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Sem ação – Valor Economico

6/02/2013 às 00h00

Sem ação

Por Luciana Seabra e Catherine Vieira | De São Paulo
 

Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/ValorStuhlberger: “Alguma coisa eu tenho na posição, mas olho um pouco este Brasil e digo… hum, não estou convencido”

 

“Tá quanto? Não, fico fora, obrigado.” Não se sabe exatamente a que ativo ele se referia, mas não resta dúvida de que a frase ao telefone, dita pelo gestor Luis Stuhlberger a um de seus operadores durante esta entrevista, é, de certa forma, um resumo de sua disposição hoje com vários ativos brasileiros. Se o mundo lá fora está começando a ter nuvens menos carregadas e o dinheiro começa a fluir para o risco – o que significa ações e mercados emergentes -, talvez o Brasil até aproveite algo dos benefícios disso, mas menos do que poderia. A falta de investimento e o esgotamento do modelo de crescimento baseado em consumo começam a mostrar a fatura.

Stuhlberger enxerga desequilíbrios no que chama de “bocas de jacarés”. É uma referência ao desenho que se forma em um gráfico que confronta o avanço veloz do consumo com o crescimento tímido do investimento. Ou no que retrata a diferença entre a dívida líquida pública oficial e a real, em que soma o crédito concedido recentemente às estatais.

 

 

Um tanto pessimista, confessando uma ligeira ‘depressão pós-férias’, o diretor da Credit Suisse Hedging Griffo (CSHG) recebeu o Valor na sede da gestora. O reflexo do estado de espírito está em seu conceituado fundo Verde, que nunca teve tão poucas ações brasileiras – apenas 16% do patrimônio, contra uma média histórica de 33%. Este percentual alocado em ações continua, mas, agora, empresas locais dividem espaço com as estrangeiras. Em 2012, a bolsa foi o mercado que mais deu alegrias ao Verde, que rendeu 19,55%, enquanto o Ibovespa subiu 7,4% e o CDI, 8,4%. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Crise global

Estamos todos perdendo o medo de que o mundo vai acabar. Existe um baixo crescimento, mas aquele medo caótico, ou de quebra das finanças públicas e de bancos ou de que as populações e os governos [europeus] não iriam votar a austeridade e ia haver algum tipo de revolta, está passando por uma fase que terminou, ninguém mais fala nisso e esse medo não está nas cotações. Não acho que agora dá para dizer que os problemas do Brasil são culpa dos americanos, dos europeus ou dos russos, dos árabes, dos gregos. Os problemas nossos serão nossos. Os emergentes vão ter um ambiente melhor para crescer e competir.

Rotação para o risco

Estamos [o mundo] num processo de rotação de investimentos de ‘bonds para equity’ [bônus para ações], uma retomada do risco. Muita gente chama isso de grande rotação. Tanto para ações, quanto fluxo para mercados emergentes. É um dinheiro que estava meio empoçado muito tempo, com medo de que o mundo iria acabar. E houve a aprovação das agendas de austeridade na Europa e agora nos EUA essa discussão do abismo fiscal, e tudo mais ou menos está andando. É um ambiente benéfico, mas óbvio não dá para se garantir que é benéfico ‘forever’.

Alguém tem que ceder

Eu tenho um tema macro [sobre o Brasil] que eu chamo, lembrando aquele filme, de “Alguém tem que ceder”. Dado que as bocas de jacaré não fecharam, ou vai ter mais inflação ou o câmbio vai depreciar, ou você vai ter um problema nas finanças públicas. Eu tenho várias teses no fundo para me beneficiar disso. Só que isso custa caro. No sentido de que enquanto não acontece, você perde dinheiro. Outra questão é que todo mundo acha que a única consequência desse colapso de modelo é crescer pouco, certo? É isso: cresce pouco e so what? So what? Não tem nenhuma influência sobre o câmbio, sobre inflação, nenhum colapso das finanças públicas? Ninguém olha isso. Tenho esse meu mundo particular. Mas agora é um “play” mais difícil, porque ao mesmo tempo em que minha visão é pessimista, não está prestes a acontecer.

Modelo insustentável

Começo a olhar meio perplexo esses pontos todos, olhando o porquê do colapso do modelo. O governo age quando as coisas dão errado, porque em time que tá ganhando você não mexe. Eu olho essa boca de jacaré varejo versus investimentos, que é impressionante. Olhando outros países como Coreia, México, existe isso, mas não dessa forma, bem mais amena. Não é sustentável. Os investimentos têm que voltar.

