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica, Ícaro foi um caso raro de especialista em projetos de edifícios esportivos. Curiosamente, ele se interessou pelo tema porque era esportista nato.

Com 23 anos, 1,86 metro de altura e um ano de formado, ele representou o Brasil no salto em altura, na Olimpíada de Berlim, em 1936. Mas seu desempenho na competição foi ruim: por causa de uma contusão no tornozelo, não chegou nem perto da sua marca de 1,92 metro. A derrota abriu uma oportunidade profissional: como tinha que esperar o fim dos jogos para voltar com os outros atletas brasileiros na mesma embarcação, aproveitou para fazer um estágio com Werner March, arquiteto que desenhou o estádio olímpico da cidade.

A paixão de Ícaro pelo ofício era tamanha que contagiou os três filhos: Cristina e Eduardo se formaram arquitetos; Roberto é economista e administra o escritório Botti Rubin. O estúdio de Ícaro na Cidade Jardim era generoso: tinha um grande jardim e muitas pranchetas, que no início dos anos 1980 estavam repletas de projetos.

Com 12 anos de idade, um dos netos do arquiteto passava a tarde no escritório. Hoje, com 33 anos e formado há dez em arquitetura pela Belas Artes, Vicente de Castro Mello dirige juntamente com seu pai, Eduardo, o escritório que leva o nome da família, em São Paulo.

Time de Arquitetos
No dia 3 de junho passado, em encontro ocorrido no centro de convenções do hotel Renaissance, em São Paulo, Vicente foi eleito, pelos colegas projetistas, coordenador do Time de Arquitetos, uma associação integrada por todos os profissionais da área responsáveis pelos projetos dos estádios da Copa de 2014, que se realizará no Brasil. A ideia partiu do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) e tem como objetivo a troca de experiências e o fortalecimento do papel dos arquitetos nesse conturbado processo. A fragilidade dos projetistas é gritante. Primeiro vêm políticos, empresários e cartolas. Depois, os intermediários. Lá no final da fila, os arquitetos. “Somos o elo mais fraco da corrente”, repetia no encontro Gustavo Penna, responsável pela urbanização do entorno do Mineirão.

Quase todos os autores dos 17 projetos para estádios que se candidataram aos jogos da Copa compareceram ao encontro. As únicas baixas foram justamente as estrelas do grupo: Paulo Mendes da Rocha e Ruy Ohtake, responsáveis pelas propostas dos estádios de Goiânia e São Paulo, respectivamente. A capital de Goiás foi desclassificada. Mas a imprensa estava ávida por ouvir Ohtake.

A indefinição sobre o estádio que sediará os jogos na capital econômica do Brasil pode ter motivado a ausência. “A pressão está muito grande”, confidenciou Ohtake. Nos bastidores ninguém dá como certa a escolha do Morumbi, e a cada semana que passa a gangorra pende para um lado. Fala-se em um estádio a ser construído em Pirituba, junto com um grande empreendimento imobiliário, projetado por um escritório norte-americano com sede em São Paulo. Aventa-se ainda a possibilidade de usar o Campo de Marte e de a cidade ter dois estádios para a Copa.

Depois do almoço no Renaissance, os arquitetos foram convocados a falar com a imprensa. A entrevista de Vicente, como coordenador do Time de Arquitetos, foi a mais concorrida. De terno preto risca de giz, camisa e gravata pretos, ele respondia com calma a respeito das ecoarenas, os estádios com princípios sustentáveis.

Cartões-postais
“Às vezes a imprensa se confunde: acha que Copa verde é aquela que acontece na floresta, na Amazônia ou no Pantanal”, diz Vicente, sentado a uma mesa, em seu escritório, dividido em dois pequenos conjuntos em andares diferentes do prédio de vidros azuis espelhados e revestimento de cerâmica branca, na Chácara Santo Antônio. Ele acredita na competição como uma oportunidade de transformar a imagem do país. “É um momento único: o Brasil pode ser lembrado por todo mundo por ter feito a primeira Copa com estádios sustentáveis”, diz. “Os estádios serão nossos cartões-postais.”

Há muitos anos o boom de edifícios esportivos passou. No período recente, os maiores trabalhos que o escritório Castro Mello realizou para o setor foram academias de esportes e reformas em projetos antigos. Com a sinalização de que o Brasil poderia sediar a Copa, em 2007 Vicente começou a se envolver com afinco no assunto. “Não poderíamos ficar de fora: durante 70 anos nosso foco foi o esporte”, diz.

Foi em 2007 que o Sinaenco pensou em elaborar um documento a respeito da condição dos estádios brasileiros, chamando a atenção da imprensa e da população para os problemas de conservação.

A possibilidade de fazer o relatório estava em discussão numa reunião da qual participava Roberto de Castro Mello, tio de Vicente, representando o escritório Botti Rubin. “A pessoa certa para participar desse documento é meu irmão: ele é quem mais entende de estádios no Brasil”, ponderou. Mas para Eduardo era impossível aceitar a proposta do sindicato: ele teria que viajar praticamente o segundo semestre inteiro, sem honorários. “Fiz um acordo com meu pai: ele cuidaria do escritório enquanto eu viajaria para fazer o relatório”, conta Vicente. “Mas coloquei uma condição ao Sinaenco: eu não apontaria só os problemas estruturais e de manutenção, como trincas e rachaduras; meu foco seria questões de arquitetura, como visibilidade, acessos, acabamentos etc.”

A peregrinação
Proposta aceita, começou a peregrinação de Vicente de Castro Mello. Um dos primeiros estádios a serem visitados foi o Fonte Nova, em Salvador, onde sete torcedores morreriam três meses depois, em novembro de 2007. “Isso abriu os olhos da mídia para o problema”, avalia o arquiteto. Além de se inteirar da real situação de todos os estádios do Brasil, Vicente começou a conectá-los com o tema da sustentabilidade.

