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Cyrela e Agra encerram parceria tumultuada

Construção: Venda de participação não aconteceu antes porque preço oferecido era considerado baixo.

Cyrela e Agra encerram parceria tumultuada

    Por Daniela D’Ambrosio, de São Paulo
    28/09/2009
Texto: A-

Depois de um noivado e um casamento desfeito sem muita explicação, o conturbado relacionamento entre Cyrela e Agra chegou ao fim. Na sexta-feira, a Cyrela anunciou a venda dos 23,1% que ainda detinha na Agra por R$ 304,5 milhões. A compra foi feita pelo grupo que se uniu desde o final do ano passado em vários negócios cruzados: o espanhol Enrique Bañuelos e os controladores da Agra, Luiz Roberto Horst, Ricardo Setton e Fernando Albuquerque.

Os veículos usados para a compra foram a BRF Investimentos, dos três controladores da Agra (a sigla representa as iniciais de Beto, Ricardo e Fernando) e pela Caripó Participações, empresa ligada à Veremonte, do investidor espanhol Enrique Bañuelos. Cada uma delas comprou metade da participação. A leitura do mercado é que a Cyrela conseguiu um bom preço, o equivalente a R$ 5,50 por ação. Na sexta-feira, a ação fechou cotada a R$ 5,22 – o papel acumula alta de 6,1% no mês e de 191,47% no ano.

A relação entre Agra e Cyrela é antiga – antes da oferta inicial de ações a Cyrela era a maior acionista da Agra, com 42% – e foi amistosa por alguns anos. Mas degringolou depois que a Cyrela desistiu de comprar a Agra em plena crise e três meses e meio após iniciada a integração entre as companhias. A desistência aconteceu às vésperas de um dos piores dias do mercado mundial, gerou uma combinação explosiva e os papéis da Agra caíram 81,5% em um único dia.

Segundo o Valor apurou, desde o episódio, as duas empresas começaram as negociações para a venda da participação da Cyrela na Agra. Pelo acordo de acionistas firmado entre Cyrela, Agra e Luiz Roberto Horst, Ricardo Setton, Astério Vaz Safatle, Mário Austregésilo de Castro, Fernando Bruno de Albuquerque e Didier Maurice Klotz, os sócios tinham direito de preferência, e a fatia da Cyrela não poderia ser vendida no mercado. No fato relevante sobre a alienação da participação da Cyrela, também foi anunciado o distrato do acordo “liberando-se mutuamente de todas e quaisquer obrigações nele previstas, com a consequente quitação por quaisquer responsabilidades decorrentes, a qualquer título”.

O negócio não saiu antes porque o preço oferecido anteriormente à Cyrela foi considerado baixo. A relação estremeceu novamente e de forma quase irreversível, quando Agra e Bañuelos anunciaram a criação da Agre, empresa que resultou da fusão entre Agra , Abyara e Klabin Segall – as duas últimas, empresas extremanente endividadas, compradas pelos parceiros Agra e Veremonte durante a crise do mercado por menos de R$ 150 milhões. “Foi uma enorme surpresa o anúncio desse negócio sem que a Cyrela tivesse vendido sua participação na Agra antes”, afirma fonte do setor. A Cyrela chegou a considerar a possibilidade de recorrer à Justiça para barrar a operação – o que fez com que o negócio finalmente saísse.

Por conta da participação na Agra, a Cyrela ainda ficou com 11% da Agre. Segundo fontes, Elie Horn, presidente da Cyrela, teria ficado extremamente incomodado com o episódio e não via com simpatia a união entre Agra e o espanhol Bañuelos. Luiz Roberto Horst, da Agra, também não escondia seu descontentamento com a Cyrela e o trauma pelo cancelamento do negócio. Disse que tratava-se de um sócio desinteressado e que não fazia aportes.

A Cyrela não comentou o negócio. A Agre soltou nota, dizendo estar satisfeita com a finalização da operação. “Trata-se de uma demonstração clara de total confiança do grupo de gestão da Agra e da Veremonte no futuro da Agre”, diz Luiz Roberto Horst, presidente da Agre.

A oficialização da Agre como uma única companhia aconteceu no dia 2 de setembro. As ações das três companhias deixam de ser cotadas em bolsa e serão substituídas por novos papéis da Agre na data da aprovação da incorporação pelas assembleias das empresas.