Investimento

Olhando o lado do governo, como ele não quer que consumo caia, obviamente você tem que fazer crescer investimentos. Para isso, precisa de crédito do governo, do BNDES, investimento público, e isso eles estão fazendo. Precisa instaurar um clima de confiança entre o empresariado e o governo, e acho que isso não tá ocorrendo. Os empresários estão com medo de investir por várias questões. Mas o principal é o momento em que as empresas vivem, de colapso de modelo, porque como a tributação não cai e a massa de salário sobe, sem ganho de produtividade, as empresas têm uma compressão de margem. Tudo demora, tudo custa mais caro e os impostos e salários avançam na lucratividade.

Confiança

A retomada da confiança vem no sentido de achar que as condições que o país tem pra crescer são satisfatórias. Isso ainda é baixo. O trabalho que a Dilma está fazendo de desoneração é positivo. Só que esse clima de confiança demora um longo tempo pra vir. O efeito colateral da quebra do modelo, da gente crescer sem ter cuidado da base, leva tempo pra ir embora. É como qualquer negócio que está indo mal, você começa a consertar, mas os resultados demoram muito para aparecer. E a nossa perda de competitividade vis-à-vis os demais países emergentes é evidente e muito rápida, muito grande. Não é só culpa da Dilma, ela pegou uma herança negativa está tentando consertar algo que leva muito tempo e com um orçamento limitado.

Ceticismo

O maior problema é destravar o crescimento. Então, apesar do bom ambiente, apesar dos fluxos para emergentes e apesar de um certo otimismo global, eu estou ainda bem cético quanto ao Brasil. Aí você me pergunta o seguinte: bom, você não acha que vem fluxo pra cá, que vem investimento, que vai ter comprador para as ações? Vai. A única coisa que eu acho é que o ‘valuation’ das empresas da bolsa no Brasil não é barato.

Ações caras

Na bolsa, por que eu estou digamos assim, cético e bem underweight [abaixo da média] em Brasil, eu diria, para o meu padrão? Porque não acho o valuation das empresas boas brasileiras compatível com o risco. O Brasil ficou assim, com aqueles ‘value traps’ [armadilhas] do índice [Bovespa], aquelas companhias que ninguém mais quer saber, o setor elétrico ficou ruim; aço tem ‘overcapacity’ no mundo, estatais são mal geridas, petróleo é um bicho com um capex [investimento] enorme e de longo prazo que demora para entregar, as construtoras com problemas de demora na entrega e aumento de custo, os bancos com um certo ROE [retorno sobre patrimônio líquido] meio induzido pelo governo a ser menor. Então aquela agenda que eu falei no ano passado, ‘o que é ruim para o Ibovespa é bom para o Brasil’, meio que agora ninguém quer saber dessas ações e aí as outras, que são as ligadas ao consumo e alguns outros setores, já não estão baratos, para o Brasil de hoje, meio estagnado.

Preço e fundamento

Não estou excessivamente pessimista, apenas acho que tudo é ‘valuation’ ajustado ao risco. No começo de 2009 eu estava comprando tudo. As pessoas perguntavam: mas você está otimista? ‘Não, estou bem pessimista, mas também, por esse preço, eu compro.’ Hoje, a maioria dessas ações está quatro vezes o preço que eu paguei em 2009. Não estou dizendo as do índice, essas outras, educação, varejo, consumo.

“All time low”

Meu investimento em bolsa hoje está na média em 33%, só que o que antes estava no Brasil está espalhado. A gente está comprando muita coisa no exterior. Eu estou no “all time low” [nível mais baixo] de investimento em ações brasileiras, quer dizer hoje o [fundo] Verde está com cerca de 16% nessas ações, que é o nível mais baixo que eu me lembro na história, e estou com o nível mais alto de investimento em ações fora do Brasil, algo como 16% e 17%, pela primeira vez elas estão equilibradas, eu tenho metade no Brasil e metade fora.