No segundo semestre de 2008, ele passou muitos meses estudando o assunto em seminários, congressos e cursos no exterior, entre os Estados Unidos e a Alemanha. Nesse preâmbulo, já estava realizando, com seu pai, uma série de propostas de estádios para a Copa. No final do funil, das 12 sedes escolhidas, uma tinha projeto do escritório Castro Mello – Brasília. Sem contar a consultoria que prestaram para a adequação do Maracanã. “Lá o governo vai fazer uma PPP [parceria
público-privada] e o nosso desenho servirá de base para a concorrência”, conta Eduardo.

Atualmente, a equipe cuida da adaptação final do Estádio Mané Garrincha, criado em 1972 por Ícaro, tendo Eduardo e Cláudio Cianciarullo como co-autores. Em paralelo, Vicente se dedica à construção de um site que promove a idéia da Copa verde e das ecoarenas. Para essa empreitada, tem como sócio o economista Ian McKee, de 34 anos, que vive nos Estados Unidos e trabalhou em Wall Street, na Goldman Sachs e em empresas de mídia de Los Angeles. Brasileiro, filho de um norte-americano e uma sueca, McKee passou a infância e a adolescência na capital paulista, onde conheceu Vicente.

A entrada do site no ar estava prometida para junho. O endereço? É www.copaverde.com.br .

Ecoarenas?
De acordo com o sistema norte-americano de certificação Leed, ainda não é possível criar um estádio verde, pois não existem recomendações para esse tipo de edifício. “Pelas informações que tenho, os estádios serão contemplados pelo Green Building Council só daqui a dez anos”, diz Vicente. Mas há mais de cinco a Fifa já pensa no assunto. As recomendações da entidade mundial do futebol estão em uma cartilha de 125 páginas, com orientações em aspectos como visibilidade, acessos, dimensões. Na página 17, um dos tópicos do primeiro capítulo é a sustentabilidade, que a Fifa chama de “green goal” (meta verde). “As metas principais do programa são a redução do consumo de água potável, a eliminação e/ou redução de resíduos, a criação de sistema de energia mais eficiente e o aumento da utilização de transportes públicos” nos eventos da entidade.

O green goal surgiu durante os preparativos para a Copa da Alemanha e orientou a especialização dos escritórios de arquitetura daquele país. Está aí por que conseguiram muito trabalho no Mundial da África do Sul, em 2010. E no Brasil também: por enquanto, em quatro dos 12 estádios há participação germânica. É uma briga de foice ainda em curso, atrás de honorários avaliados por baixo em 3 milhões a 4 milhões de reais.

Com a sustentabilidade presente no pacote da Fifa, todas as propostas tiveram que incluí-la. “É algo um pouco óbvio, que faz parte de todos os projetos atuais. E possui mais relações com a engenharia do que com a arquitetura”, pondera Hector Vigliecca, que está trabalhando nos estádios de Curitiba e Fortaleza. “Quando eu era criança, em Montevidéu, vivíamos uma situação totalmente sustentável: no jardim havia frutas e galinhas e a água da chuva era captada para descarga, limpeza e lavagem de roupa”, ele brinca.

Vigliecca explica que no projeto para Curitiba não foi possível adaptar todas as noções básicas de sustentabilidade. “O estádio estava pronto: estamos desenhando somente um quarto do total”, lembra. Mas em Fortaleza todos os itens do cardápio da Fifa foram atendidos, com destaque para o uso de painéis fotovoltaicos. “A energia eólica é muito usada no Ceará e estamos tentando conectar a captação de energia solar com o vento”, ele diz.

O arquiteto começou a estudar prédios esportivos em 2000, quando ganhou o concurso para a ampliação do ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, desenhado originalmente por Ícaro de Castro Mello. Para ele, um dos aspectos mais importantes da sustentabilidade dos estádios diz respeito à viabilização dos empreendimentos. “Não podemos criar elefantes brancos”, ele insiste.

Demolição
Em relação à gestão, muito se tem falado do tíquete mínimo, ou seja, o valor do ingresso que viabilize a gestão de empreendimentos que custarão por volta de 500 milhões de reais. Cidades com grandes clubes saem na frente, pois há fluxo de público nos jogos pós-Copa. Além disso, centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte vislumbram a receita com megashows e eventos. Nessa perspectiva, seria mais viável uma competição com menos sedes – oito, por exemplo, como queria a Fifa. Contudo, pressões políticas aumentaram esse número para 12. Assim, as cidades mais fragilizadas têm que encontrar formas criativas de se viabilizar, para que a conta, no final, não avance no bolso do contribuinte.

Um dos melhores exemplos é o de Natal. Num estado sem clubes fortes e com magra renda per capita, o projeto na capital do Rio Grande do Norte transforma o estádio em parte de um complexo imobiliário que envolve a iniciativa privada e o poder público. A apresentação do projeto de Natal foi das mais elogiadas pelos arquitetos no encontro do Sinaenco. O desenho resulta de uma parceria entre o escritório norte-americano HOK, os cariocas do estúdio Coutinho Diegues Cordeiro Arquitetos e o potiguar Felipe Bezerra. “Esse é um exemplo interessante, pois, além de procurar viabilizar o empreendimento com o auxílio de capital privado, dará à cidade uma centralidade desejável”, disse ao microfone Carlos Arcos, sócio de Vigliecca no projeto de Curitiba.