Agra, Abyara e Klabin Segall unem operações

Agra, Abyara e Klabin Segall unem operações
Fusão das empresas cria a Agre, que terá como maior acionista a Veremonte, do espanhol Enrique Bañuelos

Paula Pacheco

As incorporadoras Agra, Abyara e Klabin Segall anunciaram a fusão de suas operações, com a criação da Amazon Group Real Estate (Agre). A nova companhia nasce como uma das quatro maiores do setor imobiliário no Brasil. Juntas, elas detêm um patrimônio líquido de R$ 1,5 bilhão (com base em 30 de junho), volume médio diário negociado na Bovespa de R$ 38,6 milhões, capitalização de R$ 2,3 bilhões e estoque de terrenos que chega a R$ 19 bilhões.

Com a fusão, a Veremonte, fundo de participações do polêmico empresário espanhol Enrique Bañuelos (ver ao lado), passa a ser o maior acionista da nova empresa, com 24% do capital. A Agra fica com 11% da nova companhia, enquanto a Cyrela terá outros 11%. O restante das ações ficará pulverizado no mercado.

A Veremonte e a Agra já tinham assumido, em conjunto, o controle da Abyara, em fevereiro, e da Klabin Segall, em abril. No final do ano passado, a empresa de Bañuelos havia adquirido também uma participação minoritária, de cerca de 7%, na própria Agra. Ontem, foi anunciado ainda que a Veremonte arrematou a participação que a Agra detinha indiretamente na Abyara e na Klabin Segall, por R$ 189 milhões. O fundo de participações de Bañuelos passou a deter 51% do capital social da Abyara e 43,8% da Klabin Segall.

Luiz Roberto Horst Silveira Pinto, fundador da Agra, ficará no comando da nova empresa. A ideia de usar a palavra Amazon no nome, segundo ele, tem a ver com os planos da Veremonte de “atrair investimentos internacionais” para o Brasil. Apesar da pista sobre futuras aquisições, Horst diz que a companhia pretende se focar nos lançamentos imobiliários, e não tem planos de comprar concorrentes.

Horst afirma que é natural a concentração no mercado da construção civil – setor que passou por um grande susto depois que a crise eclodiu. Mas, segundo ele, “não sei se há empresas com essa cabeça. A cultura é diferente da nossa”.

Ainda não se sabe se as marcas Agra, Abyara e Klabin Segall serão mantidas ou se prevalecerá o nome Agre. A marca Klabin Segall não poderá mais ser usada pelo novo controlador a partir de maio, segundo acordo entre os controladores. Outra bandeira que vai desaparecer é a Olá, da própria Klabin, voltada aos imóveis para a baixa renda.

BAIXA RENDA

Segundo Horst, o mais certo é que a marca Asa, voltada à baixa renda e parte do guarda-chuva da Agra, seja mantida após o fim do processo de sinergia entre as companhias. O grupo deve contratar uma empresa especializada em avaliação de marca para saber qual delas tem um valor de mercado maior e, a partir daí, tomar uma decisão.

Sobre os imóveis para a baixa renda, o presidente da Agre afirma ter uma certa reserva quanto ao futuro do segmento. “Não vai ser fácil produzir. A vantagem de uma empresa como a nossa será justamente a diversificação”, avalia.

Para Horst, o programa do governo Minha Casa, Minha Vida, que prevê a construção de 1 milhão de habitações populares e tem animado muitas empresas a se dedicar a esse público, pode esbarrar na insuficiência de pessoal capacitado na Caixa Econômica Federal.

Apesar de a fusão dos negócios acabar de ter sido anunciada, já são esperados os costumeiros cortes de despesas para se tirar vantagem nas sinergias entre os negócios. Em média, de acordo com Horst, a economia com sinergia costuma ser de 20% a 25%. A Agra, por exemplo, já vem de um processo de enxugamento desde setembro do ano passado. Saiu de 450 para 56 funcionários.

Ainda não há uma data para que as ações da Abyara, Agra e Klabin Segall deixem de ser negociadas e sejam substituídas pelas da Agre no Novo Mercado da BM&FBovespa. Mas as assembleias com os acionistas das três empresas não podem levar mais do que 45 dias.

Abyara, Agra e Klabin Segall anunciam fusão – 3/9/2009

Abyara, Agra e Klabin Segall anunciam fusão – 3/9/2009

Fonte:Reuters

União vai criar uma das maiores do país no setor imobiliário.
Nova companhia terá o nome de Agre Empreendimentos.