NTN-Bs longas

O problema de você comprar uma NTN muito longa é a sustentabilidade fiscal de longo prazo. Nossa dívida/PIB é baixa, uns 35% do PIB. Mas o estímulo fiscal do governo às estatais criou um estoque de crédito de 9% do PIB. Obviamente, parte disso vai virar dívida. Com certeza a Caixa vai precisar de capitalização, um dia o BNDES vai precisar… Tem um certo investimento perdido, que ainda não virou dívida, mas vai virar. Ainda assim a dívida é baixa perto do resto do mundo. O problema quando analiso quadros desse tipo em situações não equilibradas é o que eu chamo de foto boa em filme ruim. Se você olhar a Espanha em 2007, o quadro fiscal é uma maravilha. Depois que a bolha estoura, a dívida cresce exponencialmente. Mas eu não estou dizendo que isso esteja perto de acontecer.

Zero de bolsa

Quando eu olho Brasil, digo ok, apesar do fluxo, esses preços não valem. Mas, no fundo, essas coisas não são simples. Os mercados um dia sempre voltam para o fundamento, mas as coisas ficam irracionais muito antes que seu dinheiro aguenta. Então, acho que se essa festa continuar sem que o fundamento do Brasil melhore, eu posso ir pra zero de bolsa [local].

Sem Blue Chip e Photoshop

Para dizer a verdade, ‘blue chip’ eu hoje não tenho nenhuma, não consigo comprar nada. Tenho investimentos relevantes em umas dez companhias. (…) Não quer dizer que eu não estou comprado em algumas coisas, vendido em outras. Alguma coisa tenho na posição. Mas olho um pouco esse Brasil e digo… “hum, não estou convencido”. Estou pagando para ver que o dano colateral vai vir mais rápido do que as melhorias. E o investidor me cobra todo dia. Ser gestor de recursos é pior que mulher posar para a “Playboy”. Minha cota está lá para todo mundo ver, nua e crua. Se eu errar, não tem photoshop.

Esperando pra ver

Eu tô naquela fase “I’m gonna wait and see”. Se subir mais um pouco, eu vou vender é tudo [em ações brasileiras]. Por enquanto está medianamente caro. Se tiver uma festa realmente grande… Eu vou esperar, porque não consigo me convencer que, apesar do mundo bom, a gente não vai ter problemas. Podemos até não ter problemas, mas o preço não justifica. Às vezes é mais fácil pegar uma tendência e dizer “I go with the crowd”. A decisão que estou tomando, que é muito angustiante, é dizer: vamos esperar uns meses para ver para onde vamos no câmbio, inflação, PIB e finanças públicas.

Impopular na escola

Meu comentário é estrutural, foi aí que eu fiz meus grandes acertos na vida. Mas não é fácil, porque você tem de ir contra a corrente. Mas acho que eu nasci assim. Falei para minha filha de 14 anos: eu era o cara mais impopular da escola. Você tem que ter esse DNA. Sempre fui na minha. Vamos ver. Até espero estar errado, para o bem do Brasil.

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WTorre tenta novamente entrar na bolsa

Construção: Modelo de negócio e prejuízos nos últimos anos não devem facilitar tarefa.

WTorre tenta novamente entrar na bolsa

    Por Daniela D’Ambrosio e Fernando Torres, de São Paulo
    02/03/2010

A abertura de capital da WTorre não deveria ser exatamente uma surpresa para o mercado. Desde a primeira tentativa, em 2007, a empresa anuncia que se prepara para estrear na bolsa. O momento, no entanto, é considerado arriscado. Com um modelo de negócios diferente e um resultado que exige alguns minutos de explanação – foram três anos seguidos de prejuízo, sendo de R$ 164 milhões em 2008 e de outros R$ 148 milhões no ano passado, além de um endividamento de R$ 1,6 bilhão – a companhia aproveita a janela de oportunidade para tentar levantar mais de R$ 1 bilhão na bolsa, segundo apurou o Valor. Há dúvidas de analistas, porém, em relação à demanda pelo ativo.

Com um estilo ousado e agressivo – os adjetivos mais usados pelo setor para defini-lo – Walter Torre é considerado polêmico, mas também reconhecido por ter construído um portfólio de qualidade, com inquilinos do porte de multinacionais como Petrobras, Vale, Unilever e Procter & Gamble. E é justamente essa fatia da empresa que vai a mercado. Com um negócio extremamente amplo, que inclui uma empresa de baixa renda batizada de Guanandi e um dique seco no Rio Grande do Sul, a WTorre pretende abrir capital dos ativos imobiliários, tanto comerciais, quanto de logística e industriais (construídos no modelo “build to suit”, processo que promoveu o crescimento da companhia, antes de entrar em vários outros negócios) . Ao todo são 44 imóveis, entre alugados e em construção.

