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Será que Deus é culpado – 1 minuto de reflexão

SERÁ QUE DEUS É CULPADO ?

 Finalmente a verdade é dita na TV Americana.

A filha de Billy Graham estava sendo entrevistada no Early Show e Jane Clayson perguntou a ela:

 

 

‘Como é que Deus teria permitido algo horroroso assim acontecer no dia 11 de setembro?’

Anne Graham deu uma resposta profunda e sábia:

 

‘Eu creio que Deus ficou profundamente triste com o que aconteceu, tanto quanto nós.

Por muitos anos temos dito para Deus não interferir em nossas escolhas, sair do nosso governo e sair de nossas vidas.
Sendo um cavalheiro como Deus é, eu creio que Ele calmamente nos deixou.
Como poderemos esperar que Deus nos dê a sua benção e a sua proteção se nós exigimos que Ele não se envolva mais conosco?’
 

À vista de tantos acontecimentos recentes; ataque dos terroristas, tiroteio nas escolas, etc…

 

Eu creio que tudo começou desde que Madeline Murray O’hare (que foi assassinada), se queixou de que era impróprio se fazer oração nas escolas Americanas como se fazia tradicionalmente, e nós concordamos com a sua opinião.

 

Depois disso, alguém disse que seria melhor também não ler mais a Bíblia nas escolas…

A Bíblia que nos ensina que não devemos matar, roubar e devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos. E nós concordamos com esse alguém.

 

Logo depois o Dr.. Benjamin Spock disse que não deveríamos bater em nossos filhos quando eles se comportassem mal, porque suas personalidades em formação ficariam distorcidas e poderíamos prejudicar sua auto estima (o filho dele se suicidou) e nós dissemos:

 

‘Um perito nesse assunto deve saber o que está falando’.

E então concordamos com ele.

 

Depois alguém disse que os professores e diretores das escolas não deveriam disciplinar nossos filhos quando se comportassem mal.

Então foi decidido que nenhum professor poderia tocar nos alunos…(há diferença entre disciplinar e tocar).

 

Aí, alguém sugeriu que deveríamos deixar que nossas filhas fizessem aborto, se elas assim o quisessem.

E nós aceitamos sem ao menos questionar.

 

Então foi dito que deveríamos dar aos nossos filhos tantas camisinhas, quantas eles quisessem para que eles pudessem se divertir à vontade.

E nós dissemos: ‘Está bem!’  

 

Então alguém sugeriu que imprimíssemos revistas com fotografias de mulheres nuas, e disséssemos que isto é uma coisa sadia e uma apreciação natural do corpo feminino.
Depois uma outra pessoa levou isso um passo mais adiante e publicou fotos de Crianças nuas e foi mais além ainda, colocando-as à disposição da internet.
E nós dissemos:
 

‘Está bem, isto é democracia, e eles tem o direito de ter liberdade de se expressar e fazer isso’.

 

Agora nós estamos nos perguntando porque nossos filhos não têm consciência e porque não sabem distinguir o bem e o mal, o certo e o errado;

porque não lhes incomoda matar pessoas estranhas ou seus próprios colegas de classe ou a si próprios…

 

Provavelmente, se nós analisarmos seriamente, iremos facilmente compreender:

nós colhemos só aquilo que semeamos!!!
Uma menina escreveu um bilhetinho para Deus:
‘Senhor, porque não salvaste aquela criança na escola?’
A resposta dele:
‘Querida criança, não me deixam entrar nas escolas!!!’
 

É triste como as pessoas simplesmente culpam a Deus e não entendem porque o mundo está indo a passos largos para o inferno.

É triste como cremos em tudo que os Jornais e a TV dizem, mas duvidamos do que a Bíblia, ou do que a sua religião, que você diz que segue ensina.

 

É triste como alguém diz:

‘Eu creio em Deus’.

Mas ainda assim segue a satanás, que, por sinal,também ‘Crê’ em Deus.

É engraçado como somos rápidos para julgar mas não queremos ser julgados!

 

Como podemos enviar centenas de piadas pelo e-mail, e elas se espalham como fogo, mas, quando tentamos enviar algum e-mail falando de Deus, as pessoas têm medo de compartilhar e reenviá-los a outros!

