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Bairros planejados dividem opiniões de urbanistas e do mercado

Bairros planejados dividem opiniões de urbanistas e do mercado

Surgimento de áreas projetadas reacende discussão sobre segregação e responsabilidade ambiental

Roberta Mello

QUEIROZ MELLO TWINS/DIVULGAÇÃO/JC

Altos da Barra terá aproximadamente 40% do espaço total aberto aos moradores

Altos da Barra terá aproximadamente 40% do espaço total aberto aos moradores

Os porto-alegrenses, assim como os habitantes de outras grandes cidades do País, testemunham o aumento no número dos chamados bairros planejados. Mas o que é visto por analistas de mercado e diretores de grandes construtoras como uma tendência, algo irreversível, também é encarado por urbanistas e cientistas sociais como uma realidade perigosa.

Um ponto em comum entre ambos é que as principais cidades brasileiras apresentaram um crescimento desordenado. E Porto Alegre foi uma delas. O resultado disso é que são enfrentados até hoje problemas ligados à infraestrutura, como calçamento, saneamento básico e iluminação, e à segregação do espaço.

Com o passar do tempo, os centro urbanos ficaram saturados, o que provocou a migração das classes altas para bairros vizinhos. A professora do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (Propur) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Clarice Maraschin explica que estudos realizados no anos 1970 em Porto Alegre apontaram para uma migração da classe rica do centro para os bairros próximos. “As classes altas foram se deslocando para os bairros vizinhos ao Centro. Eram construídas casas ou prédios, e o poder público fazia praças. Havia uma preocupação com a cidade.”

Seguindo uma tendência verificada principalmente nos Estados Unidos, as construtoras brasileiras começaram, após os anos 1990, a desenvolver grandes condomínios fechados nas áreas disponíveis da cidade. Surgiam os condomínios com infraestrutura semelhante à de um bairro, com uma única diferença, os muros.

O próximo passo foi o investimento em bairros planejados, o que é verificado atualmente e gera as maiores divergências entre os pesquisadores e o mercado imobiliário. Com projetos que preveem a construção de praças abertas à população, vias públicas e calçamento, os bairros Rossi América e Central Parque, da Rossi Empreendimentos, e Altos da Barra, da Queiroz Mello Twins, são as novas apostas do mercado imobiliário da Capital.

Segundo o diretor-regional da Rossi Empreendimentos, Gustavo Kosnitzer, “esse tipo de empreendimento é uma tendência em todo o País, mas em Porto Alegre houve a sorte de os bairros serem construídos perto dos centros urbanos, algo que não acontece em outros lugares”. Com a promessa de proporcionar aos moradores espaços com pensamento urbanístico, os novos bairros tentam atrair os interessados em segurança e qualidade de vida.

O proprietário da Construtora Queiroz Mello, Fabiano Mello, também afirma que o Altos da Barra destinou aproximadamente 40% do espaço total para áreas abertas à população. “É claro que, por uma questão de segurança, nós fazemos toda uma estrutura de lazer e serviços dentro de cada um dos condomínios para que as pessoas não tenham que sair sempre. Mas duas das sete quadras projetadas por nós serão destinadas à construção de praças”, garante o empresário.

No entanto, esse tipo de empreendimento não é visto como positivo por todos. Especialistas em sociologia urbana, como o cientista social e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Ufrgs Eber Pires Marzulo, alertam para o rompimento de dinâmicas sociais historicamente constituídas, esvaziando o espaço público e gerando segregação.

Para o diretor da Rossi, hoje as pessoas têm pouco tempo com a família, o que o mercado faz é “oferecer um espaço seguro que una as características de uma casa às de um clube, o que garante um ganho na qualidade de vida”. Já Marzulo diz que “tal tendência rompe laços do tecido urbano histórico e de dinâmicas sociais historicamente constituídas, esvaziando o espaço público e, logo, colocando em risco a democracia e a experiência da grande cidade”.

Preservação ambiental também é colocada em xeque

Além da segurança, outro aspecto fundamental para a atração de compradores nos bairros planejados é a promessa de maior contato com a natureza e a preocupação com a preservação de mata nativa ou com a sustentabilidade ambiental.

Fabiano Mello, da Construtora Queiroz Mello, destaca a construção de duas praças no Altos da Barra, na zona Sul de Porto Alegre, além da compensação do impacto ambiental com o plantio de mudas de árvores, em torno de 18 mil. Os locais e os prazos serão definidos pelo Departamento de Florestas e Áreas Protegidas, órgão da Secretaria Estadual do Meio Ambiente.

Também de acordo com as exigências dos consumidores, o Rossi América, localizado na avenida Antônio de Carvalho com a Ipiranga, contará com uma área de mata nativa preservada de cerca de 15 hectares. Uma extensa área que, conforme Gustavo Kosnitzer, da Rossi, iria “possivelmente desaparecer devido ao crescimento desordenado da cidade”.

Porém, para a professora da Ufrgs Clarice Maraschin, isso ainda é muito pouco. “A sustentabilidade urbana é algo que vai muito além da preservação de uma pequena área de mata nativa. Passa pelo estímulo à diminuição do uso de carros, ao uso de produtos produzidos na comunidade e muitos outros aspectos”. O cientista social Eber Pires Marzulo complementa afirmando que “no caso da ocupação condominial de áreas historicamente associadas ao contato com a natureza, como a zona Sul e as ilhas em Porto Alegre, tudo se torna ainda mais grave”.

Ainda assim, as opiniões convergem pelo menos em um ponto: Porto Alegre não tem espaço para mais empreendimentos nos moldes apresentados, pelo menos não no que é entendido como os limites espaciais da cidade. Resta saber quais serão as próximas tendências do mercado imobiliário.

Modelo de empreendimento cresce mais entre os países emergentes

O presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Rio Grande do Sul (Creci-RS), Flávio Koch, alega que essa é uma realidade contra a qual não vale lutar. “O problema é que muitas vezes o termo ‘bairro’ é usado indiscriminadamente apenas para dar uma sensação de grandeza”, diz.

Enquanto muitos estão atrás de segurança, a professora da Ufrgs Cristiane Maraschin afirma que esses empreendimentos geram problemas na medida em que diminuem a circulação e animação urbana. “A vida comunitária é um conceito mais complexo do que simplesmente colocar pessoas vivendo umas ao lado das outras”, enfatiza a professora.

Segundo cientista social Eber Marzulo, “porta e janelas para a rua são fundamentais para a garantia de controle social sobre a violência”. Para o especialista, o direito à utilização do espaço público foi a reivindicação central das mobilizações de junho e julho. “Ali estava como cerne a reconquista do espaço público explicitada na ocupação das ruas e na reivindicação do direito de ir e vir através do transporte público, aliás, uma concessão pública”, lembra.

Clarice afirma ainda que os “bairros projetados” são encontrados preponderantemente nos países emergentes, principalmente no Brasil e no México. “Na Europa eles têm uma consciência maior da importância do convívio social”, esclarece.

Já Gustavo Kosnitzer, da Rossi, rebate dizendo que é difícil compararmos a nossa realidade à europeia, que apresenta um crescimento populacional muito menor que o do Brasil. “É claro que seria melhor se todos tivessem acesso à segurança, a ruas asfaltadas, e a um sistema viário adequado, mas isso é uma impossibilidade. Nós temos que nos adaptar à realidade do País”.

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