Quando os projetistas do complexo natalense foram convidados a elaborar o desenho, três meses antes da entrega para a Fifa, a proposta do governo era ocupar uma gleba periférica de difícil acesso. Em um voo de helicóptero, a equipe vislumbrou o potencial do terreno do centro administrativo, onde estava também o estádio Machadão, a maior obra de Moacir Gomes, um dos introdutores da arquitetura moderna no estado. “Apesar de estar no centro geométrico da cidade, era um local que criava uma desconexão, que travava o desenvolvimento. A baixa densidade – são dez prédios em 46 hectares – era um desperdício”, conta Aníbal Coutinho, sócio de Coutinho Diegues Cordeiro. “A Fifa falou muito em legado. Apresentamos corajosamente a ideia de demolição do estádio e de todo o conjunto administrativo, justamente pensando em deixar um legado real para Natal, e não um elefante branco a 30 quilômetros do centro”, ele diz. “Criamos no meio do espaço uma espécie de piscinão aberto, que vai receber água da chuva. Parte da cobertura da área impermeabilizada da garagem será com tetos verdes, e o local será como um bosque, um micro-Ibirapuera”, conclui Coutinho.

Presente em diversos outros projetos, a proposta de demolição causou alvoroço em Natal. Parte do barulho é feita, naturalmente, pelo autor do projeto do antigo estádio. “Estamos estudando alternativas para a reciclagem do entulho”, disse Antônio Cordeiro, sócio de Coutinho, na reunião do Renaissance. Mas demolição rima com sustentabilidade? Todos os arquitetos envolvidos nos projetos de estádios, independentemente de se tratar de construções novas, creem que a demolição é justificável. “Não dá para adaptar alguns espaços. No final das contas, a eficiência do prédio novo pode justificar essa escolha”, pondera Vigliecca.

Outro exemplo interessante nos pequenos centros é o projeto de Cuiabá, de Sérgio Coelho, do GCP Arquitetos. Retardatário – sua equipe iniciou os trabalhos em fevereiro passado -, Coelho atribui justamente à sustentabilidade o convite que recebeu do governo local. “Nosso trabalho é diferenciado em termos de legado. Na primeira fase, que visa a Copa, a arena terá capacidade para 42 mil pessoas; na segunda, será diminuída para 28 mil lugares”, conta. A proposta, desenvolvida com o escritório inglês SKM, é construir arquibancadas removíveis. Outro ponto é o uso de materiais locais, como estruturas pré-moldadas. “Não tenho nada contra tecnologia e materiais importados. Mas, pensando na sustentabilidade real, é mais inteligente e econômico trabalhar com o que está disponível na região”, ele avalia.

Quem paga a conta?
Vigliecca se impressionou especialmente com a tecnologia aplicada na proposta dos alemães do estúdio GMP para Manaus – que tem o orçamento mais caro do todos. Esse escritório está participando ainda do projeto de Belo Horizonte e criando o anel de acesso em Brasília, juntamente com Castro Mello. “Estamos utilizando a técnica que desenvolvemos nos estádios da Alemanha e da África do Sul”, conta Ralf Amman, arquiteto do GMP. “Mas a viabilização depende de um desejo político.”

Em muitos casos, como o de Porto Alegre, não havia de antemão uma determinação dos contratantes em relação a edifícios verdes. “A sustentabilidade, além das recomendações da Fifa, também partiu da nossa equipe”, conta o jovem Gabriel Garcia, do Hype Studio, responsável pelo projeto na capital gaúcha. Nos documentos enviados à federação, os arquitetos anotaram que o Beira-Rio terá coleta e reutilização da água da chuva, ciclovia, ancoradouros de barcos e pisos permeáveis. O Internacional, dono do estádio, já faz reciclagem de lixo e estuda-se ainda “a utilização de compostagem das aparas do corte do gramado, produzindo fertilizantes a partir dos resíduos da manutenção do campo”.

Na Bahia, o poder público logo en-campou a ideia. “O projeto possui todos os quesitos básicos, como captação de água para reúso, sistema de tratamento de esgoto etc. Só não tem ainda células fotovoltaicas porque o governo baiano, em parceria com o Instituto Ideal, de Santa Catarina, vai fazer uma experiência com o estádio Pituaçu, onde o Brasil joga em 9 de setembro”, conta Marc Duwe, do escritório Setepla, que, com os alemães do Schulitz Architektur, é responsável pelo projeto em Salvador.

Um projeto sustentável tem orçamento de implantação entre 5% e 30% maior. Mas, quase como um jogral, todos os projetistas declaram que o investimento compensa, pois os gastos com manutenção são menores e o retorno do capital ocorre em alguns anos. Para Daniel Fernandes, que desenhou o estádio do Recife, alguns itens de baixo custo são muito compensadores, como o reúso da água. “Os primeiros estudos chegam à marca de 60% de economia no consumo através da reutilização. E com o tratamento de parte do esgoto, diminui até em 40% a quantidade de esgoto jogado na rede”, diz Fernandes.

Ele acredita, no entanto, que itens como as células fotovoltaicas são de uso mais difícil. “Como não é possível a armazenagem – a captação ocorre de dia e o uso do estádio à noite -, a energia solar poderia ser vendida e o estádio usaria energia convencional, comprando de volta. Assim, o custo seria zero. Mas tudo isso depende do preço a que ela seria vendida”, teoriza. Vicente é mais otimista em relação aos painéis. “Há até a possibilidade de criar receitas dessa forma. Os estádios podem ser um grande laboratório de sustentabilidade”, diz o jovem, cujo relógio esportivo denuncia: ele também é esportista. No Colégio Porto Seguro, destacou-se no salto em distância. “Meu porte ajudava: eu era alto e bem levinho”, lembra. Praticou ainda atletismo na mesma modalidade do avô.

O esporte pode ajudar a encarar um ritmo de trabalho que tem sido frenético. Todas as equipes possuem um prazo curtíssimo para a entrega dos projetos. O atraso na escolha das cidades foi muito prejudicial, é uma avaliação unânime. Somente Castro Mello tinha o projeto executivo de Brasíla pronto. Os demais haviam realizado somente estudos e imagens. O novo prazo da Fifa é 31 de agosto, data em que todas as propostas devem estar aprovadas nos órgãos competentes. Para que a conta não fique no vermelho, arquitetos, investidores e políticos são cautelosos e trabalham em silêncio.