As diretorias de Abyara, Agra e Klabin Segall anunciaram na madrugada desta quarta-feira (2) proposta de incorporação das atividades na Agre Empreendimentos, negócio que formará uma das maiores empresas do setor imobiliário do país.

A operação, que envolve a Veremonte Participações, do empresário espanhol Enrique Bañuelos, criará uma companhia com valor de mercado no final de junho de R$ 2,3 bilhões, patrimônio líquido de R$ 1,5 bilhão e banco de terrenos de R$ 19 bilhões.

A Agre, que terá ações listadas no segmento Novo Mercado da BM&FBovespa, será criada com a incorporação das ações das três empresas que serão substituídas por papéis da nova empresa.

A operação

A relação de troca proposta é de uma ação da Agre para 5,185657061 ações ordinárias da Abyara. Com relação à Agra, a relação proposta é de uma para 4,858175714 ações e para a Klabin Segall a relação é de uma ação da Agre para 4,775142186 papéis da Klabin Segall.

Segundo a proposta, a Agre emitirá 100 milhões de ações ordionárias para os acionistas das três companhias. Ao final, investidores da Abyara terão 20,23% da Agre, os acionistas da Agra terão 49,26% da nova empresa e os da Klabin Segall ficarão com 30,51%.

As empresas estimam convocar assembleias para aprovação da proposta em 15 dias.

Ainda parte do processo de criação da Agre, a Agra passou à Veremonte toda a participação que tinha indiretamente na Abyara e na Klabin Segall, por R$ 189 milhões em dinheiro. Com isso, a empresa de Bañuelos terá 51% do capital social da Abyara e 43,8% da Klabin Segall.

Pela proposta, a Agre será presidida por Luiz Roberto Pinto, atual diretor presidente da Agra.

Construção: Concretização do negócio depende ainda de renegociação de dívidas com credores da Klabin SegallBañuelos define estratégia para o Brasil

Construção: Concretização do negócio depende ainda de renegociação de dívidas com credores da Klabin SegallBañuelos define estratégia para o Brasil

Daniela D’Ambrosio, de São Paulo
04/06/2009
Claudio Belli/Valor
Luiz Horst, presidente da Agra, responsável por toda a gestão: foco de atuação específico para Abyara, Agra e Klabin

O nome é ambicioso. A proposta idem. Amazon Group Real Estate (Agre) foi a marca escolhida para batizar o grupo de empresas que reúne Agra, Abyara e Klabin Segall. Mais do que isso: a Agre é a materialização do ousado plano do megainvestidor espanhol Enrique Bañuelos, que chegou ao Brasil no auge da crise e gastou muito pouco – exatos R$ 143 milhões – para levar duas empresas extremamente endividadas. Se conseguir resolver todas as pendências financeiras, terá nas mãos três companhias que, juntas, venderam R$ 3,2 bilhões no ano passado, mais do que a líder Cyrela.

Parte das pendências com os credores começa a ser equacionada. Depois de mais de quatro meses do anúncio da aquisição pela Veremonte e Agra, a Abyara concluiu a renegociação da dívida com os bancos e, por conta disso, fará o prometido aumento de capital de R$ 100 milhões e uma oferta pública de ações – para que os minoritários acompanhem ou não – na próxima semana. A empresa entregou terrenos e projetos aos bancos e conseguiu reduzir a dívida de R$ 430 milhões para R$ 180 milhões com prazo de carência de três anos para o pagamento. Desses R$ 100 milhões que já haviam sido anunciados, R$ 50 milhões já foram adiantados.

Resta agora conseguir renegociar com os debenturistas da Klabin Segall. Dona de uma dívida de R$ 637 milhões, as debêntures representam 70% (R$ 461,8 milhões) e com valor superior ao patrimônio líquido, de R$ 348 milhões. Antes da aquisição pelo grupo, a Klabin Segall já havia adiado o pagamento dos juros dos títulos por 60 dias e foi rebaixada pela Standard & Poor’s a uma classificação usada somente para empresas em default, mas a agência de classificação de risco revisou a nota, depois do anúncio da renegociação.