 

É triste ver como o material imoral, obsceno e vulgar corre livremente na internet, mas uma discussão pública a respeito de Deus é suprimida rapidamente na escola e no trabalho.

 

É triste ver como as pessoas ficam inflamadas a respeito de Cristo no sábado, mas depois se transformam em cristãos invisíveis pelo resto da semana.

 

Você mesmo pode não querer reenviar esta mensagem a muitos de sua lista de endereços porque você não tem certeza a respeito de como a receberão, ou do que pensarão a seu respeito, por lhes ter enviado.

 

Não é verdade?

Gozado que nós nos preocupamos mais com o que as outras pessoas pensam a nosso respeito do que com o que Deus pensa…  

 

‘Garanto que Ele que enxerga tudo em nosso coração está torcendo para que você, no seu livre arbítrio, envie estas palavras a outras pessoas’. 

 

Passe essa mensagem adiante, se acha que ela tem algum mérito.

Se não, ignore-a… e delete-a…

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Companheiro Iscariotes – Dora Kramer – Estadao Sabado

outubro 24, 2009 1 comentário

Sábado, 24 de Outubro de 2009 | Versão Impressa

 Companheiro Iscariotes

http://bandnewsfm.band.com.br/colunista.asp?ID=14

 Dora Kramer

O presidente Luiz Inácio da Silva pode ser, e é, um político ardiloso. Mas não é um homem corajoso. Tampouco é um líder renovador. Não bate de frente com ninguém que possa vir a lhe ser útil amanhã, não enfrenta questões polêmicas, não compra brigas difíceis nem aceita disputa com igualdade de condições, só entra em conflitos protegido por escudos e, sobretudo, não confronta paradigmas.

Na dúvida, prefere a rendição. E pior, na condição de chefe da Nação, não hesita em classificar o Brasil como um país fadado a fazer política ao rés do chão e de mãos sujas.

Na entrevista publicada na Folha de S. Paulo de quinta-feira, Lula pretendeu demonstrar pragmatismo, mas o que exibiu mesmo foi um imenso conformismo, incurável conservadorismo e oceânica indiferença em relação a qualquer coisa que não tenha a ver com sua pessoa.

“No Brasil, Jesus teria que se aliar a Judas”, disse, como justificativa à sua tolerância para com a ausência de limites entre o público e o privado na operação da política brasileira.

Não é a primeira vez que o presidente se põe no patamar de divindade nem é inédita a manifestação de complacência em relação às piores práticas e seus praticantes. O exemplo, porém, agora foi mais infeliz do que nunca.

Desrespeitoso do ponto de vista religioso – ainda mais para quem preside a maior nação cristã do mundo – e ignorante do que tange ao registro histórico. Jesus, bem lembrou o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, d. Dimas Lara Barbosa, não se aliou aos fariseus e penou exatamente por se manter fiel aos seus princípios.

Não se imagina que um político, nem mesmo um presidente da República, possa se conduzir por parâmetros santificados. Daí não ser aceitável também que dê ares sagrados aos seus atos.

Contudo, espera-se de lideranças políticas – principalmente daquelas detentoras da admiração popular e que tenham feito carreira apresentando-se como arautos da mudança – que não se acomodem. Não compactuem, que usem seus melhores atributos para melhorar os defeitos que os fizeram crescer no imaginário da população como a materialização do bem contra o mal.

Em Lula, a figura do progressista, um mito alimentado por duas décadas de ofício oposicionista, não resistiu ao poder. Bem como o símbolo da luta em prol da depuração dos costumes e defesa da ética mostrou seus pés de barro ao adentrar o Palácio do Planalto.

Antes de se especializar como comandante das tropas do mau combate, sempre se alinhando às piores causas, jamais vocalizando os melhores valores, Lula abandonou as reformas.

Algumas delas apresentou pro forma ao Congresso, como a tributária, a política, a previdenciária, mas ou não lutou por elas ou as deixou pelo meio do caminho. Outras, como a trabalhista e a sindical, simplesmente ignorou. Para não arbitrar conflitos e, assim, correr o risco de se confrontar com setores que lhe poderiam ser úteis.

