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Descompasso entre preço de imóvel e renda afeta mercado

Há 21 horas e 44 minutos 3

Descompasso entre preço de imóvel e renda afeta mercado

Por Fernando Torres | De São Paulo

Nos últimos anos, o valor dos imóveis cresceu muito acima da renda, criando um descompasso entre a capacidade de endividamento das famílias e o financiamento imobiliário. Enquanto a renda média do trabalho do brasileiro subiu 43% entre 2007 e 2011, o valor médio dos financiamentos de aquisição de imóveis feitos pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH) aumentou 83%. As novas regras de financiamento anunciadas ontem pela Caixa Econômica Federal tendem a facilitar o acesso de novas famílias ao crédito.

Em 2007, o empréstimo médio concedido pelo SFH era de R$ 82 mil, com parcela inicial que comprometia 42% da renda de um casal médio brasileiro, considerando prazo de 30 anos. No ano passado, o financiamento médio atingiu R$ 150 mil, com as parcelas iniciais equivalendo a 52% da renda do casal.

O valor do financiamento médio pelo SFH tende a subir ainda mais neste ano e no próximo, dado que os empréstimos tomados ao longo de 2011 estão ligados a repasses de lançamentos mais antigos das incorporadoras, e não capturaram toda a alta dos imóveis. Por esses valores, a linha de crédito voltada para a classe média, que é o SFH, se mostrava viável apenas para menos de 20% da população. A ampliação do prazo do financiamento de 30 para 35 anos amplia, assim, o número de famílias capazes de comprar imóveis no país.

Antes, tendo como base a taxa de juros de 10% ao ano (mais TR e custos com seguro), praticada em boa parte dos bancos, a parcela inicial para um financiamento de R$ 82 mil em 30 anos era de R$ 949 por mês, equivalente a 42% de R$ 2.285, a renda média de um casal (duas rendas médias mensais de R$ 1.142) em 2007. Já um financiamento de R$ 150 mil gera parcela mensal inicial de R$ 1.692, que compromete 52% da renda média de um casal em 2011, de R$ 3.278 (duas rendas de R$ 1.639). Com juros menores e mais prazo, essas parcelas vão cair.

Algumas das principais incorporadoras imobiliárias do país indicaram, nas últimas semanas, que estavam cancelando contratos assinados há alguns anos, durante o boom do mercado imobiliário, porque os clientes não teriam condições de passar pelo crivo de análise de crédito dos bancos no momento do repasse do financiamento da construtora para o mutuário final, que ocorre na entrega das chaves.

Antes mesmo no anúncio das novas regras, porém, as empresas informaram que estavam conseguindo encontrar novos compradores para os imóveis, e até estavam lucrando com a venda dos apartamentos a preços maiores. Mas como há um volume enorme de entregas de imóveis, previstas para 2012 e 2013, o mercado começou a se questionar sobre o tamanho do problema.

Na avaliação dos bancos, a parcela do financiamento não deve ultrapassar 30% da renda disponível do casal (ou das pessoas que compuserem a renda). Isso significa que, para tomar o financiamento pelo SFH em 2007, era preciso que a renda disponível fosse de R$ 3.163 mensais. Em 2011, o valor subiu para R$ 5.640 por mês.

Se o brasileiro médio já não conseguia se financiar pelo SFH em 2007, ficou ainda mais difícil em 2011 – restando para ele as linhas do FGTS, para imóveis de custo menor e com taxas reduzidas. As novas regras da Caixa – de mais prazo e menos juros – devem facilitar o acesso ao crédito imobiliário.

Valor procurou o Secovi e a Abecip para saber se eles fazem estimativa de quantas pessoas ou casais no Brasil possuem o nível de renda necessário para tomar empréstimos nos valores atuais, mostrando o público-alvo potencial total desse mercado.

Por meio da assessoria de imprensa, o Secovi, que representa as incorporadoras e construtoras de São Paulo, disse que esse tipo de estudo nunca foi feito pelo órgão. A Abecip informou que é muito difícil fazer essa conta, porque faltam estatísticas oficiais e existem muitas combinações possíveis para a composição de renda. Pesa ainda a possibilidade de o trabalhador usar o FGTS para pagar parcelas.

Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2009 e nos números da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), ambas do IBGE, é possível calcular que o 1% mais bem remunerado da população nas seis regiões metropolitanas pesquisadas (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Recife) ganha R$ 21 mil por mês. Aqueles que compõem os nove pontos percentuais seguintes têm renda média de R$ 6 mil. O segundo decil (entre 10% e 20% mais ricos) possui renda média individual de R$ 2,6 mil.

Com base nesses números, e considerando casais da mesma faixa de renda, um pouco menos do que os 20% mais ricos da população que trabalha é capaz de comprar imóveis no Brasil. Nas seis regiões pesquisadas pelo IBGE, os 20% mais ricos são 4,5 milhões de pessoas, ou 2,2 milhões de casais de mesma renda.

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Financiamento de imóveis bate recorde

Perspectivas: Demanda deve continuar firme em 2011, porque consumidores estão dispostos a se endividar

Financiamento de imóveis bate recorde

Roberto Rockmann | Para o Valor, de São Paulo

11/11/2010

Leonardo Rodrigues/Valor

Cláudio Borges, do Bradesco: a expansão do crédito imobiliário está ocorrendo em todas as regiões do Brasil

Diante do forte crescimento da economia, juros em queda e perspectivas positivas para os próximos anos, o ritmo de concessão de crédito imobiliário nos bancos privados e estatais tem crescido com força neste ano e batido recordes. O movimento não deverá parar por aí: em 2011, os bancos vão continuar buscando oferecer mais financiamento para as pessoas adquirirem imóveis.

"A disposição das pessoas físicas em aumentar seus níveis de endividamento continua elevada, diante da confiança em alta dos consumidores e as boas perspectivas do mercado de trabalho. O crédito imobiliário deverá continuar se destacando e crescendo no mesmo ritmo atual, pelo menos até o primeiro trimestre de 2011, horizonte medido pelo nosso indicador", afirma o gerente de indicadores de mercado da Serasa Experian, Luiz Rabi. "Diferentemente de outras modalidades, como o cartão de crédito, o financiamento imobiliário trabalha com prazos muito longos, de até 30 anos, e juros relativamente baixos, de 12% ao ano. Esses são pontos que contribuem para estimular sua expansão futura", comenta Rabi.

Principal agente financiador da construção civil no Brasil, a Caixa Econômica Federal (CEF) tem batido recordes sucessivos nos últimos anos. Em 2010, não será diferente. O crédito imobiliário deverá chegar a R$ 70 bilhões neste ano – cerca de 50% superior ao resultado de 2009 e 14 vezes maior que os R$ 5 bilhões financiados em 2003. Parte do bom resultado se deve à criação do programa Minha Casa, Minha Vida, destinado a famílias de menor poder aquisitivo. Até o fim de outubro, a Caixa havia contratado 712.902 unidades habitacionais, no valor de R$ 40,1 bilhões, no programa.

Em setembro, a média diária de financiamento de imóveis na Caixa chegou a 5.340 contratos. A expectativa é de que, nos meses de novembro e dezembro, se mantenha acima de 5 mil contratos por dia. As perspectivas para 2011 também são positivas, com possibilidade de expansão de até 20%.

O otimismo do banco estatal é compartilhado por instituições privadas e se deve a dois fatores: o Brasil convive com um déficit habitacional de aproximadamente 7 milhões de unidades residenciais, e a penetração do crédito imobiliário na economia brasileira ainda é baixa. Cerca de 90% do déficit de residências no país está concentrado nas famílias que recebem abaixo de cinco salários mínimos mensais, 7% nas famílias que recebem entre cinco e dez salários mínimos e o restante nas famílias ganha acima de dez salários mínimos.

Segundo estimativas do Bradesco, se somado o crédito a financiamento e construção de imóveis, o financiamento ao setor imobiliário deve chegar a 3,9% do PIB neste ano, bem acima dos 2,1% apurados em 2008 e dos 2,9% de 2009. Em 2014, o número deverá saltar para 14,7%. "O ritmo de concessão está em forte crescimento em todas as regiões do Brasil e as perspectivas são muito positivas", diz o diretor da área imobiliária, Cláudio Borges. De janeiro a setembro, a contratação chegaram a R$ 6,8 bilhões, 25% a mais do que no mesmo período de 2009.