Os novos controladores – Agra e Veremonte – propõem o alongamento do prazo das debêntures: com o pagamento do principal e juros deste ano no ano que vem. Foram duas emissões com cerca de 12 debenturistas cada: a primeira é composta por “assets” e fundações e a segunda, bancos. “Esperamos conseguir renegociar nas próximas duas semanas”, afirma Marcelo Parachini, representante de Bañuelos e executivo da Veremonte, mas adiaram o pagamento de juros por mais um mês, segundo o Valor apurou. O acerto com os debenturistas é fundamental para que não só o aporte de R$ 90 milhões na Klabin Segall aconteça, mas principalmente para que o modelo de negócios integrado das três companhias seja, de fato, uma realidade. O prazo máximo é 15 de julho, sob pena de cancelamento do negócio. (ver página D3)

A similaridade entre o nome Agre e Agra não é acaso. Por trás da sigla de brasilidade, há a real conotação do negócio. Quem manda é a Agra. Mais especificamente Horst, o Beto, como é conhecido no mercado, um dos fundadores da Agra -empresário de 45 anos e herdeiro do grupo de saúde Samcil que decidiu tocar a vida em outro setor. Enrique Bañuelos, dono de uma carreira controversa no mercado imobiliário espanhol, prefere não aparecer. Escolheu Beto como parceiro no Brasil e porta-voz do grupo. O discurso é uníssono: o que prevalece nas três companhias é o modelo de gestão da Agra.

Na Abyara, quem assumiu desde o início foi Astério Safatle, fundador da Agra ao lado de Horst. Faltava assumir o comando da Klabin. Não falta mais. Fernando Albuquerque, vice-presidente da Agra, será o novo presidente da Klabin. O antigo controlador Sérgio Segall permanece no negócio, mas perdeu a principal cadeira.

Enrique Bañuelos e a sua Veremonte trabalham de uma maneira, no mínimo, peculiar. Embora sejam controladores das empresas que adquiriram – a Veremonte entrou com 70% e a Agra, 30% tanto em Abyara, quanto Klabin Segall – e, portanto, coloquem a maior parte do capital, não indicam ninguém no dia-a-dia das suas controladas. Nem mesmo pleiteiam um assento no Conselho de Administração. “Não colocamos ninguém porque acreditamos na gestão deste senhor”, afirma Paracchini apontando para Horst. “Nós o escolhemos como nosso sócio local”, completa

Horst, presidente da Agra e mentor do novo negócio ao lado de Bañuelos, tem os números das duas outras empresas na ponta da língua. Entrou no negócio com o espanhol depois de viajar para Nova York, onde Bañuelos tem negócios, e à Valência, onde conheceu a família do executivo. “O mercado imobiliário espanhol desabou e o apontaram como culpado, mas não há ações judiciais ou trabalhistas contra ele”, diz. “Não colocaria a minha reputação em jogo se não acreditasse nele”, afirma. Bañuelos foi obrigado a sair da empresa que ele próprio fundou, a Astroc, depois de denúncias de operações que inflaram os papéis da companhia e responde a uma ação movida por 50 minoritários.

Embora ainda tenha que enfrentar os debenturistas da Klabin, o modelo de negócios está todo desenhado e já começa a ser colocado em prática. Não haverá uma fusão entre as três companhias – cada empresa segue separada, com ações em bolsa – nem formalmente há a criação de uma holding, mas os novos sócios garantem que muita coisa já começa a mudar nas empresas. “Empresa que tem sanear, não se pode esperar nem um dia”, diz Horst.

Foi feita uma divisão regional e uma divisão de atuação entre as três incorporadoras. Todas seguem em São Paulo, mas Agra fica mais focada no Norte e Nordeste, Klabin no Rio e Abyara, no sul do Brasil. Da mesma forma, as três continuam atuando no segmento residencial de médio e alto padrão, porém Agra (através da empresa Asa) fica com baixa renda, Abyara fica com hotelaria, turismo e entretenimento, e Klabin Segall se especializa em escritórios corporativos, salas comerciais e até shoppings – área que nenhuma delas atuou. “Já temos parceiros internacionais para hotelaria, escritório corporativo e entretenimento”, diz Parachini. A ideia é que os sócios entrem como investidores nas Sociedades de Propósito Específicos (SPE´s), empresas constituídas para cada empreendimento.

Além de aproveitar as sinergias nas áreas administrativas, o objetivo é criar unidades de negócios que atendam todo o grupo e empresas de fora. Haverá uma construtora (que nasce da Setin, comprada pela Klabin Segall), uma gerenciadora de projetos e uma empresa própria de vendas. “Isso tudo leva de seis a doze meses para se concretizar”, afirma Horst. O grupo diz que não pretende mais fazer aquisições. “A plataforma está com tamanho ideal”, diz Paracchini. Quando chegou ao Brasil, o objetivo de Bañuelos era unir seis empresas do setor. Parou na metade.