Cautela e quietude não combinam com o ânimo dos aficionados por futebol. Questionado sobre a bagunça que torcedores podem fazer na avenida Cidade Jardim se o jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014 for no Morumbi, o frentista José parece pensativo e descrente. Alguns segundos depois, conclui: “Vixe: 2014! Demora ainda, não? Até lá, muita coisa vai mudar… Deu R$ 46,23: é no crédito ou no débito?”.

Texto de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 354 Agosto de 2009

Futuro Estádio Nacional de Brasília (ex-Mané Garrincha)
Futuro Estádio Nacional de Brasília (ex-Mané Garrincha)
Futuro Estádio Nacional de Brasília (ex-Mané Garrincha)
Futuro Estádio Nacional de Brasília (ex-Mané Garrincha)“Não poderíamos ficar de fora. Durante 70 anos, nosso foco foi o esporte”, diz Vicente de Castro Mello, sócio do escritório que elaborou a proposta de readequação do Estádio Mané Garrincha

Time de arquitetosEm junho passado, o Time de Arquitetos reunido pela primeira vez, em São Paulo; Vicente de Castro Mello, cercado por jornalistas; e Gustavo Penna, para quem “os arquitetos são o elo mais fraco da corrente”

Vicente de Castro MelloVicente de Castro Mello

Gustavo PennaGustavo Penna

Projeto em Natal
Projeto em Natal
Projeto em Natal
Projeto em Natal
Projeto em Natal
Projeto em Natal
Projeto em NatalO elogiado projeto em Natal, de HOK, Coutinho Diegues Cordeiro e Felipe Bezerra, com teto verde e lagoa no centro

Estádio Beira-Rio
Estádio Beira-Rio
Estádio Beira-Rio
Estádio Beira-RioEstádio Beira-Rio, em Porto Alegre, projeto do Hype Studio: “A sustentabilidade, além de estar presente nas recomendações da Fifa, partiu da nossa equipe”

Estádio em Cuiabá, do escritório GCP
Estádio em Cuiabá, do escritório GCP
Estádio em Cuiabá, do escritório GCPA nova proposta de Cuiabá, do escritório GCP, prevê arquibancadas removíveis e o uso de materiais locais

A força dos ventos

A força dos ventos

Chico Santos
06/08/2009

Cumbuco é uma praiazinha do Ceará, perto de Fortaleza. Não é um paraíso, mas é muito simpática. O mar de um lado, dunas e lagoas do outro, coqueiros, passeios de bugre… Sem as clássicas superbarracas cearenses tocando axé das 8h às 18 horas seria ainda melhor. À noite, nos restaurantes do povoado, grupos jovens bronzeados falam inglês, espanhol, francês, sueco… até português. Qual o segredo da cosmopolita Cumbuco? Um vento forte e persistente, que faz do lugar um dos destinos favoritos dos praticantes do kitesurf, o esporte dos que voam sobre as águas puxados por uma espécie de pipa gigante.

O mesmo vento, que está fazendo do Ceará uma das mecas brasileiras da energia eólica, é a alternativa que os europeus escolheram para aumentar seu suprimento de energia limpa e renovável, na qual os americanos também mergulham cada vez mais. De 2007 até o dado mais recente da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a capacidade instalada dos parques eólicos cearenses passou de 17,45 megawatts para 121,83 megawatts, enquanto em todo o país a evolução foi de 247 para 403 megawatts.

Um estudo novíssimo do BNDES, assinado pelos economistas Rafael Alves da Costa, Bruna Pretti Casotti e Rodrigo Luiz Sias de Azevedo, do departamento de indústria pesada, pinta um retrato minucioso da atual situação da indústria de geração de energia elétrica a partir dos ventos no mundo e no Brasil. O trabalho mostra ainda que o foco mundial neste segmento representa uma ampla janela de oportunidade para o desenvolvimento da indústria brasileira de bens sob encomenda, seja para atender ao mercado doméstico, seja para suprir a demanda internacional que, neste momento, corre à frente da capacidade instalada.

O panorama mundial levantado pelos pesquisadores do BNDES traz números impressionantes. Em 2007, a geração eólica representou 40% de todo incremento da oferta de energia elétrica na Europa. Da capacidade instalada de 129,8 mil megawatts existente no mundo no final do ano passado, a Europa detinha mais da metade, 65,9 mil megawatts.

Sob forte pressão social contra as emissões de gases causadores do efeito estufa pelas fontes geradoras de energia térmica, os europeus saíram na frente, comandados pela Alemanha. No ano passado, os EUA aumentaram em 8,4 mil megawatts a potência instalada, alcançando 25,2 mil megawatts e deixando os 23,9 mil dos alemães em segundo lugar. A China, pressionada por níveis quase insuportáveis de poluição atmosférica, mas disposta a garantir a manutenção da irresistível escalada industrial, mais que dobrou a geração eólica em 2008. Chegou a 12,2 mil megawatts, tomando da Índia a liderança asiática.

Quando se mede a geração eólica na matriz elétrica total, os europeus ganham fácil. Na Dinamarca, ela já responde por quase 25%. Na Espanha, na Alemanha e em Portugal está perto dos 10% . Já nos Estados Unidos, ainda ronda a casa de 1%.

O Brasil lidera a geração na América Latina e Caribe, região cuja potência instalada em 2008 (625 megawatts) não passava de 0,5% da mundial. É verdade que, graças ao Proinfa, o programa do governo para incentivar a produção de energia elétrica de fontes renováveis, a capacidade brasileira saltou de irrisórios 29 megawatts, em 2005, para os atuais 403 megawatts, ainda assim menos de 0,5% da geração elétrica total do país.

O salto teria sido maior se os 1.423 megawatts contratados no âmbito do Proinfa, para instalação de 2006 a 2008, tivessem se concretizado. Suspeita-se que uma parte dos projetos não eram mesmo para serem feitos, mas para serem revendidos com lucro. Sem sucesso nos leilões de energia livre, a opção eólica ficou carente de um teste para medir sua real potencialidade no país.