Apesar da qualidade do portfólio, fontes avaliam que o mercado já deu uma resposta negativa ao modelo de negócios da WTorre. No “build to suit”, a empresa financia suas obras (feitas sob medida para o inquilino) dando como garantia os alugueis futuros, em contratos de 10 anos, geralmente. Nesse modelo, a companhia capta 100% da dívida para construir o projeto. “O retorno para o investidor vem lá na frente quando os CRIs [certificados de recebíveis imobiliários] começam a ser amortizados”, afirma fonte. O que a empresa ganha com o aluguel do portfólio fica comprometido com o pagamento da dívida no longo prazo. Os investidores costumam preferir negócios com giro maior. Não por acaso, o braço da W Torre que vai a mercado pretende investir também na incorporação.

No segundo semestre do ano passado, segundo fontes, a W Torre tentou vender a área de engenharia, mas desistiu do negócio e praticamente desmontou a área. Vários profissionais saíram da companhia no último ano.

Em 2009, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (lajida) foi de R$ 29 milhões, considerado baixo por analistas. Em 2008, quando vendeu uma torre do Complexo JK para o Santander por R$ 1,04 bilhão, seu lajida foi de R$ 476 milhões. No resultado deste ano deve aparecer o ganho relativo a um prédio vendido à Previ em fevereiro.

Parte do prejuízo dos últimos anos pode ser explicado pelo resultado financeiro, que foi negativo em R$ 127,9 milhões em 2009 e de R$ 243,9 milhões no ano anterior. A dívida total da empresa era de R$ 2,378 bilhões ao fim do ano passado. Excluindo a parcela relativa a certificados de recebíveis imobiliários, que está casada com os direitos sobre os aluguéis, a dívida da companhia fica em R$ 1,6 bilhão, sendo que R$ 541 milhões vencem este ano. O caixa é de R$ 153 milhões.

Embora não revele o percentual, a empresa diz que parte dos recursos que vai captar será usada para amortização de dívida e capital de giro. Do total de empréstimos da empresa, R$ 787 milhões são com o Santander e com o Banco Votorantim, que possuem fatias de 8,55% e 6% do capital social da WTorre Empreendimentos.

Por conta de empréstimos feitos em 2007, os dois bancos possuem ainda contratos que lhe dão direito a indicar um membro do conselho de administração e também garantem poderes especiais que exigem a autorização deles para que a companhia altere o estatuto, faça reorganizações societárias, emita dívida etc. A oferta secundária, na opinião de fontes do mercado, será feita para viabilizar a saída dos bancos Santander e Votorantim do capital da empresa

O parecer da auditoria KPMG sobre as demonstrações financeiras da empresa imobiliária de 2009 menciona a existência de R$ 135 milhões em depósitos da companhia que foram bloqueados pelo Sanander, a título de multa contratual por conta do atraso na entrega do “Habite-se” da torre vendida à instituição financeira. A WTorre tem uma provisão de R$ 18 milhões para pagar a multa, o que diz ser a melhor estimativa de quanto terá que pagar pela parte que lhe cabe do atraso.

Lançamentos são feitos, mas preço ainda sobe

Quarta-Feira, 09 de Dezembro de 2009 | Versão Impressa

Lançamentos são feitos, mas preço ainda sobe

Com oferta de crédito, imóveis estão até 30% mais caros que em 2008

Paula Pacheco

O preço dos imóveis, em alguns casos, subiu até 30% na comparação com o valor do ano passado, quando o setor mergulhou nos efeitos da crise global. “O preço está valorizado em razão da demanda e dos financiamentos cada vez mais disponíveis. Isso faz com que as pessoas procurem por imóveis mais caros, explica Guilherme Benevides, presidente da incorporadora Upcom Desenvolvimento Imobiliário. A própria incorporadora enfrentou alta de preço em alguns lançamentos. “Do estudo inicial do projeto ao lançamento houve alta entre 25% e 30% no valor do imóvel.”

