Archive

Archive for the ‘Brazil’ Category

Existe uma cura para a doença brasileira?

Existe uma cura para a doença brasileira?
Compartilhar:
Por Edmar Bacha
Há tempos o Brasil é conhecido como a terra dos contrastes. Hoje em dia, o contraste maior é entre uma economia que exibe pleno emprego e rápida ampliação da classe média, o que gera sensação de bem-estar na população e explica a popularidade do governo e uma outra economia, que padece de baixo crescimento e inflação elevada, o que sugere descontinuidade e crise num futuro não distante. Como romper com esse contraste e colocar o país na rota do desenvolvimento pleno?

No fim da década passada o Brasil parecia haver entrado numa fase de crescimento sustentado com inflação sob controle. Era o que sugeria tanto a trajetória favorável da economia desde 2004 como sua rápida superação da crise mundial de 2008-09. Entretanto, os “pibinhos” e a alta inflação a partir de 2011 nos indicam que a euforia econômica do período 2004-2010 teve caráter temporário, sendo explicada por fatores de natureza cíclica que se teriam esgotado em 2011.

De fato, entre 2004 e 2011, o país foi beneficiado por uma bonança externa de dimensões talvez únicas em nossa experiência histórica. Essa bonança, de quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB), foi gerada por uma explosão dos preços das commodities que exportamos e por um extraordinário influxo de capitais estrangeiros. Ela não somente gestou mas também financiou um enorme aumento da demanda interna, que se materializou num maior crescimento do investimento e do PIB. Esse crescimento pôde se manifestar sem pressões inflacionárias devido à apreciação do câmbio e à maciça incorporação de mão de obra ao processo produtivo.

Não há caminho para o primeiro mundo que não passe pela integração econômica com o resto da comunidade global

Desde 2011, houve um arrefecimento do impulso externo: os preços das commodities pararam de crescer e em alguns casos se reduziram; o influxo de capital externo reduziu-se em função do maior risco do cenário internacional e também das barreiras à entrada criadas pelo governo brasileiro. A disponibilidade de mão de obra diminuiu e o câmbio se depreciou. Voltamos então aos “pibinhos” e à inflação elevada do período anterior a 2004.

Os diagnósticos correntes sobre a doença brasileira de elevada inflação e baixo crescimento enfatizam corretamente o baixo investimento e a alta carga tributária. Menor presença no debate tem tido um terceiro fator tão ou mais importante que esses: a reduzidíssima participação do comércio exterior na atividade econômica do país. Trata-se de uma questão de natureza estatística, pois o Brasil destoa dos demais países do mundo mais nesse quesito do que na taxa de investimento ou na carga tributária. É também uma questão de economia política: uma maior integração do país no comércio internacional induziria uma redução da carga tributária e uma maior taxa de investimento. Consideremos os argumentos a respeito.

De acordo com o World FactBook da CIA, o PIB brasileiro em 2012 foi o 8º maior do mundo. Entretanto, o valor de nossas exportações de mercadorias ocupou apenas a 24ª posição. Essa discrepância entre PIB e exportações é uma anomalia brasileira, pois a Comunidade Europeia ocupou o 1º lugar tanto em termos de PIB como de exportações. Os EUA ocuparam o 2º lugar em termos de PIB e o 3º em exportações. A China ocupou o 3º lugar em termos de PIB e o 2º em exportações. O 8º maior exportador do mundo é a Coreia do Sul, cujo PIB ocupa a 13ª posição no ranking mundial. Ou seja, países ricos ou bem-sucedidos em fazer a transição para o primeiro mundo são grandes exportadores. O que não acontece com o Brasil.

Quadro igualmente deprimente se revela quando olhamos os valores das importações. Nos dados do Banco Mundial, a parcela das importações de bens e serviços no PIB do Brasil é de apenas 13%, o menor valor entre todos 176 países considerados pelo banco. Na Coreia do Sul, a parcela das importações no PIB é 54%. Na Alemanha, 45%. Na China, 27%. Mesmo os EUA com sua economia gigantesca importa 18% do PIB, quase 40% a mais do que o Brasil.

Ou seja, vivemos no país mais fechado do mundo, embora a Coreia do Norte seja um concorrente. Segundo a CIA, a participação das exportações no PIB da Coreia do Norte é mais ou menos equivalente à do Brasil.

A evidência mundial é contundente: não há caminho para o primeiro mundo que não passe pela integração econômica com o resto da comunidade internacional. Esse é o grande desafio que o país enfrenta. Para ultrapassarmos a armadilha dos países de renda média que fracassaram na travessia para o desenvolvimento pleno (como a Argentina), é imperativo formular uma estratégia para que a indústria brasileira participe das cadeias produtivas globalizadas.

Essa estratégia terá diversas dimensões, inclusive na área dos acordos comerciais. Internamente, a principal medida será o abandono do protecionismo sobre insumos ao processo produtivo, o qual se manifesta em altas tarifas às importações, elevados requisitos de conteúdo nacional e normas técnicas absurdas (como a adoção de um padrão para os vergalhões de aço distinto daquele adotado nos principais países industriais). Trata-se de implantar, de forma pré-anunciada, uma progressiva mas substancial redução das tarifas de importação, dos requisitos de conteúdo nacional e das normas técnicas e burocráticas protecionistas.