O primeiro leilão para contratar especificamente energia eólica, marcado para 25 de novembro, nasceu com esse objetivo. As inscrições superaram as expectativas. Nada menos do que 13,3 mil megawatts, ofertados por 441 projetos, se habilitaram. Contratos de 20 anos e alíquota zero de IPI para equipamentos nacionais fazem parte do pacote que justificou tamanha atratividade.

“O Proinfa foi o pontapé inicial. O leilão pode dar força e perenidade ao mercado”, avalia Rafael Alves. Os técnicos do BNDES entendem que esta é a hora certa para a indústria brasileira aproveitar os bons ventos, como já fazem europeus, americanos e asiáticos. Chamam a atenção para o fato de que na Alemanha o complexo industrial em torno da energia eólica já emprega mais gente do que a indústria automobilística. Em 2007, a indústria eólica alemã faturou € 6,5 bilhões, 70% com exportações. Na Dinamarca, são 180 empresas, empregando 20 mil pessoas e movimentando US$ 4,4 bilhões por ano. A dinamarquesa Vestes lidera o ranking mundial de fabricantes de aerogeradores, seguida da americana GE Wind, da espanhola Gamesa e da alemã Enercon.

No Brasil, até o ano passado existia apenas a Wobben Windpower, subsidiária da Enercon. No ano passado, o grupo argentino IMPSA instalou aqui uma planta com o nome de Wind Power Energy (WPE). A nacional Tecsis é grande produtora de hélices eólicas para exportação. O possível sucesso do leilão de novembro, anteveem os técnicos do BNDES, pode rapidamente atrair para cá novos fabricantes estrangeiros e estimular o surgimento de outros de capital nacional.

Energia limpa, com enorme potencial e poucas restrições relevantes à sua produção, a geração eólica enfrenta duas sérias limitações. Uma delas é o preço alto, que pode cair com o aumento da produção e o desenvolvimento técnico.

A segunda, mais complexa, é a inconstância e baixa previsibilidade dos ventos. Segundo o estudo do BNDES, na Alemanha a geração eólica efetiva em relação à capacidade instalada fica entre 20% a 30%. Daí não serem triviais os alertas de técnicos respeitados quanto ao planejamento adequado do seu desenvolvimento no Brasil, país que possui uma matriz elétrica centrada em outra fonte volátil e limitada por dificuldades crescentes para seu armazenamento, a hidreletricidade. O kitesurfista pode esperar as melhores lufadas. O abastecimento elétrico, nem sempre.

Projeto brasileiro é escolhido entre 16 no mundo para Programa de Desenvolvimento Positivo do Clima – 29/5/2009

Projeto brasileiro é escolhido entre 16 no mundo para Programa de Desenvolvimento Positivo do Clima – 29/5/2009

Fonte:Pini Web

Empreendimento Pedra Branca será um dos fundadores de programa lançado pela Clinton Climate Initiative para apoiar projetos urbanos com forte exemplo ambiental e econômico
Por Ana Paula Rocha
A CCI (Clinton Climate Initiative) escolheu o empreendimento Pedra Branca, da Pedra Branca Urbanismo, localizado na cidade de Palhoça, em Santa Catarina, para ser um dos 16 projetos fundadores do Programa de Desenvolvimento Positivo do Clima. O programa, que foi lançado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, vai apoiar o desenvolvimento de projetos urbanos de larga escala considerados um forte exemplo ambiental e econômico a ser seguido pelas cidades. O empreendimento também já foi premiado na XI Bienal Internacional de Arquitectura de Buenos Aires 2007, na categoria urbanismo.

O projeto Pedra Branca começou a ser construído em 2000 e aposta no conceito bairro-cidade com cerca de 1,7 milhões de m². O empreendimento prevê a construção de unidades residenciais, comerciais, hotel, áreas de educação e lazer para que os habitantes possam morar, trabalhar e se divertir em um único bairro. Em até quinze anos deverá abrigar cerca de 30 mil pessoas no local, tornando-se um novo centro para a região continental da Grande Florianópolis, pois está localizado a 15 km da capital catarinense.

Entre as atitudes sustentáveis utilizadas no projeto, estão as pistas de ciclismo e a proximidade entre os blocos residenciais e comerciais para que a distância possa ser percorrida a pé. A arquitetura de Pedra Branca também seguirá os padrões LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) para obter o máximo grau de eficiência ambiental.

O Programa de Desenvolvimento Positivo do Clima dará agora apoio ao processo de planejamento e implementação de sistemas sustentáveis no Pedra Branca, como a geração de energia limpa, gerenciamento de resíduos, gerenciamento de água, sistemas de transporte e de iluminação pública ecoeficientes. Os outros quinze projetos selecionados pela CCI estão localizados nos Estados Unidos, Austrália, Canadá, Índia, Panamá, África do Sul, Coreia do Sul, Suécia e Reino Unido.

Conselho de sustentabilidade para construção civil – 20/5/2009

Conselho de sustentabilidade para construção civil – 20/5/2009

Fonte:Agência Estado

Será lançado hoje (19), em Brasília, durante o 1.º Seminário Internacional Construções Sustentáveis para uma Nova Economia, em Brasília, o Conselho Nacional de Construções Sustentáveis, que deverá contar com a participação de empresários, pesquisadores, governos e instituições civis ligadas ao setor da construção civil.

De acordo com o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Paulo Simão, a idéia é estabelecer uma aliança entre governo e o setor da construção civil para que tenhamos uma política pública de sustentabilidade no setor. Durante o evento, serão discutidas novas tecnologias capazes de elevar a eficiência energética em habitações, uso de fontes renováveis e certificação de produtos e obras. Os participantes também vão abordar a questão da definição de critérios de sustentabilidade por parte do governo federal no âmbito do PAC da habitação.