Para 2011, Borges também acredita que a demanda por crédito imobiliário deverá permanecer em patamares elevados e crescer bem acima dos dois dígitos. "As classes C e D começaram a ingressar com mais força no financiamento", diz Borges. No Bradesco, cerca de um terço do dinheiro concedido a pessoas físicas para compra de imóveis tem sido direcionado a quem recebe entre três a dez salários mínimos. Em 2010, cerca de 20% dos imóveis financiados têm valores de aquisição entre R$ 100 mil e R$ 150 mil. NO ano passado, 13% dos imóveis adquiridos estavam nessa faixa de preço.

No Itaú Unibanco, a carteira de crédito imobiliário também cresce. De janeiro a setembro, atingiu R$ 12 bilhões, alta de 13,9% no trimestre e de 52,7% ante o mesmo período do ano anterior. Do total, cerca de R$ 7 bilhões se referem a operações com pessoas físicas e R$ 5 bilhões em dinheiro financiado a incorporadoras e construtoras. Apesar do crescimento, o segmento representa cerca de 4% da carteira do maior banco privado do país, um percentual que não está muito longe do verificado em outras instituições financeiras privadas. Estimativas de mercado apontam que entre 5% a 7% das carteiras dos bancos privados no Brasil estão direcionadas a imóveis, um número baixo quando comparado a outros bancos no exterior.

Na Europa, cerca de metade da carteira dos bancos está ligada a hipotecas. "Na operação global do Santander, as hipotecas chegam a responder por 50% da carteira do banco, o que mostra o potencial que o segmento representa no Brasil", diz o diretor de negócios imobiliários, José Roberto Machado. Entre janeiro e setembro, a filial brasileira do banco espanhol registrou carteira de R$ 11,7 bilhões, sendo que 60% estão relacionados a operações com pessoas físicas e 40% com incorporadoras e construtoras. "Temos visto uma penetração desse produto em todos os segmentos, da renda mais baixa à mais elevada", analisa Machado.

Com a economia estável e inflação sob controle, as pessoas de baixa renda têm trocado o aluguel por parcelas da aquisição do primeiro imóvel. Na média renda, os reajustes salariais acima da inflação e o aumento do preço dos imóveis têm feito com que muitos financiem a compra de um imóvel melhor e maior que o antigo. No topo da pirâmide, os consumidores de alta renda investem em residências de olho na remuneração do aluguel, uma forma de ampliar o portfólio de investimentos.

Nos últimos meses, uma dúvida tem surgido entre os analistas: o crescimento da concessão de crédito imobiliário no Brasil está sendo sustentável? No caso especifico de financiamento imobiliário, além de avaliar a renda disponível do cliente, os bancos buscam fazer com que a prestação não comprometa além de 30% da renda de quem toma o empréstimo. Na Caixa e no Bradesco, na média, quem tem acesso aos recursos utiliza cerca de 20% da renda para adquirir um imóvel.

Jovens, ambiciosos e com muita pressa

Jovens, ambiciosos e com muita pressa

Graças à cultura herdada do Banco Pactual, a PDG virou a maior incorporadora do País

Naiana Oscar – O Estado de S.Paulo

Num andar baixo de um edifício na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro, com vista para a alça de acesso de um viaduto, está o centro nervoso da maior incorporadora imobiliária do País, a PDG Realty – empresa que, no primeiro semestre deste ano, desbancou a liderança de mais de uma década da Cyrela. É a sede de uma gigante que chegou ao topo em sete anos, seguindo a cartilha dos bancos de investimento: equipe jovem, salários fixos baixos, bônus milionários e pressa, muita pressa – porque, como gostam de repetir seus executivos, “dinheiro custa no tempo”.

Dali, eles controlam as finanças da Goldfarb, da CHL e, de quatro meses para cá, da Agre. Além disso, a PDG tem participação minoritária em cinco empresas do ramo. No escritório da holding, os 32 funcionários – a metade, mulheres – têm em média 27 anos de idade. São recém-formados em faculdades de administração e economia, que vão trabalhar com mochilas nas costas, varam madrugadas, fins de semana e fazem plantão até nas férias, por um salário muito abaixo do mercado – a média é R$ 4 mil. Mas que pode ser multiplicado indefinidamente no fim do ano se as metas forem cumpridas. No ano passado, a empresa distribuiu R$ 28 milhões em bônus – ou 7% do seu lucro.