O anúncio dessas medidas deverá por em marcha três outros processos. Primeiro, haverá uma antecipação de aumento das importações, o que provocará uma depreciação da taxa de câmbio. A proteção diferenciada que antes se exercia pelas tarifas às importações e outros mecanismos transformar-se-á numa “proteção cambial” horizontal, beneficiando os setores e atividades com maior vocação exportadora. Em segundo lugar, o governo se verá pressionado a efetivamente reduzir a carga tributária sobre as empresas, de forma a dar-lhes melhores condições de competir com os produtos estrangeiros. Em terceiro lugar, a perspectiva de poder importar bens de capital e insumos mais baratos e de integrar as indústrias brasileiras às cadeias produtivas internacionais levará a uma expansão do investimento privado para adaptar as empresas brasileiras a essa nova realidade econômica.

Edmar Bacha é economista e coorganizador e coautor de “O Futuro da Indústria no Brasil: Desindustrialização em Debate” (Civilização Brasileira, 2013).

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:

http://www.valor.com.br/opiniao/3039204/existe-uma-cura-para-doenca-brasileira#ixzz2NNUHGTpx

Entre Dilma e o setor privado há um abismo

Entre Dilma e o setor privado há um abismo

Por Claudia Safatle

O Palácio do Planalto está ciente de que se estabeleceu um diálogo de ‘surdos e mudos’ entre o governo da presidente Dilma Rousseff e parte do setor privado. Acredita que as maiores críticas e desconfianças são fomentadas pelo mercado financeiro e atribui isso aos interesses contrariados dos banqueiros, que teriam perdido o ganho fácil da alta taxa de juros que sustentava os elevados lucros do sistema. “Há, de fato, uma enorme má vontade do mercado financeiro com o governo”, admite uma fonte próxima à presidente. Mas há, também, uma grande “incompreensão” quanto à gênese da administração Dilma, aponta.

“A presidente não é estatizante. Ela é pragmática e esse é um governo ‘pró-mercado’. Embora queiram carimbar que esse é um governo Cristina Kirchner (da Argentina), ele não é”, assegurou a fonte.

Há um ano, Dilma foi aconselhada pelo ex-ministro Delfim Netto a se aproximar dos empresários, principalmente os da indústria, que desde 2010 têm tido um desempenho sofrível, ouvir suas dificuldades e queixas e remover os entraves ao investimento.

Sem investimento não haverá crescimento

O governo selecionou um grupo de 30 empresários – dentre eles três banqueiros – e começou a ouvi-los sistematicamente. Do primeiro encontro, em março, saiu uma lista de problemas a serem atacados: sobrevalorização da taxa de câmbio, elevada taxa de juros, custo de energia dos mais altos do mundo, pesada taxação da folha de salários, parcos investimentos em infraestrutura, dentre outros.

Dilma determinou a seus auxiliares que dessem respostas a cada um desses problemas. O real se desvalorizou, os juros caíram, a desoneração da folha de salários foi ampliada, o governo retomou as concessões de serviços públicos para o setor privado, preparou o corte na tarifa de energia e adotou medidas protecionistas para proteger alguns segmentos. “O Banco Central entrou no mercado de câmbio, porque 30 empresários vieram aqui e pediram isso à presidente”, explicou a fonte.

Mesmo depois de atender a essa demanda, particularmente da indústria, não há expansão notável dos investimentos e as desconfianças de uma parcela dos empresários só cresceram. Algo está errado.

Na Presidência, a avaliação é que as coisas não estão tão ruins como parecem. A produção industrial começa a reagir e estaria em curso uma tênue recuperação do investimento. Pode não ser uma performance brilhante para o segundo ano da gestão, “mas também não é o desastre que os economistas de bancos preconizam”, rebate a fonte.

Entre economistas e operadores do mercado financeiro e alguns setores da indústria, as críticas se avolumam. Fala-se do “intervencionismo”, da “mão pesada do Estado”, da forma “voluntarista” que o governo imprime às suas ações. Faz-se censura aos ideólogos do governo, um pequeno grupo de assessores que tem o respeito de Dilma, mas que estariam “assessorando muito mal a presidente”, aprofundando, com seu viés estatizante, o fosso que a separa hoje de parte relevante do setor privado.

A influência desse núcleo ficou clara no debate que se instalou por ocasião da elaboração do modelo de concessões dos aeroportos – ainda hoje sem definição – e se consagrou na maneira como o governo decidiu e anunciou as novas medidas do setor elétrico.

O pacote de energia elétrica anunciado no dia 11 de setembro trouxe uma boa e justa notícia – a redução da conta de luz – e uma solução importante para as concessionárias, cujas outorgas vencem entre 2015 e 2017. O governo decidiu antecipar a prorrogação das concessões, pagar indenização às empresas e beneficiar os consumidores que param de pagar por ativos já amortizados.

Quando anunciou as medidas, o mercado reagiu muito mal. Quando divulgou as indenizações, as ações da Eletrobras quase viraram pó, num movimento que o Planalto avalia como de ataque especulativo do mercado contra a empresa estatal.

A distância entre o que as concessionárias contabilizaram como indenização provável e os valores que o governo divulgou na véspera do feriado do dia 2 de novembro é abissal. A Eletrobras esperava cerca de R$ 30 bilhões e vai receber, em princípio, algo como R$ 14 bilhões.