Pesquisa realizada pela Green Building Council do Brasil, os edifícios construídos com tecnologias sustentáveis podem poupar até 30% de energia, 50% de água e diminuir a produção de resíduos sólidos. No Distrito Federal, por exemplo, o volume de resíduos de obras chega a 6 mil toneladas por dia. Mais da metade vai para o meio ambiente, causando impacto nos ecossistemas, afirma Raquel Naves Blumenschein, coordenadora do Laboratório do Ambiente, Construção, Inclusão e Sustentabilidade, da Universidade de Brasília. (Agência Envolverde)

Poucos adotam “selo verde” no País – 15/5/2009

Poucos adotam “selo verde” no País – 15/5/2009

Fonte:O Estado de São Paulo

Certificações servem de instrumento para o consumidor consciente, mas ainda falta disseminar informação

Lucas Frasão, Especial para O Estado

    A diretora de estudos e pesquisa do Procon (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) de São Paulo, Valéria Rodrigues Garcia, defende que esses produtos devem informar sobre o processo que garantiu o reconhecimento da marca. Ela não se lembra de ter recebido, até hoje, nenhuma reclamação de consumidores sobre a qualidade sustentável de um produto. Mas “nada impede alguém de fazer uma denúncia se desconfiar de algum certificado”.

    Na opinião de Lisa Gunn, coordenadora executiva do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a certificação é um instrumento importante na hora da compra, porque ajuda a identificar produtos de menor impacto ambiental. Mesmo assim, é preciso manter a atenção. “O consumidor tem de saber distinguir a autodeclaração da certificação, que envolve uma terceira parte (outra empresa ou certificadora)”, diz ela.

    Também é necessário avaliar se o selo certifica um produto ou indica o sistema de gestão de determinada empresa. “Um modelo de gestão sustentável não indica, necessariamente, que o produto comercializado é ambientalmente melhor. Assim como o produto certificado não atesta a gestão sustentável de uma empresa.”

    Além disso, alguns setores não têm um sistema padronizado, que ofereça informação confiável ao comprador. “A maioria dos produtos, por exemplo, ainda não informa a melhor forma de descartar a embalagem”, diz Valéria.

    O Idec elaborou o Manual de Consumo Sustentável, adotado em 2005 como material de referência pelo Ministério da Educação para instruir professores sobre consumo e sustentabilidade. Hoje, o documento guia também vendedores e compradores com consciência ecológica. O site da instituição (idec.org.br) disponibiliza o manual para download gratuito.

    Para ter ideia do tamanho da demanda por produtos ecologicamente corretos, o Instituto Akatu, que considera o consumidor como agente transformador, realizou em 2006 uma pesquisa com 1.275 pessoas em 11 cidades brasileiras.

    Apenas 33% dos entrevistados foram classificados como engajados ou conscientes. “O consciente é o top e entende a questão ambiental inserida no contexto coletivo. Ele compra produtos com certificado, pede nota fiscal e economiza água. O engajado está a caminho do consciente”, diz Dorothy Roma, gerente de pesquisas e métricas do Akatu.

    Catálogo Sustentável

    A profissional de relações públicas Thaís Cavicchioli, de 21 anos, é uma das consumidoras conscientes que encontraram na internet uma boa fonte de informação sobre produtos. Antes de fazer uma compra, ela consulta o site Catálogo Sustentável (catalogosustentavel.com.br), desenvolvido pelo Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “No supermercado, é difícil ver se um produto é realmente sustentável”, diz.

    No ar desde abril do ano passado, o site conta hoje com cerca de 560 itens cadastrados, entre produtos e serviços. Todos precisam passar por uma avaliação para entrar na lista. “Não consideramos nenhum selo verde que não tenha critérios objetivos”, afirma Luciana Stocco Betiol, coordenadora do Programa de Consumo Sustentável da fundação.

    Normatização

    Até o próximo ano também deve ser publicado outro indicador de sustentabilidade. A Organização Internacional para Padronização (ISO, na sigla em inglês) promoverá um encontro na semana que vem, no Canadá, para produzir a versão semifinal do ISO 26.000.

    Entre as normas da instituição, esta será a mais sustentável até hoje, porque pretende criar padrões de responsabilidade social. “O tema é complexo. Vai de direitos humanos a governança corporativa, de meio ambiente ao direito do consumidor”, diz Aron Belinky, um dos redatores principais do documento, que vai servir como uma guia de diretrizes para melhorar sistemas de gestão, e não um certificado.

    Pesquisa de valores dos moradores de conjuntos da CDHU abre espaço para sustentabilidade

    Pesquisa de valores dos moradores de conjuntos da CDHU abre espaço para sustentabilidade – 14/5/2009

    Fonte:Revista Sustentabilidade

    Escrito por Alexandre Spatuzza

    Maior espaço para jardins e áreas verdes, locais para desenvolver coleta seletiva e elementos arquitetônicos que deêm mais segurança e privacidade são algumas das sugestões que um grupo de urbanistas fizeram à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) do governo do estado de São Paulo.

    “Recomendamos que alguns itens sejam substituídos para implementar outros que a população valoriza mais,” disse a coordenadora da pesquisa Doris Kowaltowsky da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp.

    O projeto foi custeado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do governo federal por meio do programa Habitare e envolveu a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de São Paulo – São Carlos e a Universidade Federal de Pelotas

    A arquiteta disse que a pesquisa tentou levantar diretamente o que os moradores dos conjuntos existentes valorizam por meio de cartilhas com 26 indicadores, diferenciando-se das pesquisas anteriores que levantavam o índice de satisfação dos moradores.

    “Como grande parte da população vinha de situação de moradia precária, existe um alto índice de satisfação, que não indica o que realmente esta população valoriza”, explicou.

    Apesar da maioria dos resultados terem reforçado as expectativas, alguns foram surpreendentes como a preocupação com a privacidade, o barulho e áreas verdes.