Mas Benevides acredita em uma normalização rápida por causa da volta do ritmo de lançamentos, o que levará a uma regularização dos estoques de imóveis. Leila Jacy, diretora de incorporação da Stan, concorda. A incorporadora prevê lançar sete empreendimentos no ano que vem. Neste ano, foram apenas dois. De janeiro a outubro, a queda no total de lançamentos na cidade foi de 31,8%.

“O ritmo de vendas está bem acima de períodos anteriores. Antes comercializávamos em média 30% dos imóveis no lançamento (em até três meses), agora chegamos a vender tudo em dois meses”, comenta. Segundo Leila, algumas empresas do setor aumentaram os preços porque querem aproveitar o bom momento de mercado. Além disso, tiveram de arcar com a valorização dos terrenos na cidade. Mas a executiva aposta na normalização dos valores.

AQUECIMENTO NACIONAL

Os dados divulgados ontem pelo Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais (Secovi-SP) confirmam que o boom, contrariando as previsões do início do ano. Segundo o economista Celso Petrucci, as vendas devem superar em 3,6% as do ano passado, com 33 mil a 34 mil unidades na cidade. Em 2008, foram 32,8 mil unidades.

Um destaque nos números do Secovi ficou por conta do aumento dos lançamentos de dois dormitórios, que tomaram o espaço dos três e quatro dormitórios. De janeiro a outubro de 2008, 34,6% dos lançamentos eram de dois dormitórios. Neste ano, foram 45,9%, quase a metade (veja na pág. B1). Para Petrucci, a preferência tem muito a ver com o programa Minha Casa, Minha Vida, voltado à população de menor poder aquisitivo e que engloba imóveis de até R$ 130 mil.

Os bairros com mais lançamentos em São Paulo neste ano estão entre os que têm o metro quadrado mais barato. O campeão é Parque São Lucas (zona leste), que teve 822 unidades de dois dormitórios lançadas de janeiro a outubro e 712 de três dormitórios. A diferença é ainda maior no Sacomã (sudeste), com 723 unidades de dois dormitórios e 268 de três.

O economista do Secovi afirma que a boa fase do mercado é uma realidade nacional. Recentemente, Petrucci se encontrou com representantes de outros dez Estados e ouviu o mesmo tom otimista. “A realidade é a mesma em todo o País. Há recursos e há mercado consumidor.”

Aumenta interesse por financiamentos diversificados

Do lado do aplicador, há outra facilidade – cotas de fundos imobiliários disponíveis por valores a partir de R$ 1 mil. Entre os empreendimentos que emitiram fundos imobiliários estão os shoppings Pátio Higienópolis (em São Paulo) e o Dom Pedro, em Campinas (SP). Desde o início das emissões de FII, em 1999, a CVM registrou R$ 4,6 bilhões em 271 operações, das quais praticamente a metade, ou R$ 1,9 bilhão, somente este ano. b(N.G.)/b

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Comércio de rua sente o impacto da concorrência

Em Jundiaí e região um aditamento em acordo coletivo fechado entre o Sindicato dos Comerciários e o Sindicato do Comércio feriu de morte o comércio de rua: as lojas que funcionavam aos sábados até as 18h00 são obrigadas agora a encerrar o expediente às 14h00, sob pena de multa de um salário base por funcionário em situação irregular. O acordo, porém, não abrange o comércio de shopping, regido por outra categoria, e que deve ampliar ainda mais os horários nas proximidades das festas natalinas, tirando os consumidores dos comerciantes de pequenas cidades como Itupeva, Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista, Vinhedo, Itatiba e Louveira.

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Direcional Engenharia faz oferta inicial de R$ 250 milhões e testa novo modelo para colocações de menor porte.

Direcional Engenharia faz oferta inicial de R$ 250 milhões e testa novo modelo para colocações de menor porte.

Teste de apetite

    Por Graziella Valenti, de São Paulo
    18/11/2009

O apetite do investidor por novas histórias na bolsa será testado amanhã, com a recepção do mercado à colocação de pequeno porte da empresa de construção Direcional Engenharia, que estreia a negociação de papéis no Novo Mercado. A companhia conseguiu captar R$ 250 milhões, mas ainda não se sabe como será a reação às características especiais dessa colocação.

A abertura de capital da empresa é emblemática em diversos sentidos. A oferta foi muito menor do que as já realizadas neste ano e está abaixo da faixa até então dada como mínima pelos banqueiros de investimentos para ofertas iniciais, de R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão.