Nesta semana, depois de muita discussão e divergências profundas entre o governo federal e as companhias elétricas, os técnicos federais constataram que há erros nas contas. No caso da usina Três Irmãos, da Cesp, por exemplo, o erro estava na data de início da operação da hidrelétrica. Três Irmãos entrou em operação em 1992, e não em 1983, como considerou o governo na hora de calcular a indenização. Só esse equívoco deveria elevar o valor do ressarcimento dos R$ 985 milhões originais para algo mais próximo a R$ 2 bilhões. Ontem saíram os novos valores, muito aquém do que esperavam as empresas e um banho frio nas expectativas.

Há inúmeras provas de que o governo Dilma é “pró-mercado”, citam seus colaboradores: a presidente quebrou o monopólio da Infraero; compreendeu que o Estado tem limitações para alavancar investimentos e está substituindo o PAC pelo regime de concessões; e, agora, está também revendo o que imaginava para os aeroportos.

“Dilma está atendendo o que foi sugerido pelos empresários, mas a forma perturba”, constatou fonte ligada à indústria. Criou-se, nessa concepção, uma desconfiança entre setor público e setor privado, que precisa ser resolvida. O receio de que ela continua prisioneira dos velhos pensamentos da esquerda estaria no centro dessa desconfiança.

O Planalto tem consciência da dimensão e dos efeitos dessa “incompreensão” por parte do setor privado em relação ao governo e admite que é preciso traçar uma estratégia para enfrentar o problema, principalmente junto ao mercado financeiro que não tem interlocução em Brasília. Mas se houver correção de conduta, ela terá que ser bilateral.

Por trás dessa preocupação está a percepção de que, enquanto prosperar a desconfiança, não haverá a expansão dos investimentos e, portanto, não haverá crescimento sustentável. Dilma terá só 2013 para apresentar bons resultados na atividade econômica. Em 2014, estará em campanha pela reeleição

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail: claudia.safatle@valor.com.br

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:

http://www.valor.com.br/brasil/2923622/entre-dilma-e-o-setor-privado-ha-um-abismo#ixzz2DkH3VU1T

Medida Provisória 579: uma guinada de 360°

novembro 21, 2012 1 comentário
Há 11 horas e 21  minutos7

Medida Provisória 579: uma guinada de 360°

Coincidência ou não, no dia 11 de setembro o governo brasileiro iniciou o  desmonte do setor elétrico brasileiro. Apesar das boas intenções da Medida  Provisória (MP) 579 – reduzir o custo de energia no país e impor maior  eficiência à Eletrobras – os meios destruíram os fins. Uma medida que deveria  receber apoio da sociedade como um todo, já que reduz as tarifas de energia,  acabou na prática só tendo recebido aprovação do próprio governo. Empresas,  acionistas, governadores, consumidores do mercado livre e congressistas estão  todos, por diferentes motivos, insatisfeitos. Além disso, o esforço exigido das  empresas é muito maior do que a contribuição do governo federal, que não reduziu  impostos e apenas retirou das tarifas encargos que ele mesmo elevou nos anos  recentes. Não há também nenhuma proposta que ataque as ineficiências do setor,  como o alto custo do gás natural, resultante do monopólio de fato da Petrobras.  Nada foi dito tampouco sobre os erros no planejamento dos leilões de energia que  fazem com que consumidores paguem por energia que não foi sequer gerada, como a  do grupo Bertin, ou que não pode ser consumida porque não há linhas de  transmissão disponíveis, como a gerada pelas eólicas.

Membros do governo argumentam que estão oferecendo um novo negócio às  empresas concessionárias e não a prorrogação dos contratos a vencer. Por isso,  podem mudar completamente a forma de remuneração, ressuscitando a tarifação pelo  custo. Podem também intervir em contratos de venda de energia, forçar a cessão  “compulsória” dos mesmos e, pior, obrigar as empresas a assumir os prejuízos  dessa cessão. E o pior é que a intervenção afeta negativamente os preços no  mercado livre onde se abastece o setor industrial gerando efeito inverso ao  desejado. O novo negócio permite ao governo ignorar o conceito básico de  “reversão” de ativos, oferecendo às empresas valores residuais por seus ativos  infinitamente menores dos que teriam direito. Desconsideram-se assim  investimentos prudentes e manutenção feitos além do projeto básico da usina e  com aprovação do órgão regulador. A consequência é óbvia: as empresas pensarão  duas vezes antes de investir novamente.

O governo oferece um novo negócio e não uma prorrogação. Trata-se de um novo  contrato com bases totalmente diferentes dos contratos atuais. Com exigências  draconianas, é natural que esse “novo negócio” seja recusado. É impossível para  empresas, inclusive Eletrobras, explicarem a seus acionistas porque devem abrir  mão de contratos válidos e melhores do que os propostos pela MP. Pior ainda,  como justificar aos seus acionistas a liberalidade de entregar ativos ainda não  amortizados sem indenização? Ao colocar em risco a sobrevivência das  concessionárias, a MP não atende ao interesse público porque coloca em risco a  própria sobrevivência das concessionárias. Se o governo está tão seguro que as  tarifas propostas são suficientes para garantir tanto a operação das usinas  quanto investimentos futuros, que tal se comprometer em lei a não colocar  recursos do Tesouro na Eletrobras pelos próximos dez anos?

Em 2013 estaremos de volta a 1993, com controle  tarifário, insegurança jurídica e intervencionismo

O encaminhamento recente das discussões com empresas e o Congresso agrava as  preocupações dos analistas. Recentes declarações oficiais têm indicado que as  bases dessa “proposta”- devem se tornar regra geral, atingindo inclusive  empresas que não assinarem esse novo contrato. Não surpreende a queda das ações  das empresas do setor, uma perda de valor jamais vista para um único setor.