A reencarnação de Bañuelos – 20/5/2009

A reencarnação de Bañuelos – 20/5/2009

Fonte:Exame

O espanhol Enrique Bañuelos foi um expoente do mercado imobiliário de seu país. Seu negócio foi à lona – mas ele saiu bilionário. Comprando uma empresa após a outra, ele agora recomeça sua trajetória no Brasil

Por Eduardo Salgado, de São Paulo, e Rodrigo Mesquita, de Madri

Dani Duch/La VAnguardia Enrique Bañuelos, dono da Veremonte, holding com investimentos no setor imobiliário

No dia 22 de outubro, às 10 horas da noite, um avião Gulfstream G550 decolou do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, com destino a Valência, na Espanha. Na aeronave de 18 lugares, estavam apenas quatro passageiros: o empreendedor espanhol Enrique Bañuelos, dono do avião, Marcelo Paracchini, seu principal executivo no Brasil, e dois sócios da incorporadora paulista Agra, Luiz Roberto Pinto, presidente, e Ricardo Setton, diretor de finanças. Sem escalas, após cerca de 15 horas o quarteto aterrissou no Aeroporto de Manises. O espanhol e os sócios da Agra tinham sido apresentados por funcionários do banco de investimento Credit Suisse, em São Paulo, cerca de dez dias antes. Bañuelos – empresário que fez fortuna no mercado imobiliário espanhol e viu sua empresa ir à lona – já era um nome conhecido em São Paulo. Há vários meses, ele estudava oportunidades no Brasil, seu principal foco após ter diminuído sua presença na Espanha. Em setembro, esteve próximo de comprar o resort Costa de Sauípe, na Bahia, e a quem quisesse ouvir dizia que tinha decidido vir para o Brasil para montar um grande negócio. Seu objetivo ao viajar para Valência era tirar da cabeça dos sócios da Agra qualquer dúvida que pudesse existir sobre seu passado. Já os empresários brasileiros queriam saber mais sobre o nome comumente associado na Espanha à formação e ao estouro de uma bolha especulativa que ajudou a mergulhar a economia em uma das piores recessões da Europa.

Uma vez instalados na casa de Bañuelos em Valência, Luiz Roberto Pinto e Ricardo Setton tiveram uma programação intensa, que incluiu contatos com a equipe local do espanhol. Passados quatro dias, já na volta, ambos os lados consideraram a missão cumprida. Bañuelos conseguiu impressionar os brasileiros, que, por sua vez, decidiram formar uma parceria com ele. Antes do final de 2008, Bañuelos já havia desembolsado 50 milhões de reais em duas etapas por uma participação de 7% na Agra. Desde então, a Veremonte, empresa de Bañuelos no Brasil, e a Agra fizeram um verdadeiro strike no mercado imobiliário. Sempre com o espanhol como sócio majoritário, compraram o controle de duas outras incorporadoras paulistas – a Abyara e a Klabin Segall. Seis meses após a decolagem rumo a Valência, Bañuelos, em parceria com a Agra, já era um concorrente de peso no setor. Juntas, Agra, Abyara e Klabin Segall têm o terceiro maior estoque de terrenos entre as incorporadoras brasileiras. No ano passado, as três empresas juntas estiveram na liderança em vendas de apartamentos. “Não pretendemos parar por aqui”, diz Paracchini, principal executivo da Veremonte. (Procurado por EXAME no Brasil e na Espanha, Bañuelos se negou a dar entrevista.) O próximo alvo, segundo executivos de bancos de investimento, pode ser a paulista Inpar. A Veremonte também estuda negócios nas áreas de varejo e alimentos.

A reação dos concorrentes até agora é um misto de aprovação e desconfiança. A Abyara, com presença em São Paulo e na Região Sul do país, estava à venda há cerca de um ano e meio. Com problemas de fluxo de caixa e dívidas de curto prazo, era considerada uma bomba-relógio pelo setor. Se quebrasse, poderia espalhar o medo entre os compradores de imóveis e, assim, comprometer a imagem das outras incorporadoras. O mesmo temor havia em relação à Klabin Segall, incorporadora com sede em São Paulo e forte presença no Rio de Janeiro. “Bañuelos está contribuindo ao comprar empresas que estavam com pouca liquidez. Ao atuar como um consolidador, ele tem, até agora, ajudado bastante”, diz João Rossi Cuppoloni, presidente da Rossi Residencial, de São Paulo. “Sem ele, teríamos empresas que seriam zumbis”, diz um alto executivo do setor, que prefere não ter seu nome revelado.

Ao entrar no Brasil, Bañuelos comprovou seu perfil de investidor oportunista – característica sua já conhecida no mercado espanhol. O preço das ações da Abyara no ano passado esteve em queda livre, despencando de 21 reais para 1,51 real, o pior desempenho da Bovespa no período. Do começo deste ano até 26 de abril, véspera do anúncio do fechamento do negócio com a Klabin, os papéis da companhia registraram queda de 24%, desempenho na mão contrária do restante do setor. Bañuelos apareceu justamente quando alguns empresários estavam clamando por um salva-vidas, e seu estilo logo ficou claro. “No caso da Abyara, o negócio saiu porque Bañuelos foi um duro negociador com os bancos credores”, diz um dos envolvidos. Nos primeiros contatos, o espanhol teve uma postura considerada agressiva até demais, mas logo foi lembrado que, se continuasse a dar muitas caneladas nos bancos, correria o risco de ficar sem crédito no futuro. Bañuelos, que passa duas semanas por mês em um apartamento no bairro Vila Nova Conceição, na zona sul de São Paulo, também é tido por parte das pessoas que o conhecem como um ótimo vendedor. “Numa espécie de portunhol, ele fala bastante e vende bem o seu projeto de expansão no mercado brasileiro”, diz Sergio Carettoni, um dos sócios da gestora de recursos Gas Investimentos e vizinho de Bañuelos num prédio luxuoso na avenida Faria Lima, em São Paulo. Dono de uma memória tida como prodigiosa, Bañuelos costuma despejar números e referências a fatos históricos em suas argumentações. Para ele, o Brasil é único por ser emergente e democrático, ter uma cultura ocidental e um Judiciário independente.

Quem está convencido de que Bañuelos pode fazer mais mal do que bem ao mercado brasileiro comenta sua imagem na Espanha. “Bañuelos foi símbolo tanto do milagre do setor imobiliário espanhol como da crise que o seguiu”, diz Francisco Díaz, analista de mercado imobiliário do Popular, quinto maior banco espanhol. Ele entrou no mercado imobiliário em 1999, em sua cidade natal, Sagunto, próxima a Valência. Antes havia trabalhado na Secretaria de Urbanismo de Sagunto, onde conheceu de perto a legislação estadual que permitia modificar com facilidade o zoneamento de áreas rurais e urbanas. Além disso, as autoridades locais podiam exigir que proprietários de terrenos vendessem seus imóveis a empreendedores pelo valor venal. “Com a ajuda da curiosa lei valenciana, já extinta pela União Europeia, Bañuelos contava com uma grande quantidade de terrenos no auge da bolha”, afirma Diaz.

No começo de 2006, Bañuelos fez o IPO de sua empresa, rebatizada de Astroc. Em nove meses, o preço da ação foi de 8 para 97 dólares, uma valorização superior a 1 000%. No mesmo ano, o empresário ganhou status de celebridade e acompanhou membros da família real espanhola a uma visita ao então presidente americano, George W. Bush, na Casa Branca. Apareceu na lista dos mais ricos do mundo e atraiu investidores como Amâncio Ortega, dono da rede de varejo de roupas espanhola Zara. A debacle da Astroc começou no final de 2006, quando os primeiros rumores sobre manipulações no balanço se tornaram públicos. O golpe definitivo aconteceu no início de 2007, quando uma auditoria contratada pela Comissão de Valores Mobiliários espanhola comprovou que cerca de 60% do lucro em 2006 era resultado de operações de compra e venda do próprio Bañuelos. Por uma exigência da comissão, a Astroc retificou o balanço, mas o mercado não perdoou. Em uma semana as ações perderam 60% do valor. Em abril de 2007, menos de um ano após o IPO, o papel valia cerca de 4 dólares. “Estamos processando a direção da Astroc para tentar reaver parte do dinheiro que perdemos”, diz Felipe Izquierdo, um dos líderes de um grupo de 50 acionistas minoritários. O processo chegou a ser arquivado por Baltasar Garzón – juiz que ficou famoso ao mandar prender o ex-ditador chileno Augusto Pinochet -, mas, após os minoritários terem recorrido, foi reaberto. Bañuelos, numa tentativa de salvar sua empresa, fundiu a Astroc com duas outras companhias. Em seguida, se afastou da direção da empresa com uma fortuna pessoal estimada em 1,8 bilhão de dólares e sumiu das páginas dos jornais espanhóis até reaparecer no Brasil. É fato que Bañuelos trocou de país e convenceu seus novos parceiros de sua idoneidade, mas o passado ainda o persegue. Segundo empresários do ramo imobiliário e fontes do setor financeiro, o banco Santander teria sido procurado por ele em São Paulo, mas se negou a fazer qualquer tipo de negócio – o banco não se pronuncia sobre o assunto. Qualquer que seja o veredito que os brasileiros venham a dar sobre Bañuelos, o fato é que, a julgar pelo que ele já fez nos últimos meses, dificilmente o mercado terá como ignorá-lo.

Agra e empresário espanhol assumem a Klabin Segall

Terça-Feira, 28 de Abril de 2009 | Versão Impressa

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Agra e empresário espanhol assumem a Klabin Segall

Acordo dá à Agra e à Veremonte Participações 58% da empresa; antigos donos terão 15,7%

Patrícia Cançado

A incorporadora Agra e a Veremonte Participações, do empresário espanhol Enrique Bañuelos, vão assumir o controle da Klabin Segall. Pelo acordo, terão 58% do capital total. Os antigos controladores ficarão com 15,7%. A gestão, no entanto, continua igual. Os irmãos Sergio e Oscar Segall e Antonio Setin devem permanecer na companhia pelos próximos seis anos, participando de todas as decisões.

Não se trata de uma aquisição, mas de uma associação, segundo os executivos. Agra e Veremonte vão constituir uma nova companhia, que será incorporada pela Klabin Segall. A primeira vai colocar R$ 10 milhões em dinheiro e R$ 44 milhões em ativos – participação em empreendimentos já lançados. A Veremonte, por sua vez, fará um aporte de capital de R$ 100 milhões.

“Após a incorporação, a Klabin emite novas ações. E 58% delas pertencerão aos novos sócios, sendo a maior parte (65% dessa fatia) da Veremonte”, explica o presidente da Agra, Beto Horst. “A incorporação traz capital e ativos. Foi a melhor forma para melhorar a estrutura de capital da empresa”, diz o presidente da Klabin Segall, Sergio Segall.

A Klabin Segall enfrentava sérias dificuldades financeiras. No fim do ano passado, sua dívida líquida acumulada era de R$ 527,9 milhões. A situação tornou-se preocupante e resultou no seu rebaixamento pela agência de classificação de risco Standard & Poor?s em março deste ano. “Comercialmente, não há grandes problemas. O fluxo de caixa da empresa, porém, era apertado”, afirma o analista da Standard & Poor?s, Reginaldo Takara.

A aquisição da construtora Setin, em 2007, também pode ter sido mal digerida pela companhia. Segundo o analista, a compra foi feita à custa de um aumento da dívida. “A Klabin sempre trabalhou com pouco capital. Quando o mercado mudou de escala, ela fez um IPO, mas não foi suficiente para acompanhar o ritmo da concorrência. Por isso, precisou levantar dívida. Com a piora do ambiente econômico, a dívida foi reprecificada pelos bancos”, explica Segall. “Agora, com essa solução, vamos trabalhar com mais conforto.”

O esforço de levantar capital não se resume a essa transação. Ontem, a companhia também divulgou a venda de metade de um de seus maiores empreendimentos, o Seridó 106, um projeto de luxo localizado no bairro Jardim Europa, em São Paulo. A parcela da Klabin no negócio correspondia a um valor geral de vendas (VGV) de R$ 359,5 milhões.

PARCERIA

Essa não é a primeira operação conjunta de Agra e Veremonte. Em fevereiro, compraram o controle da Abyara, que também tinha problemas de caixa. O interesse do espanhol Bañuelos pelas empresas brasileiras surgiu no ano passado. Seu objetivo seria formar uma holding com seis a dez empresas imobiliárias. “Esse projeto ainda está de pé”, diz Horst.

Bañuelos é uma figura polêmica no mercado imobiliário. Em 2007, chegou a ser um dos 100 homens mais ricos do mundo, de acordo com a revista Forbes. Hoje é uma estrela decadente no mercado espanhol. É processado pela Justiça por administração desleal e manipulação das ações da sua Astroc, atualmente em concordata.

Como o empresário saiu arruinado da crise imobiliária na Espanha, a grande dúvida é a origem do dinheiro. Na compra da Abyara, o plano era injetar R$ 100 milhões no caixa da companhia – até agora foram colocados R$ 40 milhões, segundo Horst. O restante virá entre 30 e 60 dias, garante o executivo. No caso da Klabin, serão depositados R$ 20 milhões imediatamente (metade desse valor virá da Agra).