Lula não é um homem que tome posições e brigue por elas. Não gosta de perder. Talvez considere que já tenha dado ao País sua cota nas três derrotas eleitorais antes de conseguir se eleger presidente. Uma vez conquistado o poder, usa seus instrumentos como um fim em si mesmo.

Ao longo de dois mandatos quase completos, o presidente Lula em nenhum momento sequer sinalizou disposição de empregar suas energias para ajudar a política brasileira a se modernizar. Ao contrário, valeu-se do atraso e apostou em seu aprofundamento.

Ao ponto de, na mesma entrevista, ter atribuído ao presidente do Senado, José Sarney, alguém a quem não hesitava ofender chamando de “ladrão” quando atuava como oposicionista, a condição de guardião da “segurança institucional” do Brasil.

Segundo ele, sustentou Sarney no cargo, a despeito de denúncias e mentiras confessadas, porque representava uma “garantia” ao Estado brasileiro. Não, significava uma caução para o controle do Executivo sobre o Senado, como admite na frase seguinte. A oposição, afirmou o presidente, faria “um inferno” no País, caso Sarney fosse afastado dando lugar ao vice, Marconi Perillo, cujo grande defeito foi ter dito de público que havia alertado Lula sobre a existência do mensalão no Congresso.

“Não entendi por que os mesmos que elegeram Sarney um mês depois queriam derrubá-lo”, declarou, fingindo-se de ingênuo, pois não faltaram fatos para propiciar a sua excelência perfeito entendimento a respeito da situação, perfeitamente compreendida pela bancada de seu partido no Senado.

O presidente, que outro dia mesmo reclamava dos políticos de “duas caras”, de novo encarnou a simbologia do mau exemplo. Convalidou, pela enésima vez, as práticas nefastas que passou a vida dizendo que precisavam ser combatidas.

Isso é pior do que ter duas caras: é jogar no lixo uma trajetória, enterrar uma biografia, é trair uma legião de brasileiros que o elegeu acreditando nas promessas de mudança.

O direito à violação – Mauro Chaves – Estadao

Sábado, 24 de Outubro de 2009 | Versão Impressa

 

O direito à violação

 

Mauro Chaves

Os pedestres que cruzam as ruas transversais da Avenida Paulista nunca esperam o sinal verde para atravessar – pois a demora deste é proporcional ao movimento da mais importante avenida paulistana. Lá são frequentes os quase atropelamentos de pessoas que atravessam com semáforo no vermelho. (Geralmente fico sozinho esperando o verde, o que até dá um certo constrangimento). Outro dia, ia na minha frente uma jovem cega, que seguia com sua bengala-guia, conduzindo-se pela faixa especial, quando chegou ao cruzamento. Com toda a gentileza, um jovem ofereceu-se para ajudá-la a atravessar, com o sinal vermelho (como todo mundo fazia). E faltou pouco para a moça ser atropelada por uma enorme camionete. Assim, por generoso espírito de solidariedade, o jovem cidadão quase fez a moça morrer esmagada sob as rodas potentes de um utilitário. Deve ter pensado: se todos ali tinham o direito de se arriscar, violando a regra (de atravessar no verde), não conceder tal direito aos cegos não seria uma odiosa discriminação?

Um menino de 11 anos viajou clandestino, entre o diferencial traseiro e o tanque de combustível do ônibus de romeiros, de Sales a Aparecida – viagem de 600 quilômetros, em dez horas – para pagar uma promessa à padroeira, por seus pais terem parado de brigar. Todos – especialmente coleguinhas comovidos nas rádios – falavam do “milagre”. Certamente Nossa Senhora havia salvado aquele pequeno “herói”, que quase jogou a vida fora por uma violação estúpida de regras mínimas de segurança. É claro que o piedoso heroísmo do garoto será imitado por inúmeras crianças, portadoras de precoce fobia de anonimato – pois a coragem de se arriscar violando regras pode ser a ascensão de qualquer um ao estado de celebridade.

Segundo um ministro de Estado, trata-se de uma “onda persecutória” contra os “movimentos sociais” a animosidade que despertaram aquelas cenas nos telejornais em que apareciam tratores derrubando pés de laranja enfileirados e outros atos de vandalismo praticados por militantes sem-terra. E é a “onda persecutória”, certamente, que tem levado a essa insistente tentativa de instalar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar o repasse de dinheiro público a tais movimentos, que lutam para ver implantada a justiça no campo – luta na qual exercem seu sagrado direito de violar (propriedades, liberdade de locomoção do próximo, sedes de fazendas produtivas, laboratórios de aperfeiçoamento genético de sementes, espaços públicos ou particulares, cabines de pedágio e suas receitas, cargas de caminhão, etc., etc.).

Foi só um gesto singelo, mas cheio de simbolismo: o chefe de Estado e governo pegou um bombom, que lhe ofereceram enquanto assistia a determinada apresentação, desembrulhou-o, começou a comê-lo, enquanto discretamente amassava o papel e o jogava no chão, meio escondido – cena captada por uma câmera de televisão e transmitida para o mundo. Ora, por que se impediria uma pessoa – só por ser presidente da República – de exercer seu pleno direito de violar, discretamente, pequenas regras de educação, como fazem os demais cidadãos?

Outro ministro de Estado negou que o “comício do São Francisco” representasse qualquer antecipação da campanha sucessória presidencial. Disse ele que “o governo não só tem o direito, mas a obrigação de dar visibilidade a seus atos”. Achou natural que essas inspeções técnicas tenham distribuição de brindes, sorteios, cantores e outros festejos no palanque. Ou será que se deveria prantear por antecipação a provável morte do rio? E ainda vêm falar em “vale-tudo”? Ora, prefeririam um “vale-nada”?

E quantas violações não têm sido praticadas em nosso espaço público-político, por meio de atos secretos, de mensalões, de tráfico de influência, de caixa 2, de operações sanguessuga, de operações vampiro, de dólares na cueca, de dossiês de aloprados, de lavagem de dinheiro, de formação de quadrilha, de falsidade ideológica, tudo isso até hoje desfrutando a mais ampla, geral e irrestrita impunidade? Há que se concluir, então, que o País está passando por uma formidável revolução silenciosa, não vista antes em lugar nenhum do mundo: é o princípio constitucional da isonomia transmudado em democrática liberdade de delinquir, de violar regras, é a plena autonomia criminosa, estendida a todos os interessados, sem preconceito de raça, de cor, de grupo social, de localização regional ou que mais diferenças existam entre os cidadãos circulantes no vasto território nacional. E a maior prova da generosidade com que é estendido esse nosso sagrado direito à violação é seu pleno desfrute, também concedido a todos os estrangeiros que nos visitem. Expressivo foi o caso, por exemplo, do jovem turista francês que, bêbado, atropelou uma jovem, deixando-a em estado vegetativo, pagou uma pequena fiança e voltou encantado para sua terra, afirmando com orgulho: “Eu já sabia que aqui isso não ia dar em nada.” É que o mundo já sabe deste nosso paraíso, onde o direito à violação foi democraticamente institucionalizado – daí a liberdade de turismo sexual, de pedofilia, de atropelamentos sem punição, de “pequenos tráficos”…

Bem a propósito, o governo está propondo ao Congresso mudanças na lei antidrogas para “livrar os pequenos traficantes da cadeia”. Agora será mais fácil para os grandes traficantes convencerem os pais das pequenas “mulas” de que não haverá risco algum em introduzirem seus filhos num negócio que significará a independência financeira da família. E será festejada pela delinquência mundial a abertura, no Brasil, da Primeira Escola Maternal de Tráfico (Premat).

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor. E – mail: mauro.chaves@attglobal.net

Antes de tudo, um cético

Filosofia: O ceticismo tem muita coisa a dizer sobre a onda de desesperança gerada pelos escândalos políticos no Brasil, diz Oswaldo Porchat.

Antes de tudo, um cético

Davilym Dourado / Valor
Foto Destaque
Porchat: “A filosofia é artefato produzido pelos homens, em sua busca da felicidade. O ceticismo humaniza a razão, pensando-a a serviço dos seres humanos”

Um dos filósofos brasileiros mais interessantes e mais discretos raramente sai à rua do bairro de Santa Cecília, onde mora, em São Paulo. Em seu apartamento, Oswaldo Porchat Pereira exercita muito mais a mente do que as pernas apoiadas pela bengala lhe permitem. Aos 76 anos, o ex-professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – um advogado do ceticismo grego em pleno século XXI – inspira alunos, orienta pesquisas e teses e atrai cada vez mais a atenção dos estudiosos. Mas é com grande desconforto que assiste à crise de valores e à onda de ceticismo difuso gerada pela atual sequência de escândalos de corrupção política no país.

“O homem é naturalmente um amante da verdade, diz o filósofo cético Sexto Empírico. As pessoas comuns têm uma necessidade natural de crer e de acreditar”, afirma Porchat. “Dá grande conforto ao homem pensar que tem certezas e valores absolutos. Quando esses valores são postos em xeque de maneira tão radical pelo comportamento de personagens políticos, é natural que essa necessidade de crer seja abalada. É claro que o ceticismo filosófico faz uma crítica dessa propensão à crença e procura explicá-la. Mas nem por isso o cético deixará de reconhecer o papel histórico e social que as crenças representam.”

Em tempo de desesperança, é bom lembrar duas coisas: primeiro, os momentos de crise moral na sociedade fazem parte da história da civilização; segundo, o ceticismo possui uma experiência milenar de crítica ao dogmatismo e à certeza dos detentores transitórios da “Verdade”. “Quando lemos textos gregos antigos e romanos sobre os eventos políticos daquela época, é com enorme frequência que encontramos referências precisas à terrível corrupção no meio político das cidades, na Grécia, em Roma e em suas colônias”, ressalta. “Sabemos que isso aconteceu em variados países e em variadas épocas. Mesmo quando não havia imprensa as populações acabavam mais ou menos cientes do que se passava, o que gerou protestos e revoltas populares.”

Ailton Cruz / Gazeta de Alagoas / Folha Imagem
Foto Destaque
Lula cumprimenta Collor: “Dá grande conforto ao homem pensar que tem certezas e valores absolutos. Quando esses valores são postos em xeque de maneira tão radical pelo comportamento de personagens políticos, é natural que essa necessidade de crer seja abalada”, afirma Porchat

No sentido vulgar do termo, a imprensa brasileira tem contribuído – e muito – para fomentar o “ceticismo” da população, acredita Porchat. Essa contribuição é salutar na medida em que enseja uma necessária demanda por mudança no estado de coisas. “Graças à imprensa, a classe média que tem acesso a ela pode inteirar-se do que está acontecendo. Infelizmente, as classes populares não têm acesso. A consciência estimula uma reação sadia. Temo, entretanto, que algumas vezes, ao menos, essa denúncia legítima de fatos de corrupção se exerça de maneira parcial, privilegiando certos grupos que não se censuram e focalizando mais outros em que porventura se tem interesse maior, no momento, em denunciar.”

Especialista em Aristóteles, sobre quem defendeu sua tese de doutoramento, “Ciência e Dialética em Aristóteles” (publicada pela Unesp em 2000), Porchat acabou por render-se ao ceticismo grego e tornar-se um filósofo neopirrônico, termo derivado do nome de Pirro de Élida (365-275 a.C.), o fundador do ceticismo. Sistematizada nos séculos II e III pelo médico e filósofo grego Sexto Empírico, o pirronismo influenciou vários pensadores, como Montaigne (1533-1592) e David Hume (1711-1776).

Os principais artigos de Porchat sobre o ceticismo encontram-se no livro “Rumo ao Ceticismo” (Unesp, 2004), que tem suscitado seminários e cursos em universidades brasileiras e na Argentina. “Em 40 anos publiquei dois livros. Minha escrita é muito policiada. Reescrevo muitas vezes. Isso me torna pouco produtivo”, explica o autor. O zelo com as palavras já virou lenda e levou o filósofo José Arthur Giannotti a observar, no prefácio de “Ciência e Dialética em Aristóteles”, que o amigo “de costume recusa-se a mudar uma vírgula do texto que lhe aparece acabado”.

Para Porchat o ceticismo não teve importância pequena na história do pensamento. “Penso que teve uma importância enorme. Grandes nomes da filosofia moderna, tais como Descartes, Berkeley, Kant e Hegel, se deram como missão combater o ceticismo e declararam sempre que suas respectivas filosofias eram as únicas capazes de afastar a ameaça cética”, explica. “É verdade que, com a exceção de Hume, não houve, depois do ceticismo antigo, grandes filósofos céticos. A influência do ceticismo foi mais difusa, mas nem por isso marcou menos a história do pensamento filosófico. A evolução das ciências humanas e naturais contribuiu bastante para eclosão de uma atitude que eu diria predominantemente ‘cética’ na filosofia contemporânea da ciência, ainda que, curiosamente, os filósofos da ciência ignorem o fato, por desconhecerem o pensamento cético.”

Os céticos criaram uma escola de crítica ao dogmatismo e de valorização da vida comum. Para eles, a sabedoria não estava no conhecimento teórico especulativo, mas, sim, no conhecimento derivado da experiência e das artes inventadas pelos homens para transformar as coisas em seu benefício. Sexto Empírico e os filósofos gregos céticos do século II, entre os quais muitos eram médicos, deram uma contribuição considerável para a evolução da medicina na Grécia. Para Porchat os céticos ajudaram a introduzir o vocabulário da casualidade e a racionalidade científica no pensamento da Antiguidade, muito antes do iluminismo. Isso explica o renascimento do interesse pelo ceticismo grego, em curso na Europa e nos Estados Unidos desde os anos 70 e no Brasil desde os anos 90.

Contudo, paira sobre os céticos uma visão caricatural, alimentada pela ideia de que, por rejeitar toda e qualquer pretensão a um conhecimento absoluto ou à verdade de qualquer opinião, o ceticismo tornaria impossível para o cético viver a vida comum, já que toda ação pressupõe juízo e crenças.

“Alguns dicionários de filosofia evidenciam uma grande ignorância do ceticismo. Os céticos se atribuíram a missão de combater as crenças dogmáticas nas filosofias, nas ciências e também nas pessoas comuns. O senso comum, que é eminentemente relativo e varia de acordo com a época, a comunidade e as classes sociais, sempre esteve carregado de crenças dogmáticas. Assim, o ceticismo não o endossa e, em verdade, o critica acerbamente. O que os céticos pensam é que, não podendo optar por verdades dogmáticas, lhes resta suspender o juízo e viver a vida comum, sem crenças dogmáticas. Ao primado da razão dogmática sucede o primado da vida comum, que os céticos vivem de modo aparentemente igual a todos os homens, mas tendo, perante ela, uma atitude totalmente diferente da que eles comumente têm”, diz Porchat.

A calúnia sobre o ceticismo seria outro caso de vitória da versão sobre o fato, uma deturpação destinada a neutralizar a crítica cética. Num artigo famoso, “O conflito das filosofias”, Porchat mostra que “a história da filosofia brinda-nos com o desfile quase ininterrupto de grandes sistemas que, uns com os outros sempre incompatíveis, se apresentam animados, todos e cada um, da mesma pretensão de representar a verdadeira solução dos problemas do ser e do conhecer, a edição nova e definitiva da realidade”. A filosofia tende a se alimentar continuamente de si mesma e da própria história e não somente das coisas e fatos do mundo exterior. Por isso, corre o risco de transformar-se em um grande jogo de palavras.

“O cético teme que a filosofia se converta num prodigioso e sublime jogo de palavras se embarca na produção de sistemas e doutrinas dogmáticas e não leva até o extremo o espírito crítico que, por outro lado, sempre explicitamente professou”, explica. “O ceticismo se pretende, ao contrário, ser o legatário coerente da racionalidade crítica da filosofia ocidental”. Para o cético, o objetivo da filosofia é servir a vida cotidiana e comum que todos os seres humanos vivem. “Sempre entendi que a filosofia é coisa do mundo, artefato produzido pelos homens, em sua busca da felicidade. O ceticismo humaniza a razão, descobrindo sua vocação eminentemente mundana, pensando-a a serviço dos seres humanos.”

A atração da filosofia pelo dogmatismo não seria exceção, mas a regra. As filosofias estão todas identicamente empenhadas na elucidação da própria noção de filosofia. “Essa pretensão, que lhes é essencial, leva-as necessariamente a uma mútua e recíproca excomunhão e exclusão, na mesma medida em que pertence a cada filosofia o dever de impor-se como única e verdadeira.” Não são poucos os espectadores que terminam por desencantar-se com a validade da tarefa filosófica, quando descobrem que a história da filosofia é a história do desacordo entre filósofos. “Constrange-os constatar que os filósofos, na verdade, nunca dialogam, apenas polemizam. Não se espera da discussão entre filósofos mais do que uma mútua benevolência na clarificação dos fundamentos e raízes da sua opinião irredutível.”

E por que tanto desprezo pelo diálogo e o consenso? “Essa é uma questão difícil. O desacordo entre os filósofos provém da pretensão, que quase todos exibem, de oferecer-nos a única resposta correta à pergunta humana pelo ‘Saber’. Parece-me que só a psicologia pode sugerir uma explicação, que teria a ver com problemas de autoafirmação, de ambição intelectual e de vaidade humana. Um desejo de ocupar, de alguma maneira, o lugar de Deus, uma necessidade de ser e aparecer como o único oráculo confiável dos deuses. Não são apenas as pessoas comuns que têm necessidade de crer”, pondera o filósofo.

A soberba e a alienação de tantos intelectuais causa espécie. Cegos de não ver o mundo dos homens, surdos de não ouvir o discurso que proferem, muitos se perdem na verborragia. A propósito, Porchat lembra uma historieta antiga: “O filósofo Tales observava os astros e, olhos no céu, acabou por cair num poço, provocando o riso de uma jovem trácia, que zombou de sua preocupação pelas coisas celestes, quando o que estava a seus pés lhe escapava. Os filósofos converteram Tales em pai da filosofia e, desde Platão, fizeram desse cômico incidente o símbolo da sublime altanaria do espírito filosófico, que se ergue acima das vicissitudes da vida e cuja profundidade escapa à compreensão do vulgo. Mas cabe outra interpretação. O episódio serve como prenúncio daquela trágica alienação que levou a filosofia ao esquecimento do mundo. Por isso, a sabedoria da pequena trácia merece a minha simpatia.”

A “tecnoangústia” do quanto é necessário saber

A “tecnoangústia” do quanto é necessário saber

Renato Bernhoeft
25/05/2009

Uma das avaliações que em muitas circunstâncias se torna provocativa ao longo da vida é o quanto podemos, e devemos, saber. Com o crescimento da velocidade dos meios que nos dão acesso às informações foi criada, inclusive, uma expressão para caracterizar este sintoma. Ela tornou-se conhecida como a “tecnoangústia.”

O excesso de informação provoca a angústia típica dos tempos atuais e leva à conclusão de que, às vezes, saber demais é um problema.

Como curiosidade vale registrar que uma edição de fim de semana do jornal “New York Times” contém mais informação do que uma pessoa comum poderia receber durante toda a vida na Inglaterra do século XVII. Todos os anos são produzidos 1,5 bilhão de gigabytes em informação impressa, filmes ou arquivos magnéticos.

Atualmente existem mais de 2 bilhões de páginas disponíveis na internet. Até o início dos anos 90 a televisão brasileira tinha menos de dez canais. Hoje há mais de 100 emissoras no ar, em diversas línguas, com especialidades diferentes.

Por trás desses elementos, há um fenômeno mais geral. Países, empresas, escolas e famílias estão se rearticulando em outros modelos numa velocidade nunca vista. Mudar é um inferno para a maioria das pessoas. Mais infernal ainda é a sensação de que o mundo está girando mais rápido do que podemos acompanhar.

Segundo o escritor americano Wayne Luke “o mal estar de nosso tempo é a inadequação, o sentimento opressivo de que as outras pessoas estão fazendo as coisas certas, lendo os livros que contam e usando os computadores e programas mais modernos enquanto nós estamos ficando para trás na carreira ou nos relacionamentos.”