A queda foi também decorrente do tratamento desigual imposto pelo governo  entre ativos pertencentes ao governo federal e aqueles pertencentes às empresas  estaduais. A presidente Dilma diz que a precificação feita pelo governo FHC  gerou ganhos extraordinários para as empresas, daí a necessidade da mudança. Mas  desde 2004 até hoje 29 usinas tiveram o direito a sua primeira prorrogação  respeitado. E essa renovação se deu de forma não onerosa, mantendo a  “precificação” anterior e remunerando ativos já amortizados. Entre essas usinas,  destaca-se a Serra da Mesa, que pertence a Furnas, cujo contrato foi prorrogado  em abril deste ano, quando as mudanças anunciadas pela MP 579 já estavam em  discussão dentro do governo. Por outro lado, a usina Três Irmãos que pertence à  Cesp  ficou com seu pedido de prorrogação dormindo nas gavetas da Aneel por  anos, e usinas da Cemig, como São Simão, que têm sua prorrogação garantida por  contrato de concessão, tiveram seu direito ignorado.

Além do radicalismo do conteúdo, a forma também foi inadequada. Depois de  anos de discussão do assunto na agenda do setor elétrico, a decisão oficial é  comunicada via Medida Provisória. Além disso, a MP foi imediatamente  regulamentada por decreto que obriga a adesão das concessionárias antes dos  trabalhos da Comissão se encerrarem. Caso modificações importantes ocorram na  conversão da MP em lei, como ficarão as concessões prorrogadas antes da lei ser  conhecida? Uma insegurança jurídica criada desnecessariamente…

Não perdem só as empresas. Perde o país com a fuga de investidores  estrangeiros que há anos colocam recursos na infraestrutura brasileira. O  resultado final pode ser exatamente o oposto do desejado: menor investimento  decorrente do maior risco de perdas regulatórias, provocando aumento no custo da  energia ou até mesmo restrições de oferta. O que está em risco é a segurança  energética do país. No momento em que assistimos à combinação de uma sequência  de apagões e as usinas térmicas já estão produzindo no seu limite, esse é um  risco real e imediato.

Também grave é o retrocesso regulatório que acompanha a medida. Em 1993, em  função do uso de controle tarifário para o combate à inflação, as empresas do  setor elétrico estavam endividadas e incapacitadas de realizar investimentos. A  Lei 8.631/93 eliminou a remuneração pelo custo, introduziu a regulação por  incentivos e realizou, na ocasião, um encontro de contas que custou mais de US$  20 bilhões aos cofres públicos. Desde então o país passou por grandes reformas  no setor, mas sempre respeitando os princípios básicos da boa regulação. A MP  579 é uma guinada de 360º – em 2013 corremos o risco de estar de volta a 1993, a  um mundo de excessivo intervencionismo estatal, insegurança jurídica e controle  tarifário.

Elena Landau é economista e advogada, sócia do escritório Sergio  Bermudes Advogados.

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico. Leia mais em:

http://www.valor.com.br/opiniao/2910456/medida-provisoria-579-uma-guinada-de-360#ixzz2CrZZQUWl

Insistindo no mesmo diagnóstico

Há 11 horas e 14  minutos1

Insistindo no mesmo diagnóstico

Por Pedro Ferreira e Renato Fragelli

Se uma mentira repetida mil vez pode se transformar em uma verdade, uma  verdade repetida mil vezes deveria se transformar em uma obviedade. Essa verdade  é que o Brasil tem um sério problema de (in)eficiência. A eficiência – ou  produtividade total dos fatores, no jargão economês – é determinante para o  crescimento. Como pouco se avançou nessa dimensão, dificilmente o país crescerá  a taxas aceleradas em um futuro próximo.

O diagnóstico do governo parece ser que o lento crescimento do Brasil decorre  de uma insuficiência na demanda. Assim, o arsenal de políticas utilizadas nos  últimos tempos busca incentivar o investimento, o consumo e a exportação.  Associado a essa visão de crescimento puxado pela demanda há a crença no papel  central da indústria, seja pela sua dinâmica de inovação, seja pela sua  capacidade de induzir atividade em outros ramos da economia. Tem-se aqui a outra  perna das políticas de crescimento atual que se revelam, por exemplo, no  crescente protecionismo e fechamento da economia contra a concorrência  internacional.

Várias medidas vêm sendo tomadas para incentivar o investimento. O gradual  fechamento da economia busca, teoricamente, aumentar a lucratividade da  indústria e induzir gastos de capital. A taxa de juros está em seu mais baixo  patamar na história recente do país, e as transferências vultosas do Tesouro  para o BNDES permitem que este empreste, quase sem limites, a taxas subsidias ao  setor privado. Ainda assim, a taxa de investimento da economia não dá sinais de  responder.

Países pouco eficientes crescem pouco, e os países  com regras instáveis crescem menos ainda.

A interferência no mercado de câmbio seria outra medida de indução do  crescimento via demanda. O dólar, que há pouco tempo era comprado a menos de R$  1,60, sofreu uma significativa desvalorização de 30%. Isso deveria provocar um  aumento das exportações e contração das importações. Entretanto, seja devido à  crise na Europa, ou uma clara hostilidade às importações, que encarecem custos  de produção dos bens exportados, o fato é que as exportações não responderam à  mudança no câmbio.