As ações saíram no meio do intervalo de preços sugerido, a R$ 10,50, e a Direcional chegará à bolsa com um valor de mercado equivalente a R$ 1,4 bilhão.

O grande diferencial dessa operação é que ela trouxe a previsão de que os controladores – a família Valadares Gontijo – e o fundo Tarpon, que comprou 25% do negócio em março de 2008, pudessem comprar os papéis na distribuição. Havia a expectativa de que a Tarpon investisse mais recursos. Desde sua chegada na empresa, o fundo aportou R$ 165 milhões no negócio.

O prospecto da oferta já informava que eles poderiam exercer o direito de prioridade – para manterem a participação – ainda que a demanda pelas ações fosse alta.

O tema é delicado e já gerou polêmicas no passado, quando um movimento como esse não foi bem comunicado ao mercado.

Em abril de 2007, os controladores da construtora CR2 decidiram na última hora comprar ações na oferta diante da demanda apertada. Ficaram com cerca de 30% do total ofertado. Como o mercado só soube depois de fechada a colocação, foi permitida a desistência e 60% dos institucionais cancelaram as propostas. A possibilidade, contudo, não estava prevista no prospecto, como no caso da Direcional.

Se o mercado reagir bem ao modelo da Direcional, mesmo se os sócios absorverem parte da oferta, poderá significar a abertura de uma nova janela para operações de menor porte, que até então vinham enfrentando grande resistência por parte dos investidores.

Os papéis foram oferecidos para um grupo seleto de aplicadores e não houve reuniões com potenciais interessados – conhecidas como “road show”-, o que é praxe nas ofertas públicas.

Até então, as operações inferiores a R$ 500 milhões ainda não tinham sido testadas. A menor realizada foi a de Tivit, de R$ 574 milhões. As demais estreantes fizeram colocações bilionárias, como as de VisaNet e Santander.

A preocupação com a participação dos sócios na oferta tem duas questões centrais. A primeira é o preço final da colocação, já que a demanda é influenciada pelo interesse dos atuais acionistas. Tal risco consta, inclusive, no prospecto. O segundo ponto é a liquidez na bolsa. Considerando a possibilidade de os sócios originais comprarem as ações e de os investidores que as adquiriram serem todos de longo prazo, a tendência é de que a negociabilidade da Direcional seja reduzida.

A oferta contemplou o equivalente a 18% do capital da Direcional – abaixo, portanto, do mínimo de 25% exigido pelo Novo Mercado para a fatia do capital em circulação na bolsa. O modelo inaugurado pela empresa também deve reavivar o debate sobre o mercado de acesso, o Bovespa Mais, dedicado justamente a colocações menores, para poucos investidores e, portanto, menos líquidas.

A liquidez sempre foi um ponto importante para os investidores. Entretanto, o tema ganhou relevância – daí a preocupação com o volume das ofertas iniciais – com o estresse durante a crise. A necessidade de saída rápida dos estrangeiros acabou derrubando os papéis e gerando prejuízo.

Em 2007, na euforia do mercado, essa questão foi deixada de lado, já que havia excesso de recursos nos mercados globais. Naquele ano, quando 64 abriram capital na Bovespa, 38 operações foram abaixo de R$ 500 milhões e 11 inferiores a R$ 300 milhões. Passado esse boom, muito se questionou se o mais adequado não teria sido levar algumas empresas ao Bovespa Mais.

A Direcional pediu registro de oferta à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em agosto. A colocação demorou a sair. E as sondagens iniciais indicaram que não havia a receptividade imaginada. Inicialmente, a operação seria de R$ 600 milhões, com colocações primária e secundária – na qual os sócios vendem seus papéis. Depois de dois meses, a operação chegou ao mercado modificada, comparada à descrição do prospecto preliminar. Os sócios podem agora comprar, no lugar de vender, e a oferta foi feita para poucos investidores, focados no longo prazo.

Embora o interesse por Brasil esteja grande no mercado global, não está claro o tamanho do apetite pelas novatas. Das quatro aberturas de capital ocorridas neste ano, três estão abaixo do preço da colocação. A única exceção é VisaNet, que acumula alta de 14%.

Mas a Direcional não será o único teste do interesse por Brasil, ou melhor, pelas aberturas de capital menos conhecidas e menos volumosas. Em entrevista na semana passada, o presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, afirmou que a expectativa é de que mais R$ 9 bilhões sejam movimentados ainda neste ano com ofertas de ações. O calendário, porém, é apertado. É preciso oferecer os papéis até 20 de dezembro, no máximo.

As próximas operações, em geral, têm desafios, e bons projetos terão de ser apresentados. Além da Direcional, a companhia de shopping centers Aliansce pretende listar ações. Entre os investidores da empresa estão o fundo americano General Growth Properties (GGP) e a gestora de recursos de Armínio Fraga, Gávea Investimentos.

Tanto a Direcional como a Aliansce tentaram listar as ações entre o fim de 2007 e o começo de 2008, mas o início da crise internacional, que deixou o mercado restrito para colocações de menor porte já naquela época, interrompeu os planos. Ambas, com isso, obtiveram recursos com um aumento de capital privado.

Outro importante termômetro para o mercado brasileiro será a listagem da companhia de cadeias de restaurantes International Meal Company (IMC), pretendida pelo fundo de participações Advent. Constituída em 2006, a empresa se autodenomina a maior cadeia de varejo alimentar do Brasil, em número de lojas, e que também possui operações em Porto Rico, México e República Dominicana, com um total de 195 lojas. No Brasil, entre as cadeias de sua carteira estão Viena, Frango Assado e Brunella.

O sucesso da operação de IMC tiraria da espera diversas outras companhias de menor porte e conhecimento público que pensam em ir à bolsa, mas que observam com atenção o momento, dada a seletividade dos investidores.

Apesar de reunir cadeias tradicionais, com décadas de existência, o modelo da IMC é novo. Desde a sua criação, em 2006, a empresa ainda não registrou lucro, embora traga crescimento de receita puxado pela estratégia de compras.

Nos primeiros nove meses do ano, a IMC teve receita líquida de R$ 507 milhões, com alta de 65,6%. A linha final do balanço, contudo, apresentou prejuízo de R$ 19,8 milhões. Pesam na companhia as despesas financeiras elevadas, fruto do endividamento. De janeiro a março, essa conta era negativa em R$ 38,2 milhões, 65% mais que no mesmo período de 2009.

A IMC fechou setembro com dívida de R$ 460 milhões e caixa de R$ 37 milhões. Outro desafio da empresa será vender um negócio novo aos investidores, já que esse setor não possui par no Brasil. O objetivo da oferta é obter recursos para financiar a expansão, tanto da base de restaurantes como para aquisições. A abertura de capital mais esperada para este fim de ano é a do Fleury. Porém, a empresa também terá de enfrentar os questionamentos dos investidores.

Onda imobiliária

Na busca por ganhos diferenciados, fundos com lastro em imóveis despertam a atenção da pessoa física.

Onda imobiliária

    Por Paola de Moura, do Rio
    17/11/2009

Os fundos imobiliários vivem um momento para lá de especial. A forte procura por parte dos investidores tem feito com que essas aplicações comecem a ganhar volume, depois de 15 anos desde a sua criação. Enquanto em 2008 o valor total de lançamentos foi de R$ 616,86 milhões, neste ano até ontem o número já chega a R$ 1,382 bilhão entre ofertas registradas e com dispensa, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) levantados pelo escritório de advocacia Lobo & De Rizzo. O crescimento é de 124%.

Os números ficam ainda mais interessantes quando se olha as ofertas em análise na CVM. Há outros R$ 2,496 bilhões que, somados ao volume já registrado, representam nada menos do que um crescimento de 528,7% no ano. O total de R$ 3,878 bilhões equivale ainda a quase 90% dos lançamentos acumulados entre 2000 e 2008, de R$ 4,396 bilhões.

Só na semana passada, entrou em análise uma oferta de R$ 1,3 bilhão liderada pela Votorantim Asset Management (VAM). A operação está dividida em dez séries, a primeira de R$ 400 milhões e as demais de R$ 100 milhões cada. Se sair, será a maior emissão de fundo imobiliário já realizada. Ainda não há prospecto disponível, mas o que se comenta no mercado é que o fundo, batizado de Votorantim Securities, deve investir em títulos de base imobiliária, como Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), com origem em operações envolvendo empreendimentos do próprio grupo – há de se esperar para tirar a “prova dos nove”.

