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Setor de construção deve ter biênio perdido

Notícias > Mercado | 04/03/2015
Setor de construção deve ter biênio perdido

Depois de contribuir positivamente com o crescimento da economia desde 2010, a atividade da construção civil deve ter o pior biênio da série histórica mais recente das contas nacionais em 2014 e 2015. No ano passado, a perda de fôlego do mercado imobiliário, a paralisia dos negócios provocada pela Copa do Mundo e, em menor escala, o comportamento mais modesto do consumo das famílias deve ter levado o Produto Interno Bruto (PIB) do setor a encolher mais de 5%.
Se confirmadas as previsões de economistas ouvidos pelo Valor, seria o pior desempenho da construção desde 1992, quando esse componente do PIB industrial diminuiu 5,8%.
Em 2015, a situação pode se agravar, devido aos impactos da Operação Lava¬ Jato sobre os investimentos da Petrobras e das construtoras envolvidas nas investigações. A construção civil representa pouco menos de 4,7% do PIB, mas considerando a cadeia do setor, esse peso chega a cerca de 8%, de acordo com cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre FGV).
Segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção do Ibre, a evolução do setor dentro do PIB é atrelada à trajetória da produção de insumos típicos da construção civil, que caiu 5,7% em 2014. Nas estimativas da entidade, o PIB da construção caiu 5,2% no ano passado.
Em um cálculo feito com o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon SP), que considera dados do Ministério do Trabalho, Ana Maria aponta que o número de trabalhadores com carteira nas construtoras ficou 0,5% menor no período ¬ trajetória menos catastrófica, mas mesmo assim fraca.
“A média do ano não foi tão ruim, mas houve grande deterioração da atividade no segundo semestre”, diz a economista, mencionando que, feitos os ajustes sazonais, o nível de emprego na construção recuou 2,7% entre a primeira e a segunda metades de 2014. Segundo ela, os primeiros meses do ano ainda foram bons devido à aceleração de obras para a Copa do Mundo, mas, nos últimos meses de 2014, o segmento de infraestrutura deu contribuição negativa ao setor.
De acordo com Ana Maria, as obras passaram a andar em ritmo mais lento em função de atrasos nos pagamentos. Além disso, o fim do ciclo de lançamentos imobiliários, decorrente das dificuldades do setor no cumprimento de prazos, mas também de uma redução da demanda, foi outro fator que levou à queda do PIB da construção. Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que, em 2014, o crédito imobiliário teve sua menor alta em uma década, com avanço de 3,4% dos desembolsos para compra e construção de imóveis. Esses números consideram apenas operações de crédito com recursos da poupança. Já em janeiro, o volume dessa modalidade de empréstimos saltou 12% sobre igual mês de 2014.
O presidente da Abecip, Octavio de Lazari Junior, explica que os desembolsos são reflexo de lançamentos contratados há cerca de três ou quatro anos. Por isso, a entidade não está tão preocupada com relação a 2015 e prevê alta em torno de 5% do financiamento imobiliário no ano. “O que pode causar alguma preocupação é não haver lançamentos agora, e daqui a três a quatro anos, não haver continuidade do ciclo de produção”, observou, algo que não está no radar por enquanto.
O ano passado, porém, já foi um período de menor dinamismo dos lançamentos. Na média de dez capitais brasileiras, estimativas da Tendências Consultoria com base em informações da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) apontam que 2014 deve terminar com queda de 28% nas vendas de imóveis. “Com o nível de incertezas elevado, o segmento residencial sofreu bastante”, diz Mariana Oliveira, economista da consultoria, para quem o PIB da construção caiu 6,1% no ano passado. Além do desempenho mais modesto do segmento imobiliário, ela menciona que a atividade da construção também foi afetada por fatores pontuais em 2014. “Houve uma paralisia geral da construção, especificamente em junho e julho, devido à Copa”, afirma Mariana.
Para este ano, as expectativas são piores. Após cortar a estimativa para o PIB de 2015 ¬ a consultoria trabalha com retração de 1,2% da economia no período ¬ Mariana passou a trabalhar com recuo de 9,4% da atividade da construção civil. Em seus cálculos, a incorporação dos impactos da Lava¬ Jato, sozinha, derrubou o PIB da construção em cerca de dez pontos percentuais, levando ¬se em conta a redução de 30% dos investimentos da Petrobras e, ainda, a paralisação das obras tocadas pelos 23 grupos econômicos investigados.
Com peso menor na construção, o chamado “consumo formiga”, ancorado nas compras de material de construção das famílias, também não deve ter bom resultado em 2015. No ano passado, o volume de vendas de material de construção no varejo ficou estagnado, depois de ter crescido 6,9% em 2013. “A expectativa é que a renda não cresça como em outros anos, e há um ambiente mais pessimista, com crédito mais caro”, observa Ana Maria, do Ibre, que prevê queda de 5,5% do PIB da construção neste ano.
Na avaliação do Sinduscon SP, o valor agregado das construtoras ficará estagnado entre 2014 e 2015. O nível de emprego no setor deve diminuir 2% e a produção de insumos típicos da construção civil terá recuo de 1,5%. Em nota, o sindicato afirma que os condicionantes positivos para a construção, como a contratação pelo governo de obras de infraestrutura e de novas unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, serão contrabalançados por fatores negativos.
“A expectativa para 2015, no setor imobiliário, ainda é de queda no emprego, uma vez que o menor volume de obras neste ano é fruto de decisões de investimento tomadas no ciclo de desaceleração em 2013 e 2014”, afirma a entidade.
Ontem, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) divulgou números bastante desanimadores para o setor. O faturamento deflacionado das vendas internas de materiais de construção caiu 11,5% em janeiro na comparação com o mesmo mês do ano passado e encolheu 2,9% na comparação com dezembro de 2014.
A Abramat estima para o ano expansão das vendas de apenas 1% na comparação com 2014. Ao projetar esse crescimento, um dos fatores que a entidade levou em conta foram os incentivos do governo ao setor seriam mantidos, situação alterada com a recente mudança de tributação. Nos 12 meses encerrados em janeiro, houve retração de 7,6% na comparação com o intervalo equivalente anterior.
Por Arícia Martins, de São Paulo. (Colaborou Chiara Quintão, de São Paulo)
Fonte: Valor Econômico – BRASIL – 04/03/2015 – Pág. A3

Categorias:Uncategorized
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