Quanto aos gastos do governo, observa-se uma decidida expansão e medidas  pontuais de desoneração tributária (redução do IPI dos automóveis). De acordo  com os tradicionais manuais de cursos de graduação em Economia, o aumento dos  gastos do governo – ou redução dos tributos – deveria ter um efeito  multiplicador sobre a economia e um significativo impacto sobre a demanda  privada e crescimento. Entretanto, talvez por que os gastos sejam de “má  qualidade” – os investimentos públicos teimam em não aumentar -, ou porque o  diagnóstico esteja errado, o fato é que o acelerado crescimento dos gastos  públicos até o momento não teve qualquer impacto significativo sobre o  crescimento da economia. A menos, é claro, que a expansão das compras de  automóveis no mês de agosto possa ser classificada como “crescimento sustentável  de longo prazo”.

Os sinais de que o problema não é insuficiência de demanda são claros. A taxa  de desemprego brasileira Brasil está em nível historicamente baixo, indicando  que o país encontra-se próximo do pleno emprego. Se houvesse fraca demanda, os  preços deveriam apresentar tendência de queda, mas o que se observa é a inflação  acima da meta. Se não fossem por desonerações e controles de preços  administrados – como o dos combustíveis-, a inflação já teria estourado seu  limite superior.

Como já se repetiu inúmeras vezes neste espaço, a eficiência produtiva  brasileira é baixa e a evidência recente é de que esteja caindo. A partir de uma  dada quantidade de fatores de produção – máquinas, estruturas, capital humano e  trabalho -, produz-se no Brasil cerca de metade do que seria produzido nos  Estados Unidos e demais economias líderes. Enfrentar o problema da  (in)eficiência requer políticas totalmente diversas das que vêm sendo  implementadas no país. São necessárias instituições estáveis, maior garantia de  contratos, regras claras, regulação bem desenhada, maior abertura comercial e  uma estrutura tributária menos distorciva e burocrática.

Ao errar o diagnóstico, mesmo medidas que visariam aumentar a  “competitividade” acabam reduzindo a eficiência no longo prazo. É fato que as  tarifas de eletricidade no Brasil são altas. Entretanto, a forma como se busca  reduzi-las, de forma unilateral e utilizando uma contabilidade algo nebulosa que  impõe significativas perdas às empresas do setor, tende a afastar os  investidores. O preço da energia será reduzido, mas à custa de menor eficiência  e comprometendo a expansão do setor. Na mesma linha, o controle de câmbio, a  inflação acima da meta e o superávit primário declinante vêm solapando a  credibilidade da política macroeconômica, o que desestimula investimentos de  longa maturação.

Países pouco eficientes crescem pouco, países com regras instáveis menos  ainda. A crescente intervenção do governo na economia, o virtual abandono ou  “flexibilização” do regime de metas de inflação, o maior protecionismo  comercial, a interrupção dos leilões de petróleo, a instabilidade no setor  elétrico e a incapacidade do governo em levar a cabo seus investimentos  planejados são fatores que apontam para um país menos produtivo e eficiente. Um  país que, provavelmente, crescerá a taxas medíocres no futuro.

Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli Cardoso são professores  da Escola de Pós-graduação em Economia (EPGE-FGV).

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico. Leia mais em:

http://www.valor.com.br/opiniao/2910450/insistindo-no-mesmo-diagnostico#ixzz2CrXt7vev

Projeto nacional e greves do funcionalismo

Projeto nacional e greves do funcionalismo

Por Antonio Delfim Netto

A censura frequente aos governos das últimas duas décadas é que eles não têm um “projeto”: faltam medidas “estruturantes”, seja lá o que isso for. Os críticos ignoram que desde a Constituição de 1988 (a maioria deles a abomina por suas “utopias”), o Brasil tem um “megaprojeto superestruturante”! Nela, os legítimos representantes do povo estabeleceram a organização social em que gostariam de viver os brasileiros.

Que projeto foi estabelecido na Constituição? Trata-se de organizar sólidas instituições que permitam a construção:

1º) de uma república, ou seja, um Estado no qual todos, inclusive os governos, estão sujeitos à mesma lei, sob o controle de um Supremo Tribunal Federal independente, que é o “garante” de nossas liberdades e o controlador da irresistível indiscrição dos governos de plantão;

2º) de uma democracia, isto é, um sistema de sufrágio absolutamente universal (para maiores de 16 anos) no qual escolhe-se o poder incumbente em períodos certos, em eleições livres organizadas por partidos e que satisfazem a condição mínima da democracia: eleições competitivas cujo resultado é incerto; e

3º) de uma sociedade onde se caminhe, permanentemente, na direção do aumento da igualdade de oportunidades. Em poucas palavras, a situação final dos indivíduos deve ser cada vez menos dependente das circunstâncias em que foram gerados. O que alguns veem como a mais utópica das propostas da Constituição de 1988: educação e saúde universais e gratuitas (não por obra dos céus, mas com recursos fornecidos proporcionalmente por todos), é o que há de mais importante na construção de uma sociedade razoavelmente “justa”, objetivo fundamental para dar um mínimo de moralidade ao mecanismo do mercado.

Governo deve investir R$ 100 bi nos próximos 5 anos

Esses são os três vetores cuja direção todos os governos, desde 1988, têm seguido, com resultados razoavelmente satisfatórios, como provam recentes pesquisas internacionais (Pew Research Center, July 12,2012). Elas mostram que os brasileiros revelaram-se dos mais satisfeitos e com maior esperança de que o futuro será melhor do que o presente. Estamos desenvolvendo uma sociedade onde a liberdade de iniciativa, a inclusão social e o respeito às limitações impostas pela conservação da natureza estão sendo introjetadas no comportamento coletivo.