    Aspectos como preocupação com o custo de manutenção, segurança e espaço interno já tinham sido captados em outras pesquisas.

    Segundo a pesquisadora, o conhecimento da cadeia de valores pode permitir mudanças pontuais e conceituais na elaboração dos projetos do CDHU.

    De acordo com a arquiteta, o fato das pessoas estarem preocupadas com os custos abre espaço para implementação de tecnologias e elementos de preservação de recursos naturais como água, redução do gasto de energia e a implementação de áreas para realizar a coleta seletiva.

    Ela também sugeriu que a CDHU preste mais atenção ao paisagismo, abrindo espaço para que a própria população plante e cuide de árvores e outras plantas no próprio terreno dos condomínios.

    “Apesar desta população não fazer a relação com o meio ambiente, estas questões podem trazer um fator de sustentabilidade para os novos projetos” explicou.

    Para adequar os custos dos projeto, Kowaltowsky sugeriu a remoção de alguns elementos para poder implantar estas tecnologias.

    “Todos os conjuntos habitacionais são construídos com um centro comunitário que não é usado pelos moradores,” disse. “Este custo pode ser transferido e no lugar construir uma churrasqueira que pode ser alugada pelos moradores para fazer suas festas”.

    Para ela, é preciso também fazer um melhor uso da estrutura de apoio social durante os primeiros meses de ocupação da nova população dos conjuntos, levando organizações não governamentais e assistentes sociais para ajudar a resolver questões relacionadas ao convívio, segurança, operação e manutenção dos conjuntos.

    12/05/2009 Comunidade alemã decide ter uma vida sem automóveis e vira referência

    12/05/2009

    Comunidade alemã decide ter uma vida sem automóveis e vira referência

    The New York Times
    Elisabeth Rosenthal
    Em Vauban (Alemanha)

    Os moradores desta comunidade afluente são pioneiros suburbanos. Eles superaram a maioria das mães que levam os filhos para jogar futebol ou executivos que fazem todos os dias o trajeto dos subúrbios até o centro da cidade: essas pessoas abriram mão dos seus carros.

    Estacionamentos de rua, driveways (pequena estrada que vai geralmente da entrada da garagem até a rua) e garagens são, em geral, proibidas neste novo distrito experimental na periferia de Freiburg, perto da fronteira com a Suíça.

    • Martin Specht/The New York TimesMulher caminha com sua criança por rua exclusiva para trânsito de pessoas e bicicletas em Vauban
    • Martin Specht/The New York TimesOutra mãe caminha com seu filho em bicicleta pelas tranquilas ruas de um bairro de Vauban

    Nas ruas de Vauban os carros estão totalmente ausentes – com exceção da rua principal, por onde passa o bonde para o centro de Freiburg, e de umas poucas ruas na zona limítrofe da comunidade. A propriedade de automóveis é permitida, mas só há dois locais para estacionamento – grandes garagens localizadas no limite da comunidade, onde os proprietários compram uma vaga, por US$ 40 mil, juntamente com uma casa.

    Como resultado, 70% das famílias de Vauban não têm automóveis, e 57% venderam o carro para se mudarem para cá.

    “Quando eu tinha carro, estava sempre tensa. Desta forma sou muito mais feliz”, afirma Heidrun Walter, profissional de mídia e mãe de dois filhos, enquanto caminha pelas ruas cercadas de verde, onde o ruído das bicicletas e a conversa das crianças que passeiam abafam o barulho ocasional de um motor distante.

    Vauban, que foi concluída em 2006, é um exemplo de uma tendência crescente na Europa, nos Estados Unidos e em outros locais. Trata-se da separação entre a vida suburbana e a utilização de automóveis, como parte integrante de um movimento chamado de “planejamento inteligente”.

    Os automóveis são um fator de coesão dos subúrbios, onde as famílias de classe média de Chicago a Xangai costumam construir as suas residências. E, isso, segundo os especialistas, consiste em um grande obstáculo para os atuais esforços no sentido de reduzir drasticamente as emissões de gases causadores do efeito estufa que saem pelos canos de descarga, com o objetivo de reduzir o aquecimento global. Os carros de passageiros são responsáveis por 12% das emissões de gases causadores do efeito estufa na Europa – uma proporção que só está aumentando, segundo a Agência Ambiental Europeia -, e por até 50% em algumas áreas dos Estados Unidos.

    Embora nas duas últimas décadas tenha havido tentativas de tornar as cidades mais densas e mais propícias para as caminhadas, os planejadores urbanos estão levando agora esse conceito para os subúrbios e concentrando-se especificamente em benefícios ambientais como a redução de emissões. Vauban, que tem 5,500 habitantes e uma área aproximada de 2,6 quilômetros quadrados, pode ser a experiência mais avançada em vida suburbana com baixa utilização de automóveis. Mas os seus preceitos básicos estão sendo adotados em todo o mundo em tentativas de tornar os subúrbios mais compactos e mais acessíveis ao transporte público, com menos espaço para estacionamento. Segundo essa nova abordagem, os estabelecimentos comerciais situam-se ao longo de calçadões, ou em uma rua principal, e não em shopping centers à beira de uma auto-estrada distante.

    “Todo o nosso desenvolvimento desde a Segunda Guerra Mundial esteve concentrado no automóvel, e isso terá que mudar”, afirma David Goldberg, funcionário da Transportation for America, uma coalizão de centenas de grupos nos Estados Unidos – incluindo instituições ambientais, prefeituras e a Associação Americana de Aposentados – que estão promovendo novas comunidades que sejam menos dependentes dos carros. Goldberg acrescenta: “A quantidade de tempo que se passa ao volante de um carro é tão importante quanto possuir um automóvel híbrido”.