Sob o ponto de vista do investidor, os juros em níveis historicamente baixos têm levado muita gente a procurar alternativas mais rentáveis em relação à renda fixa. A isenção de imposto sobre o rendimento para a pessoa física confere um brilho a mais para essas aplicações neste momento. Os fundos imobiliários contam com isenção de IR sobre rendimentos distribuídos desde que o investidor não tenha mais de 10% do total do fundo.

Vale lembrar que, apesar do lastro em imóveis, esses fundos são considerados aplicações de renda variável. Isso porque essas carteiras têm dois componentes de ganhos: a variação das cotas e o rendimento distribuído originado de receitas de aluguel. Como são fundos fechados, não há resgate das cotas. O cotista vende suas cotas a terceiros no mercado secundário, como no caso das ações de companhias abertas, por exemplo. O resultado da maior procura por parte dos investidores interessados na renda é a valorização das cotas que, juntamente com o rendimento distribuído, faz o retorno da aplicação neste ano ficar próximo do Ibovespa. (Ver reportagem abaixo)

Diante do aquecimento do mercado, a Caixa Econômica Federal – primeira a lançar um fundo para o varejo em 2004, o Torre Almirante – pretende ofertar ao mercado até cinco novos fundos imobiliários até o início de 2010. Segundo Flavio Arakaki, gerente operacional de Fundos Especiais da instituição, dois deles são fundos de locação. A empresa construirá um prédio e a renda virá do aluguel. Os modelos dos outros ainda estão sendo estruturados, mas o investidor pessoa física poderá participar. O banco colocará alguns deles com investimento mínimo de R$ 1 mil.

Dois motivos explicam o maior volume de estruturação de fundos imobiliários sob o ponto de vista das gestoras. A CVM lançou duas instruções que mudaram o mercado. A primeira foi a Instrução 472, publicada em outubro do ano passado. Ela flexibilizou as regras que regem a constituição e o funcionamento dos fundos imobiliários. A autarquia permitiu, por exemplo, a subscrição parcial das cotas do fundo. Na prática, criou-se a possibilidade de trabalhar com um valor mínimo de subscrição, que varia de carteira para carteira, para que um fundo seja constituído. A partir da norma, destaca Carlos Ferrari, advogado especialista em fundos imobiliários da Lobo & De Rizzo, quando um administrador planeja criar um fundo para investir em um imóvel de R$ 50 milhões e não consegue arrecadar toda a quantia, ele pode investir inicialmente só a parcela levantada.

No entanto, a mesma instrução trouxe um entrave para o mercado: exigiu que o cotista aprovasse toda e qualquer modificação no fundo. Ou seja, se houvesse a necessidade de alterar o investimento ou migrar para outro portfólio, a assembleia teria que ratificar a decisão. “A Instrução 478, de setembro deste ano, acabou com esta exigência e o mercado deslanchou”, completa Ferrari.

Arakaki, da Caixa, também acredita que as novas normas da CVM vão ajudar a expandir o mercado, mas critica a falta de liquidez do mercado secundário. Além disso, ele não acredita que o número de negociações secundários vá aumentar porque, segundo ele, os fundos vão render entre 1,2% e 1,3% ao mês e, com isso, num período de juros baixos, ninguém vai querer sair do investimento.

A sócia da área de Direito Imobiliário do Barbosa, Müssnich & Aragão Advogados, Christiane Scabell Höhn, acredita que o mercado de fundos possa crescer ainda mais com o interesse dos fundos de pensão e principalmente com a chegada dos estrangeiros que estão trazendo mais investimentos ao Brasil e precisam buscar aplicações com boa rentabilidade. A advogada conta que o escritório está prestando serviços para quatro fundos imobiliários que estão sendo constituídos e devem chegar ao mercado no próximo ano. Dois deles são de estrangeiros criando fundos de fundos.

Mas na visão de Rodolpho Vasconcellos, superintendente-geral da Associação de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), o volume ainda é pequeno e a falta de liquidez do mercado secundário é o principal entrave para que os fundos imobiliários ganhem volume de verdade. É necessário que o home broker passe a entrar neste mercado, mas para isso, as cotas precisam ser mais baratas. Vasconcellos também acredita que a entrada dos estrangeiros no mercado aumentará o volume o que estimulará secundário.

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