É muito importante reconhecer que a possibilidade de sua construção é condicionada pela qualidade de sua organização produtiva. Essa deve ser capaz de gerar os recursos que tornem possível realizá-la. No fundo, só o aumento físico e a melhoria organizacional da capacidade produtiva pode fazê-lo. Isso coloca um dilema: como administrar os resultados do processo produtivo (o PIB) entre o consumo presente e o investimento que aumenta a capacidade produtiva e o consumo no futuro? Um país como o Brasil precisa de um crescimento médio do PIB da ordem de 5% ao ano e isso só é sustentável com um investimento médio da ordem de 25% do PIB.

Para conseguir 25% do PIB, como investimento, temos de poupar (ou importar poupança externa) no mesmo nível. A contabilidade nacional é indiferente à ideologia, cara feia, passeatas ou ameaças sindicais! Trata-se de um problema aritmético. Por que o Brasil pôde crescer 7,5% ao ano, durante 30 anos (1948-1980)? Porque a carga tributária bruta era de 24% e o investimento público de 4% a 5%. Por que crescemos nos últimos 30 anos à média de 2,8% ao ano? Esqueçamos a “chinoiserie” enganadora e extravagante: insegurança jurídica, falta de instituições, produto potencial, intervenção nos mercados, incertezas externas, juros, câmbio que podem ter alguma responsabilidade. A razão fundamental é que com uma carga tributária bruta de 34% a 35% do PIB, o investimento público não chega a 2% dele!

Pois bem. O setor privado brasileiro continua investindo mais de 25% de sua renda líquida (PIB menos tributação, nas contas nacionais). Quem desinveste liquidamente é o governo! Agora ele se prepara para dar um passo avante e acelerar o crescimento por meio de investimentos da ordem de R$ 100 bilhões nos próximos cinco anos, em projetos de infraestrutura, com concessões mais bem estudadas e com taxas de retorno capazes de atrair, numa dura competição, o que há de melhor e de mais confiável na engenharia nacional. Eles elevarão o baixo investimento no setor sem sobrecarregar o orçamento federal (no qual não cabe o que já está lá dentro!) fazendo crescer a renda e o consumo imediatamente e ampliando a capacidade produtiva futura (a produtividade total da economia) quando estiverem executados.

O momento exige uma enorme responsabilidade do governo, que deve manter sadias as suas contas para não pressionar, na frente, a elevação da taxa de juros pelo aumento do déficit fiscal e o aumento da relação dívida pública bruta/PIB, que anda em torno de 65%. Gostemos ou não, esse é o parâmetro, seguramente imperfeito, pelo qual se mede, universalmente aquela relação que influi no “risco Brasil” e, no fim, na taxa de juros real interna.

A presidente Dilma tem absoluta razão quando diz que não se pode “brincar com as finanças públicas”. Se quisermos continuar a crescer com estabilidade não podemos transigir com os aumentos salariais “exigidos” (sic) pelo funcionalismo sindical. É preciso que os 196 milhões de cidadãos “excluídos” apoiem fortemente, pela palavra e pela ação, a disposição do governo de resistir. É mais do que claro que o modelo da Constituição não se compadece com uma república sindicalista e muito menos ainda, uma república controlada pelo sindicalismo público!

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:

http://www.valor.com.br/opiniao/2787422/projeto-nacional-e-greves-do-funcionalismo#ixzz23ZmOnvms

Um bom negócio para a cadeia da construção civil

Um bom negócio para a cadeia da construção civil

 

Divulgação / DivulgaçãoLeonardo Neves, da João Fortes Engenharia: opção da empresa, de ser dona dos shoppings que ergue, aumenta sinergia e produtividade

Devem estar em operação até o final deste ano 466 shoppings centers em todo o país, de acordo com projeções da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers). Esse dado leva em consideração os números consolidados até junho deste ano, de 437 empreendimentos em funcionamento, mais os 28 que devem abrir as portas até o final de 2012. Quando estiverem prontos, serão 36 novos shoppings neste ano. Essa expansão irá acrescentar ao setor mais de 1 milhão de metros quadrados de ABL (Área Bruta Locável) – o espaço que é usado pelos comerciantes e prestadores de serviços em um shopping. Para o ano que vem, já está anunciada a abertura de mais 43 centros de compras, acrescentando ao total de ABL no país mais 1,233 milhão de metros quadrados.

“O mercado está aquecido, mas já esteve mais”, define Marcelo Tessler, dono da gerenciadora de obras e projetos Tessler Engenharia. Participar desse aquecimento é um negócio rentável tanto para construtoras como para gerenciadoras e fornecedores. Segundo Tessler, que está há 17 anos nesse ramo, a tendência atual é de as empresas lançarem shoppings em cidades menores, no interior. O engenheiro conta que tem dez projetos em andamento, em São Paulo, no Rio Grande do Sul e até em Roraima. O maior deles é o Shopping Iguatemi Esplanada, que está sendo construído na cidade de Votorantim, ao lado de Sorocaba, no interior de São Paulo, com mais de 43 mil metros quadrados de ABL, que deve ser inaugurado em 2013. De acordo com Tessler, do investimento total em um shopping, o gerenciamento ficam com 3%, enquanto o projeto custa entre 7% e 10%. “Cerca de 90% dos valores são empregados na obra em si”, afirma.