O mais velho no escritório é o presidente, José Grabowsky, de 47 anos, o Zeca, um dos executivos mais bem-remunerados do País. Despojado, dispensa terno e gravata, não tem sala nem secretária, trabalha num ambiente sem divisórias, uma informalidade herdada do antigo banco Pactual, onde nasceu a PDG.

Zeca e o inseparável Michel Wurman, diretor financeiro da incorporadora, já trabalhavam juntos no banco de investimentos de André Esteves e Gilberto Sayão. Sem nunca terem assentado um tijolo, os dois passaram a responder pelos investimentos imobiliários do banco e começaram a aplicar o “senso de urgência” de uma instituição financeira na construção civil. “O banco é medido por semestre e não podíamos, por exemplo, esperar a valorização de um terreno para gerar resultado”, explica Zeca. “Era do prato para a boca.”

Agressividade. Até 2006, apenas a Cyrela tinha faturamento acima de R$ 1 bilhão entre as empresas imobiliárias no Brasil. Foi naquele ano que a PDG entrou em cena com uma estratégia agressiva de crescimento por meio de aquisições, mas ainda como um jogador inofensivo. A incorporadora comprou participações na carioca CHL e nas paulistas Lindencorp e Goldfarb, que atua no segmento de baixa renda. Na época, a Goldfarb lançava 2,5 mil imóveis por ano. Em 2010, deve chegar aos 25 mil – um crescimento de 900% em quatro anos.

Ao comprar uma empresa, a PDG costuma seguir um esquema padrão: de imediato, “ocupa” o departamento financeiro da companhia com profissionais de confiança e conhecedores da doutrina. Já nos primeiros meses, é preciso ajustar salários para enquadrar a empresa nas regras de meritocracia e fazer com que os novos funcionários também sejam movidos a bônus. A operação imobiliária segue nas mãos de quem entende. E disso os antigos donos não costumam reclamar. “Tenho autonomia para tomar decisões, estou focado em construir e não preciso me preocupar com fluxo de caixa, capitalização, relacionamento com investidores”, diz Milton Goldfarb, fundador da Goldfarb.

Os empresários ganham liberdade. Menos para descumprir as metas. “Tenho a impressão de que vou ser enforcado em praça pública se não atingir os objetivos”, brinca Rogério Chor, fundador da incorporadora carioca CHL, a segunda a ter o controle adquirido pela PDG. Uma vez por semana, ele se reúne com Zeca e Michel para mantê-los informados sobre os principais números da empresa. “E eles não querem ouvir historinha, saber se a semana foi boa ou complicada. Eles querem resultado.”

Para este ano, os “banqueiros” da PDG exigiram inicialmente um volume de vendas de R$ 730 milhões da CHL, que atua apenas no Rio. Chor teve de gastar muita saliva para convencer a dupla de que o valor era inalcançável. Conseguiu baixar a meta para R$ 680 milhões, com lucro de R$ 120 milhões. “Ainda assim, achávamos impossível, mas já lucramos R$ 65 milhões no primeiro semestre”, diz o executivo.

Depois da CHL, a PDG passou um tempo negociando novas aquisições sem muito sucesso. A mais recente e inesperada cartada foi a compra da Agre, em maio deste ano. A companhia, que surgiu da união de Agra, Abyara e Klabin Segall, levou a PDG ao topo do ranking. Na última sexta-feira, a PDG fechou o dia valendo R$ 11 bilhões na Bolsa – 10,7% a mais que os R$ 9,9 bilhões da incorporadora de Elie Horn. A Cyrela diz não se importar com a segunda posição. “O que vale é sermos os melhores e não os maiores”, afirma Ubirajara Freitas, diretor geral da construtora.

No mercado, o que se ouve é diferente. Quem o conhece diz que Horn começou a se sentir ameaçado em 2008. A sensação teria piorado este ano, com a compra da Agre, do empresário Luiz Roberto Horst. Beto, como é conhecido, já foi sócio da Cyrela e era um dos nomes apontados para suceder Horn.

Estilo. A PDG encontrou a Agre em dificuldades e teve como primeira missão renegociar a dívida de R$ 1,3 bilhão. Em menos de 60 dias, o prazo foi estendido de 29 para 48 meses e as taxas, reduzidas. “Levaríamos pelo menos o dobro do tempo para chegar a esse resultado”, admite Beto.

O executivo diz que ainda está se habituando ao jeito PDG de tocar os negócios – muito mais “neurótico” e “urgente”. “Criaram uma cultura que nem eles sabem dizer direito o que é. Ela surgiu oralmente, praticada no dia a dia”, afirma. “O importante agora é colocar essa cultura no papel, para que ela possa ser transmitida para os mais novos e para que a empresa sobreviva à saída dos atuais líderes.”

Numa empresa com dono, as regras do jogo são definidas pelos próprios fundadores. Em janeiro deste ano, quando o fundo que administrava o dinheiro dos ex-sócios do Pactual vendeu sua participação ao mercado, a PDG tornou-se a única corporação do setor no País. A Vinci Partners, empresa de investimento de Gilberto Sayão, tem uma participação inferior a 5%. Menos de 2% das ações estão nas mãos de executivos e mais de 90% são negociadas no mercado.

O professor de Real Estate da Escola Politécnica da USP, João da Rocha Lima Jr., é simpático ao perfil nada personalista adotado pela PDG. “É uma postura amadora achar que um empreendimento se resolve por sensibilidade do empreendedor.” Para ele, sem a figura do dono e com uma origem diferente das concorrentes, a empresa cresceu sem alguns “defeitos” do setor, como o que leva controladores a se preocupar com questões menores da construção sem fazer uma leitura geral da empresa.

Desafios. O futuro da PDG ainda é uma incógnita para os concorrentes. Quem vê o negócio de fora diz que a operação é tocada por executivos com muita experiência no ramo, mas que devem ficar pouco tempo na incorporadora. Um executivo do setor acredita que, como os donos das empresas compradas ficaram muito ricos, vai chegar um momento em que a motivação deles pelo trabalho cairá, desestabilizando a companhia.

A PDG garante que está preparada para as futuras sucessões e diz que esse é um risco que afeta também as concorrentes, centralizadas na figura do fundador. “O fato é que tudo é muito recente e a PDG ainda não passou por um ciclo inteiro de comprar, pensar apartamentos, receber, vender e ter os clientes morando. A escola que eles criaram ainda está em teste”, diz um executivo.

Com Agre, PDG assume liderança do segmento

Com Agre, PDG assume liderança do segmento

Daniela D ‘ Ambrosio | Valor

17/08/2010 09:13

SÃO PAULO – Em seu primeiro balanço consolidado com Agre, a PDG Realty tirou a dúvida que ainda sobre a liderança do setor. Quando comparada à Cyrela – que, até a aquisição da Agre pela PDG era líder inconteste – a nova empresa assume a primeira posição do mercado imobiliário em praticamente todos os quesitos analisados: receita líquida, lucro, vendas, lançamentos e margens. O lucro líquido da PDG no segundo trimestre foi de R$ 221 milhões, um aumento de 179% sobre os números pró-forma das duas companhias no mesmo período de 2009. A Cyrela lucrou R$ 167 milhões de abril a junho.

A receita líquida da nova companhia foi de R$ 1,32 bilhão, 49% acima do segundo trimestre do ano passado. O lajida (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) somou R$ 372 milhões, com margem de 28%. A margem lajida da Cyrela foi de 18,5%.

A PDG, é fato, ficou maior em tamanho. Mas também aumentou consideravelmente a sua dívida -principal herança negativa de Agre. A dívida líquida da PDG, que, sozinha, era de R$ 697 milhões ao final do primeiro trimestre, subiu para R$ 2,59 bilhões. A relação dívida líquida sobre patrimônio líquido, que foi de 27% na PDG no primeiro trimestre, passou para 46% no balanço consolidado.

Os benefícios do ganho de escala são visíveis no balanço, mas a PDG Realty se apressou para renegociar e melhorar o perfil da dívida de Agre para não comprometer seus resultados por um prazo longo. O bom relacionamento com os bancos permitiu à companhia que concluísse o processo de renegociação do endividamento da Agre. A dívida de capital de giro da Agre foi reduzida de R$ 1,3 bilhão para R$ 1 bilhão e houve um alongamento do prazo médio de 29 meses para 48 meses.

A parcela de dívida de capital de giro, que tinha um custo elevado (CDI mais 3%) foi alongada e substituída por linhas com custo médio na casa de CDI mais 2%, em linha com o custo pago pela PDG. “Fragmentamos a dívida em vários bancos, principalmente Itaú, Bradesco, HSBC e Banco do Brasil”, explica Michel Wurman, diretor financeiro e de relações com investidores da PDG.

Com dificuldade de acesso ao crédito, a Agre tocava boa parte das obras com recursos próprios. A PDG contratou R$ 1 bilhão em novos contratos do Sistema Financeiro de Habitação (SFH), dívida mais barata e considerada “saudável” pelo setor, dos quais R$ 150 milhões liberados imediatamente. A PDG também está securitizando os recebíveis que a Agre tinha em carteira: foram cerca de R$ 300 milhões de operações de securitização de recebíveis com emissão prevista para agosto e setembro. “O efeito líquido da renegociação na despesa financeira será de R$ 10 milhões por trimestre, num total de R$ 40 milhões”, diz Wurman.

Com a Agre – empresa que resultava da união de Agra, Abyara e Klabin Segall – a margem líquida de PDG, que vinha na casa dos 20%, caiu para 17% no segundo trimestre – abaixo da MRV, em linha com a Rossi e acima da Cyrela e Gafisa – para comparar com as grandes. “Não vamos voltar para os 20% ainda este ano, mas fechamos a renegociação das dívidas e estamos acelerando os ganhos de escala para voltar aos níveis anteriores”, afirma Zeca Grabowsky, presidente da PDG Realty.

A PDG cortou perto de 15% da folha da Agre, cerca de 35 pessoas de salários mais altos e fechou escritórios do Rio e do Sul, em função da totalização da compra da LN, empresa com forte atuação no Paraná. A PDG, que já era dona de 80%, comprou 100% da LN.

A nova empresa teve aumento de 27,7% nas despesas de vendas e administrativas, que passaram para R$ 297,2 milhões de janeiro a junho deste ano. Quando se compara com a receita líquida, porém, há uma queda -a soma dos gastos totais sobre a receita líquida recuou de 14,7% para 11,8% no semestre.

O aumento do INCC – de 5,9% no ano – não afetou os resultados da companhia, mas o presidente da PDG reconhece que é um problema, sobretudo em São Paulo e no Rio. “Na média e alta renda, o mercado absorve aumento de preço e na baixa estamos usando métodos construtivos que reduzem custo, como os pré-moldados.”

Setor deve refletir processo de crescimento da economia

 

Apaixonados por construção: Gestores preveem expansão forte das empresas imobiliárias amparada no aumento do crédito e da massa salarial da classe média.

Setor deve refletir processo de crescimento da economia

    Por Daniela D’Ambrosio, de São Paulo
    24/06/2010

Gustavo Lourenção/Valor
 
Anibal Alves, superintendente de renda variável da Bram: preferência por MRV e PDG Realty de olho na baixa renda

O setor de construção civil é visto como um dos que melhor representa a expansão da economia brasileira. Na avaliação dos gestores, as empresas imobiliárias – amparadas pelo aumento do crédito – poderão capturar todo o ganho de massa salarial que a classe média deve ter nos próximos anos. O programa habitacional do governo Minha Casa, Minha Vida, segundo os especialistas, veio ampliar o financiamento e adicionar demanda a um mercado já favorecido pelo cenário macroeconômico.

O ambiente também é considerado propício para investimento por outro motivo: as construtoras e incorporadoras estão em plena fase de aceleração do crescimento. A divisão de gestão de ativos do Itáu Unibanco aposta nos resultados que as companhias ainda estão para apresentar. Segundo Marcelo Mizrahe, analista e gestor do fundo de infraestrutura do banco, entre 2006 e 2009, o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (lajida) das empresas abertas cresceu quase três vezes entre 2006 e 2009. Se o período analisado for de 2008 a 2012, esse aumento chega a seis vezes.

A elevação do lucro, diz o gestor, deve ser equivalente. “Não existe bolha imobiliária, é uma tendência estrutural de longo prazo”, diz Guilherme Rebouças, responsável por fundos diferenciados do Itaú Unibanco. Em 2006, havia uma única empresa do setor, a Cyrela, com faturamento acima de R$ 1 bilhão. Apenas três anos depois, um grupo de oito companhias ultrapassou o almejado patamar, algumas com folga.

Clécius Peixoto, diretor de renda variável da Vinci Gas Investimentos, segue o mesmo raciocínio: “A aceleração dos lançamentos a partir do segundo semestre do ano passado e este ano vai gerar muito caixa no ano que vem”, afirma. Para este ano, as grandes do setor estimam lançamentos na casa de R$ 3 bilhões cada uma. As maiores esperam uma evolução média de 50% nos lançamentos este ano, mas em alguns casos, como a Gafisa, o crescimento projetado chega a 95%

“A estrutura de capital das empresas também ficou muito boa depois das captações”, acrescenta Peixoto. No ano passado e início deste ano, um grupo de mais de seis empresas fez uma nova rodadas de ofertas de ações – a maioria muito bem-sucedida. Calcula-se que os “follow-on” tenham injetado mais de R$ 10 bilhões nas empresas de construção entre 2009 e 2010.

O potencial de expansão do setor, sob vários aspectos, é muito grande: o crédito imobiliário no Brasil ainda representa apenas 3% do PIB, contra 13% no México, 18% no Chile e 70% nos países desenvolvidos. O aumento do crédito também sustenta esses argumentos. Em 2003, de acordo com dados do Itaú Unibanco, cerca de 120 mil novas unidades foram financiadas.

No ano passado, esse número chegou a 600 mil (sendo 275 mil dentro do Minha Casa, Minha Vida). “O programa deu ao setor a certeza que teria dinheiro para financiar a obra e a garantia de que ficariam com o cliente”, diz Marcelo Mizrahe. O analista explica que a crise ensinou às empresas que os lançamentos de imóveis deveriam estar vinculados tanto ao financiamento à construção, quanto ao cliente. Muitas companhias tiveram problemas justamente por lançar sem essa garantia e, com o revés do mercado, tiveram problemas.

Por conta do programa, as empresas com foco ou participação importante na construção popular entraram no radar dos gestores, mesmo depois da forte valorização do ano passado. “Gostamos de MRV e PDG Realty, que é dona da Goldfarb, porque elas sabem atuar na baixa renda”, afirma Herculano Alves, diretor de renda variável da Bradesco Asset Management.

O aumento recente das taxas de juros, na opinião dos gestores, não é um problema, já que o crédito imobiliário está barateando por conta da concorrência com a Caixa Econômica Federal. Além disso, o índice de referência no crédito imobiliário é a TR e não o CDI.

Além de o setor de construção estar presente nos fundos passivos e ativos de índice, começam a surgir também os fundos setoriais de construção, baseados no índice imobiliário, criado pela BM&FBovespa em janeiro de 2009. O fundo de construção do Banco do Brasil teve o maior retorno entre os fundos de ação do banco no ano passado: com mais de 200% de retorno, chamou a atenção dos cotistas. Resultado: com um patrimônio de R$ 152 milhões no fim de maio, só perdeu para o de siderurgia, com R$ 200 milhões. Para efeito de comparação, o fundo de energia tinha R$ 76 milhões e o de bancos, R$ 65 milhões.

Crédito imobiliário: Do bolo de R$ 107,7 bi, atingido em maio, 75% foram originados por instituições públicas

Crédito imobiliário: Do bolo de R$ 107,7 bi, atingido em maio, 75% foram originados por instituições públicas

Banco privado pena para roubar fatia de mercado da Caixa

    Adriana Cotias, de São Paulo
    24/06/2010

O fantástico crescimento de 50% do estoque de crédito imobiliário nos últimos 12 meses, que chegou a R$ 107,7 bilhões no fim de maio, não tem oferecido chance para que os bancos privados ganhem fatias maiores desse promissor mercado. A competição se acirrou, porque todos querem tirar partido do carro-chefe do crescimento do crédito, mas, pelos dados divulgados ontem pelo Banco Central, o bloco das instituições financeiras públicas – de longa data liderado pela Caixa Econômica Federal – responde por 75% do bolo. Em dezembro de 2008, o percentual era de 71% e, portanto, o que se vê é até um crescimento da participação da Caixa, fomentado pelo programa federal de residências populares Minha Casa Minha Vida.

Os bancos privados tentam, agora, tirar partido do gargalo operacional da Caixa para atender em suas agências a toda a demanda por financiamentos da casa própria. Liberar o crédito no menor tempo possível passou a ser o mote dos executivos à frente dessas carteiras nas instituições privadas. Há relatos de recursos aprovados em até sete dias.

Os grandes nomes do varejo encontram demanda reprimida em sua própria base de clientes e definem estratégias para acessá-la, enquanto tentam conquistar fatias no entorno, fortalecendo, por exemplo, as parcerias com imobiliárias para oferecer empréstimos no ponto de venda dos imóveis.

“O mercado está mais competitivo, mas em termos de penetração, nos nossos cliente bancarizados, ainda é incipiente”, diz o superintendente de crédito imobilário do Santander, Fernando Baumaier. “Ainda há um grande caminho a percorrer para dizer que o produto está deslanchando e se disseminado no mercado.” Como um dos primeiros bancos privados a apostar suas fichas no segmento – com o lançamento, em 2006, do financiamento com taxas prefixadas, antes de o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovar o uso dos recursos da poupança para a modalidade -, Baumaier conta que, hoje, quase não há distinção no produto entre os concorrentes. “Os outros começaram a fazer o que fazíamos, então o diferencial é atender a expectativa do cliente de prazo de liberação do empréstimo.”

A carteira do Santander, que somava R$ 9,7 bilhões ao fim do primeiro trimestre, teve um incremento de 40% em relação ao mesmo período do ano passado, considerando-se também os desembolsos à construção. A parcela destinada à pessoa física somava R$ 5,4 bilhões, sensivelmente menor do que os saldos em cartões de crédito e consignado, na casa dos R$ 8 bilhões. Nos contratos ajustados pela Taxa Referencial (TR), os juros partem de 8,90% para imóveis até R$ 120 mil, enquanto nas operações prefixadas começam em 12,54% ao ano para o prazo de 30 anos.

No Bradesco, para imóveis até R$ 150 mil, os juros cobrados nos primeiros 36 meses são de 7,90% mais a TR, passando a 9,50% a partir do 37º mês até o fim do contrato, em 30 anos. “É uma febre. O mercado está muito disputado”, diz o diretor de empréstimos e financiamento, Nilton Pelegrino. Simplificar processos e colocar especialistas em crédito à habitação junto às 1,3 mil imobiliárias parceiras foi a forma escolhida para tentar ganhar terreno e transpor as fronteiras da própria base. O banco instalou 23 escritórios dedicados ao crédito imobiliário em grandes capitais e pretende elevar o número a 50 ao longo do ano. As consultas e simulações na ponta já são online e feitas pelos próprios corretores. “A pretensão é liberar o financiamento em 10 dias.”

Comparativamente ao primeiro trimestre de 2009, os desembolsos cresceram 182%, e atingiram R$ 1,84 bilhão. A previsão do banco é originar R$ 6,5 bilhões no total até dezembro, o que vai representar um incremento de 38% em relação ao ano passado. No mix, a maior fatia ainda é das concessões à pessoa jurídica, que representaram 81,7% nos primeiros meses do ano. Na composição da carteira, de R$ 7,5 bilhões, a pessoa física respondia por 37,1%.

Já o HSBC trouxe, há cerca de um ano, para os seus quadros Antônio Barbosa, executivo oriundo da área de crédito imobiliário do Banco Real para colocar o segmento no mapa do mercado também no país. “O financiamento à habitação está no DNA do banco no mundo.” A intenção, explica, é conquistar uma fatia de mercado semelhante à que a instituição tem no varejo bancário, algo perto dos 5%, 6%, o dobro da atual. Ser ágil na finalização do processo de concessão com 60 especialistas presentes nas principais capitais do país foi o caminho adotado para abreviar a espera do mutuário para menos de 30 dias. “Mas temos caso de operação liberada em sete dias.” A meta é incrementar a carteira de pessoa física, que fechou 2009 em R$ 1,3 bilhão, em mais de 50%.

Banco Mundial investe em casa popular

Banco Mundial investe em casa popular

    Daniela D’Ambrosio, de São Paulo
    18/06/2010

O Banco Mundial, através do braço privado IFC (International Finance Corporation), fechou o seu primeiro investimento no setor imobiliário. O IFC assinou, ontem, acordo com a Brookfield Incorporações no valor de U$ 47 milhões para a criação de uma empresa de baixa renda, que atuará no programa Minha Casa, Minha Vida. O braço do Banco Mundial está fazendo due dilligence para fechar com mais uma construtora. O objetivo é investir US$ 150 milhões na área imobiliária – tanto em empréstimos, quanto participação direta nas companhias.

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