Aos 65 anos, o americano Richard Saul Wurman -que é arquiteto por formação, construiu prédios, foi empresário, organizou eventos e durante muitos anos foi cartógrafo, mas considera que só atingiu o sucesso quando resolveu criar sua própria profissão, a de arquiteto da informação. Desde então escreveu mais de 75 livros sobre os mais variados assuntos, de medicina ao mercado financeiro; sobre animais de estimação e turismo.

Diz ele que seu segredo é não saber absolutamente nada em relação ao tema sobre o qual vai escrever. Assim, tudo que descobre é o que interessa à maioria das pessoas. Para ele “num mundo em que as pessoas são cercadas de informações por todos os lados, não saber nada sobre certos assuntos pode ser tão importante para a saúde mental quanto o silêncio o é para a música.”

Mas não são apenas as pessoas que nunca usaram um computador que podem ficar ansiosas com os efeitos das mudanças tecnológicas. As notícias frequentes sobre os incríveis avanços da tecnologia provocam ansiedade entre todos nós.

Em certas áreas, os conhecimentos de uma pessoa podem ficar ultrapassados em seis meses. E um dos setores mais atingidos por estes avanços tecnológicos é o da própria tecnologia. Esta área não apenas usa tecnologias para desenvolver produtos e serviços, mas também investe pesadamente em pesquisa e desenvolvimento. O aspecto mais difícil da “tecnoangústia” consiste em aceitar o fato de que precisamos mudar. Depois disso, será preciso encontrar maneiras de superar os medos que nos impedem de realizar as mudanças que nos permitirão ter êxito com a tecnologia -e não apesar dela.

Segundo os estudiosos do tema esta não é a primeira vez que o mundo vira de “cabeça para baixo” como resultado da evolução da tecnologia. A transição da sociedade agrícola para a sociedade industrial, no início do século XIX, resultou em avanços tecnológicos. Um exame das cartas, diários pessoais e jornais, escritos e publicados na época, mostra que, a cada onda de mudanças, as pessoas ficavam mais e mais ansiosas.

Primeiro, houve o êxodo rural com a entrada das novas tecnologias no campo, pois estas reduziam a necessidade de mão-de-obra agrícola. O trabalho nas fazendas foi desaparecendo à medida que novas indústrias, como a têxtil, criavam empregos nas cidades.

Posteriormente alguns empregos urbanos também iam desaparecendo na medida em que as novas indústrias criadas pela tecnologia descobriam maneiras novas e mais eficientes de produzir bens. Mas hoje, ao analisarmos o resultado final -que é a melhoria do padrão de vida dos países industrializados -dificilmente poderíamos dar total razão àqueles que eram contra as mudanças tecnológicas.

Caso este tema lhe provoque interesse, examine e reflita sobre as questões abaixo, elaboradas como sintomas típicos de quem está sofrendo a angústia da informação, extraídas do livro “Ansiedade da Informação”, de Richard Wurmann. ” Por mais esforço que faça, não consegue sentir-se atualizado com o mundo a sua volta. Sente-se culpado cada vez que olha para a pilha de jornais, revistas e o volume de e-mails recebidos que não conseguiu ler. Fica abatido quando uma pesquisa na internet resulta num documento de dezenas de páginas, pois acredita que, se não ler todas elas, não saberá tudo o que deve sobre o assunto. Acena afirmativamente, sem convicção, sempre que alguém menciona um livro, um filme ou uma notícia que você, na verdade, nunca ouviu falar. Acha que o problema é seu e não do fabricante quando percebe que não consegue seguir as instruções para montar um aparelho que comprou. Cerca-se de aparelhos digitais na esperança de que a simples presença deles a sua volta ajude a torná-lo uma pessoa mais adaptada à alta tecnologia. Sente-se envergonhado quando tem de dizer ‘não sei’, mesmo que a pergunta se refira à sucessão no Nepal ou ao novo programa de correio eletrônico da Microsoft.”

Enfim, aqui estão mais algumas reflexões sobre um dos fatores que pode aumentar a ansiedade e estresse das pessoas. Pense, reflita e analise. Caso algumas destas questões possam ter utilidade, não se constranja em usá-las.

Renato Bernhoeft é fundador e presidente da höft Consultoria

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