“O mercado nos grandes centros está saturado e os grandes shoppings vão para os municípios vizinhos, onde os preços (dos terrenos) são mais viáveis”, complementa Gustavo Zan, superintendente de negócios da Matec Engenharia, fundada em 1990 e com mais de 50 empreendimentos construídos”.

A Matec toca hoje três projetos de shoppings. A ampliação do Gran Plaza, de Santo André (SP), em 65 mil metros quadrados é um deles. As obras, no empreendimento da CCP (Cyrela Comercial Properties), devem ficar prontas no segundo semestre deste ano. Outro é o Shopping Center Limeira, em Limeira, no interior de São Paulo, que pertence à AK Realty, empresa do grupo Induscredi. O terceiro é o Ferraz de Vasconcelos, no interior de São Paulo, da própria Matec. “Compramos o terreno e estamos construindo o shopping, investimento de R$ 120 milhões, com 35 mil metros quadrados”,.

A Matec também constrói galpões industriais e prédios para outros usos comerciais, mas a área de shoppings representa 40% da receita da companhia. De acordo com Zan, o faturamento previsto para este ano deve chegar a R$ 500 milhões, com alta de 25% sobre o ano passado.

O caminho que a Matec está trilhando, de ser dona dos shoppings que ergue, é o mesmo que a João Fortes Engenharia percorreu. “Fizemos 14 shoppings”, conta Leonardo Neves, gerente de negócios da companhia. “Até 2006, a construção era para terceiros. Nesse ano fizemos o Bangu Shopping e passamos a ter participação nos empreendimentos”. O segundo empreendimento que a João Fortes assumiu foi o Parque Europeu, em operação em Blumenau (SC) e o terceiro será o Park Lagos, em Cabo Frio, que deve ficar pronto em 2013. Outro da própria construtora é o Park Sul, em Volta Redonda (RJ), que deve ficar pronto no segundo semestre deste ano. “No Bangu não temos mais participação. Vendemos para a Aliansce”, conta Neves. Os percentuais de participação no capital dos shoppings variam de 80% a 90%.

“Quando fazemos o shopping para nós há uma sinergia que gera ganhos de produtividade, por isso hoje não temos nenhum shopping em construção para terceiros”, diz Neves.

A CCP não atua na construção. Contrata construtoras e mantém os centros em sua carteira ou em sociedade e recebe aluguel pelos espaços. A receita média de locação da empresa chega a R$ 180 milhões anuais. Os shoppings, segundo José Roberto Voso, diretor da área de shoppings da CCP, representam hoje 20% desse montante, mas isso deve mudar. “Atualmente, 70% de nossa receita de locação é de escritórios, mas esse percentual baixará para 50%; as indústrias irão responder por 20%, e os shoppings, 30%.”

Roberto Perroni, presidente da CCP, conta que a companhia tem quatro shoppings em operação, dois consolidados – o Gran Plaza, de Santo André, onde estão sendo investidos R$ 90 milhões na ampliação, e o Shopping D, em São Paulo. Outros dois foram inaugurados nos últimos 60 dias – o Park Shopping Belém e o Shopping Estação BH, respectivamente em Belém e Belo Horizonte. “Temos ainda quatro em desenvolvimento.”

Segundo Perroni, dos quatro empreendimentos em andamento, dois são em São Paulo, o Tietê Plaza Shopping, em construção na marginal do rio Tietê, com investimento de R$ 280 milhões, e o Shopping Cidade de São Paulo, na avenida Paulista. “Será um shopping e um prédio de escritórios, com 18 mil metros quadrados de ABL, mais 20 mil metros quadrados de escritórios”, diz. ACCP é sócia da Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário no empreendimento.

A companhia tem ainda dois shoppings em construção, um no Rio de janeiro, onde estão sendo investidos R$ 270 milhões, e outro em Goiânia. Para contratar a construtora, a CCP faz uma concorrência da qual participam as grandes empreiteiras. “Fazemos um contrato com o preço máximo garantido. Se passar disso, a construtora assume. Se houver economia, ela divide conosco”, conta o presidente da CCP.

A Sergio Porto Engenharia, de São José dos Campos, no mercado desde 1978, atua na construção de shoppings, escolas e prédios para outros usos. Foi ela que fez a ampliação do Shopping Interlagos, em São Paulo, em 1997. Mas, hoje, se dedica às obras da rede de cinemas Cinemark. “A concorrência em shoppings está muito grande, não está valendo a pena”, afirma Sergio Porto, dono da companhia, animado com o novo filão. “Do ano passado para cá, construímos dez complexos para o Cinemark”, diz. Segundo Porto, só na construção são investidos cerca de R$ 8 milhões em cada complexo, fora as instalações, cadeiras e equipamentos, que devem consumir um valor semelhante.