    Levittown e Scarsdale, subúrbios de Nova York com casas de áreas enormes e garagens privadas, eram os bairros dos sonhos na década de 1950, e ainda atraem muita gente. Mas alguns novos subúrbios podem muito bem lembrar mais Vauban, não só nos países desenvolvidos, mas também no mundo subdesenvolvido, onde as emissões da frota cada vez maior de carros particulares da crescente classe média estão sufocando as cidades.

    Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental está promovendo as “comunidades com número reduzido de carros”, e os legisladores estão começando a agir, apesar de que com cautela. Muitos especialistas acreditam que o transporte público que atende aos subúrbios desempenhará um papel bem maior em uma nova lei federal de transporte aprovada neste ano, afirma Goldberg. Nas legislações anteriores, 80% das apropriações destinavam-se, por lei, a auto-estradas, e apenas 20% a outras formas de transporte.

    Na Califórnia, a Associação de Planejamento da Área de Hayward está desenvolvendo uma comunidade semelhante a Vauban chamada Quarry Village, nos arredores de Oakland. Os seus moradores podem ter acesso sem carro ao sistema de trânsito rápido da Área da Baía e ao campus da Universidade Estadual da Califórnia em Hayward.

    • Martin Specht/The New York TimesPlacas como esta foram instaladas pelas ruas do distrito de Vabuan, nos arredores de Freiburg

    Sherman Lewis, professor emérito da universidade e líder da associação, diz que “mal pode esperar para mudar-se” para a comunidade, e espera que Quarry Village possibilite que ele venda um dos dois automóveis da família e, quem sabe, até mesmo os dois. Mas o atual sistema ainda conspira contra o projeto, diz ele, observando que os bancos imobiliários temem uma queda do valor de revenda de casas de meio milhão de dólar que não têm lugar para carros. Além disso, a maior parte das leis de zoneamento urbano dos Estados Unidos ainda exige duas vagas para automóveis por unidade residencial. Quarry Village obteve uma isenção dessa exigência junto às autoridades de Hayward.

    Além disso, geralmente não é fácil convencer as pessoas a não terem carros.

    “Nos Estados Unidos as pessoas são incrivelmente desconfiadas em relação a qualquer ideia de não possuir carros, ou mesmo de ter menos veículos”, diz David Ceaser, co-fundador da CarFree City USA, que afirma que nenhum projeto suburbano do tamanho de Vauban banindo os automóveis teve sucesso nos Estados Unidos.

    Na Europa, alguns governos estão pensando em escala nacional. Em 2000, o Reino Unido deu início a uma iniciativa ampla no sentido de reformar o planejamento urbano, desencorajando o uso de carros ao exigir que os novos projetos habitacionais fossem acessíveis por transporte público.

    “Os módulos urbanos relativos a empregos, compras, lazer e serviços não devem ser projetados e localizados sob a premissa de que o automóvel representará a única forma realista de acesso para a grande maioria das pessoas”, afirma o PPG 13, o documento revolucionário de planejamento, lançado pelo governo britânico em 2001. Dezenas de shopping centers, restaurantes de fast-food e complexos residenciais tiveram a licença recusada com base na nova regulamentação britânica.

    Na Alemanha, um país que é a pátria da Mercedes-Benz e da Autobahn, a vida em um local onde a presença do automóvel é reduzida, como Vauban, tem o seu próprio clima diferente. A área é longa e relativamente estreita, de forma que o bonde que segue para Freiburg fica a uma distância relativamente curta a pé a partir de todas as casas. Ao contrário do que ocorre em um subúrbio típico, aqui as lojas, restaurantes, bancos e escolas estão mais espalhadas entre as casas. A maioria dos moradores, como Walter, possui carrinhos que são rebocados pelas bicicletas para fazer compras ou levar as crianças para brincar com os amigos.

    Para deslocamentos a lojas como a Ikea ou às colinas de esquiação, as famílias compram carros juntas ou usam automóveis arrendados comunitariamente pelo clube de compartilhamento de automóveis de Vauban.

    Walter já morou – com carro privado – em Freiburg e nos Estados Unidos.

    “Se você tiver um carro, a tendência é usá-lo”, diz ela. “Algumas pessoas mudam-se para cá, mas vão embora logo – elas sentem saudade do carro estacionado em frente à porta”.

    Vauban, local em que se situava uma base do exército nazista, ficou ocupada pelo exército francês do final da Segunda Guerra Mundial até a reunificação da Alemanha, duas décadas atrás. Como foi projetada para ser uma base militar, a sua planta nunca previu o uso de carros privados: as “ruas” eram passagens estreitas entre as instalações militares.

    Os prédios originais foram demolidos há muito tempo. As elegantes casas enfileiradas que os substituíram são construções de quatro ou cinco andares, projetados de forma a reduzir a perda de calor e maximizar a eficiência energética. Elas possuem madeiras exóticas e varandas elaboradas; casas isoladas das outras são proibidas.

    Por temperamento, as pessoas que compram casas em Vauban tendem as ser “porquinhos da índia verdes” – de fato, mais da metade dos moradores vota no Partido Verde alemão. Mesmo assim, muitos afirmam que o que os faz morar aqui é a qualidade de vida.

    Henk Schulz, um cientista que em uma tarde do mês passado observava os três filhos pequenos caminhando por Vauban, lembra-se com entusiasmo da primeira vez que comprou um carro. Agora, ele diz que está feliz por criar os filhos longe dos automóveis; ele não tem que se preocupar muito com a segurança deles nas ruas.

    Nos últimos anos, Vauban tonou-se um nicho comunitário bem conhecido, apesar de não ter gerado muitas imitações na Alemanha. Mas não se sabe se este conceito funcionará na Califórnia.

    Mais de cem candidatos se inscreveram para comprar uma casa na Quarry Village, e Lewis ainda está procurando um investimento de US$ 2 milhões para dar início ao projeto.

    Mas, caso a ideia não dê certo, a sua proposta alternativa é construir no mesmo local um condomínio no qual o uso do automóvel seja totalmente liberado. Ele se chamaria Village d’Italia.

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