A venda da Klabin Segall é considerada a última grande compra “predatória” do mercado, na avaliação de um alto executivo de uma incorporadora. “As próximas aquisições ocorrerão menos por desespero e mais para acelerar o crescimento das empresas”, aposta. “Para montar a holding, que é uma ideia interessante, o empresário espanhol precisará demonstrar que é sério e tem capital.”

Empresário espanhol e incorporadora do Brasil farão aporte de R$ 110 milhões até 15 de julho Agra e Veremonte passam a controlar a Klabin Segall

Construção: Empresário espanhol e incorporadora do Brasil farão aporte de R$ 110 milhões até 15 de julho Agra e Veremonte passam a controlar a Klabin Segall

Daniela D’Ambrosio, de São Paulo
28/04/2009
Gustavo Lourencao/ Valor
Paracchini, CEO da Veremonte (com terno) e Silveira Pinto, da Agra: negócio consolida parceria na área imobiliária

O megainvestidor espanhol Enrique Bañuelos dá mais um passo para consolidar sua participação no mercado imobiliário brasileiro. Depois da Abyara, sua empresa, a Veremonte, será a nova controladora da Klabin Segall, conforme antecipou ontem o Valor. A operação reitera a intenção da Veremonte em resgatar empresas endividadas – no auge de suas crises – e coloca a Agra como sua grande parceira para consolidação no Brasil.

Em uma operação estruturada, que exclui a participação dos minoritários, Agra e Veremonte criam uma nova companhia, a Holding Agra Veremonte, com participação de 65% da empresa de Bañuelos e 35% da brasileira. Essa companhia será incorporada pela Klabin Segall, que emitirá novas ações. No final da operação, a holding ficará com 58% do capital social da Klabin Segall.

Agra e Veremonte colocarão R$ 110 milhões na nova companhia, dos quais R$ 20 milhões imediatamente e os R$ 90 milhões restantes condicionados à renegociação da dívida – o que deve acontecer até 15 de julho, sob pena de cancelamento do negócio – mesmo modelo usado na Abyara. A dívida atual da empresa é de R$ 637 milhões, sendo R$ 461,8 milhões em debêntures – cujo pagamento foi adiado por 60 dias justamente pelo descumprimento da cláusula dívida sobre patrimônio líquido. Os principais credores são os bancos Safra e Bradesco.

A Abyara foi comprada em fevereiro pelos mesmos donos da Klabin e até agora o aumento de capital de R$ 100 milhões não foi feito porque a renegociação com os credores não está totalmente concluída. Segundo Marcelo Paracchini, da Veremonte, a nova administração está perto de fechar o acordo.

Serão atribuídas à holding Agra Veremonte 84,2 milhões de ações ordinárias da Klabin Segall. O negócio foi fechado considerando o preço da ação na sexta-feira (R$ 1,83), o que equivale a um valor de mercado de R$ 112 milhões. A abertura de capital da Klabin Segall aconteceu em outubro de 2006 a R$ 15,00 a ação.

A diluição depois de concluída a operação será de 60%. Os antigos donos, a família Segall, terá a participação reduzida de 36,5% para 15,4%. Os Setin, saem de 8,9% para 3,7%. E os minoritários, que tinham 54,7% da companhia, terão agora 23%.

Além dos R$ 110 milhões, a nova empresa irá incorporar dois projetos da Agra num total de R$ 44 milhões. Um deles, com dois terrenos, na Vila Leopoldina, que está 70% vendido, segundo a Agra, e o outro em São Bernardo, com dois projetos residenciais e um comercial, com cerca de 50% de vendas. Ambos serão entregues no final de 2010. “São projetos com ótimo resultado que geram receita imediata para a nova empresa”, afirma Luis Roberto Horst.

Ontem, em uma operação independente, a Klabin Segall fechou a venda de 50% do empreendimento Serídó por R$ 50 milhões. Com isso, passa a ter um reforço imediato de caixa de R$ 70 milhões, que pode chegar a R$ 160 milhões.

Os antigos sócios continuam à frente da Klabin até 2014. A Agra participará da gestão. Já a Veremonte, a exemplo do que fez na Abyara, fica fora da gestão e do conselho. A ideia é usar as sinergias entre as três empresas – Agra, Klabin e Abyara – e, criar uma estrutura única de administração. A Klabin é a única que tem construtora e atenderá as outras duas.

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