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:

http://www.valor.com.br/especiais/2730786/um-bom-negocio-para-cadeia-da-construcao-civil#ixzz1z87LQftT

A estratégia de um fundo de R$ 48 bi contra o juro baixo

  • A estratégia de um fundo de R$ 48 bi contra o juro baixo
Notícia | 15/06/2012

Fonte: Exame.com
Como o fundo de pensão da Caixa está se preparando agora que a renda fixa não paga mais o suficiente para que a entidade cumpra suas metas.São Paulo – Os grandes investidores já estão se preparando para a era de juros reduzidos em que o Brasil e o mundo parecem estar entrando. Em palestra no 5º Congresso Value Investing Brasil, nesta semana, o coordenador da área de gestão ativa e renda variável da FUNCEF, Bruno Moreira Barbosa de Britto, explicou a estratégia do fundo de pensão da Caixa para se adaptar ao novo cenário: se voltar mais para ativos imobiliários, títulos de renda fixa atrelados à inflação e renda variável com foco em valor, ao mesmo tempo em que reduz o peso dos ativos atrelados à Selic na carteira.

“Atualmente os fundos de pensão já não conseguem bater suas metas atuariais investindo em títulos públicos”, disse Britto. A meta da FUNCEF é de 5,5% ao ano mais inflação pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), mas o coordenador explica que os títulos públicos atrelados à inflação, as NTN-Bs, vem pagando um juro real inferior a 5,5% ao ano desde fevereiro, o que torna o título insatisfatório para a meta do fundo. A NTN-B mais longa à venda atualmente vence em 2050 e paga um juro real de 4,85% ao ano.

Além de pesar mais a mão em ativos mais rentáveis e até de risco um pouco maior, o fundo também está alongando o perfil das carteiras, investindo em ativos de prazo maior, o que representa um ganho de rentabilidade. A FUNCEF aloca apenas 45% de seus 48 bilhões de reais de patrimônio em renda fixa, destinando à renda variável nada menos que 37% no total (o percentual para cada participante varia de acordo com a idade). Para os ativos imobiliários são destinados 7%, quase o limite de 8% permitido aos fundos de pensão.

Renda fixa

De acordo com Bruno de Britto, a FUNCEF vem reduzindo a participação de títulos públicos pós-fixados em sua carteira e preferindo aqueles atrelados à inflação. Hoje apenas 8% da carteira de renda fixa é atrelada à Selic, sendo 41% dela indexada a índices de inflação. Também compõem a carteira títulos de crédito privado. Neste grupo, a FUNCEF inclui também os recebíveis imobiliários, como Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Fundos de Direitos Creditórios (FDICs) que investem nesses papéis lastreados em imóveis.

Ativos imobiliários

A FUNCEF é o fundo de pensão com maior percentual de ativos imobiliários em carteira, possuindo 16 shopping centers, cinco hotéis, quatro fundos de investimento imobiliário e cerca de 150 imóveis para renda. Entre os empreendimentos da FUNCEF estão o Hotel Renaissance, em São Paulo, e o Brasília Shopping.

Renda variável

A partir de 2009, a carteira de renda variável da FUNCEF passou a ter mais foco em investimentos de valor, cuja filosofia visa a selecionar ativos depreciados e com grande potencial de valorização por conta de uma má precificação do mercado. São empresas que têm problemas que podem ser sanados em breve, cujos problemas são superestimados pelo mercado ou mesmo cujos pontos fortes ainda não foram devidamente precificados.

“A carteira de ações da FUNCEF sempre foi muito correlacionada com o Ibovespa e o IBrX, até por seu porte e por prezarmos pela liquidez. Desde 2009, porém, tem havido um movimento de redução desta correlação”, diz Britto. Segundo ele, a força motriz do Ibovespa nos últimos anos – petróleo e gás, mineração, bancos e siderurgia – não vai continuar com a mesma intensidade. Futuramente, esse papel
será mais desempenhado pelo setor doméstico – logística, infraestrutura, seguros, varejo, transporte, construção civil e bens de capital.

Metade da carteira de renda variável da FUNCEF é terceirizada para outras gestoras de fundos. Mas, por seu porte, a Fundação investe em fundos-espelho, réplicas do fundo principal de cada gestora que permitem ao fundo de pensão deter 100% do fundo. Atualmente a FUNCEF pretende investir em quatro famílias de fundos: IBrX ativo, fundos de valor (incluindo small caps), dividendos e fundos de sustentabilidade.

Em sua apresentação, Bruno de Britto deu destaque às ações sustentáveis. “Empresas preocupadas com esse aspecto normalmente são companhias com práticas de gestão à frente de seu tempo, com times de gestão melhores”, disse. Mas a Fundação não investe em fundos que aplicam em ações do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que é o tipo de fundo de sustentabilidade normalmente disponível para investidores pessoa física. O fundo de pensão preferiu uma gestora com metodologia própria para avaliar quais ações podem ser consideradas sustentáveis, hoje em fase final de contratação.

Para selecionar seus gestores de valor, a FUNCEF analisa mais a qualidade do gestor do que propriamente da carteira, por considerar que os critérios usualmente utilizados para avaliar fundos de ações não se aplicam perfeitamente aos fundos de valor. Segundo Britto, a gestora de recursos é avaliada como se fosse uma empresa, uma espécie de holding. A FUNCEF avalia a filosofia de investimento, a equipe e sua rotatividade, o nível de coparticipação nas empresas, o uso de alavancagem, os critérios de alocação de capital, entre outros fatores.

Além disso, também são feitas reuniões periódicas com os gestores, e sua performance é comparada entre eles, de modo que os aportes ou resgates sejam condicionados aos resultados. A performance dos fundos também é comparada à dos fundos oferecidos ao grande público no mercado.

Julia Wiltgen

Fonte:exame.abril.com.br/mercados/noticias/a-estrategia-de-um-fundo-de-r-48-bi-contra-o-juro-baixo

%d blogueiros gostam disto: