Enrique Bañuelos chegou ao Brasil, no auge da crise em 2008, com muito mais ambição e dinheiro do que credibilidade. Aos poucos, com um jeito carismático e eloquente, arregimentou alguns poucos aliados e uma legião de desconfiados. A fama de empresário polêmico e controverso dos tempos em que ficou bilionário na Espanha nunca o abandonou. Ainda assim, muito ativo nos bastidores, rapidamente reuniu três empresas com histórico complicado e formou uma companhia onde o todo somava mais que as partes. Mas ainda continuava sendo alvo de críticas. Na semana passada, no entanto, cerca de um ano e meio depois, conseguiu o melhor desfecho possível para o negócio que criou – fato reconhecido até mesmo pelos seus desafetos.
A interlocutores próximos, Bañuelos, de 44 anos, não esconde que já se apresenta mundo afora como o maior acionista individual da maior empresa imobiliária do país – e se orgulha de dizer que o novo título já tem aberto portas. Com a venda da Agre, união da Klabin Segall, Abyara e Agra, para a PDG Realty – que ainda precisa ser aprovada em assembleia – o dono da Veremonte terá próximo de 6% da nova PDG. Passa à frente da Vinci Partners – com 5,42% e que tem Gilberto Sayão como presidente do conselho e do fundo Blackrock, com 5,73% do capital. “Ele criou uma saída para ele mesmo. Agora, tem papéis de uma empresa com liquidez”, afirma uma fonte do mercado. A venda, tem dito o empresário espanhol a pessoas próximas, adiantou seus planos no mercado imobiliário brasileiro em pelo menos quatro anos.
O título – de que agora tanto se orgulha – é, até certo ponto, questionável. De fato, Bañuelos é o maior acionista daquela que pretende ser a maior empresa imobiliária do país – e, por enquanto disputa a liderança de perto com a Cyrela. Na teoria, ajuda a contar um capítulo bem sucedido de sua trajetória no país. “Ele é vaidoso, o negócio faz toda a diferença para o ego dele, além de alavancar outros negócios fora do país”, afirma um executivo do mercado que o conhece. O argumento, aliás, segundo o Valor apurou, ajudou a convencer Bañuelos, que já estava negociando com a GP Investimentos, a fechar com a PDG.
Na prática, porém, significa pouco. A PDG é uma ” full corporation”, termo usado para definir companhias de capital completamente pulverizado, em que as diretrizes são todas dadas pela administração. Não há um grupo dominante entre os acionistas capaz de definir as estratégias da empresa. Numa empresa com esse perfil, sem um assento no conselho – conforme vontade própria – e com um grupo de gestores que deve lhe dar pouca liberdade para impôr suas vontades, a leitura do mercado é que, desta vez, o empresário espanhol terá pouca influência nas diretrizes da companhia. Não é o que tem dito. Conforme apurou o Valor, Bañuelos pretende continuar participando ativamente do negócio, inclusive com planos de entrar na área de shoppings, prédios de escritório e condomínios logísticos. “Ele não terá essa influência que imagina”, afirma fonte envolvida no negócio.
Ninguém sabe exatamente quanto ele ganhou com as operações que já fez no Brasil – até porque já vendeu parte das ações da Agre em bolsa. Mas todo mundo sabe que ganhou. Inicialmente, ele investiu cerca de R$ 150 milhões para ficar com a Abyara e Klabin Segall. Depois, pagou mais R$ 150 milhões (valor visto como caro) para comprar metade da participação que restou da Cyrela na Agre e mais R$ 150 milhões pela parte dos sócios nesse negócio. Numa conta grosseira, considerando-se o percentual que detém em Agre, teria lucrado cerca de R$ 150 milhões. “Ele vai esperar a valorização e deve vender as suas ações” diz uma pessoa próxima. “Ele tem perfil de trader”, corrobora um gestor. Não é o que Bañuelos prega por aí – o discurso predominante é o do investidor de longo prazo.
A PDG Realty, ao contrário da Agre – que ainda precisava se provar ao mercado – é uma empresa consolidada, reconhecida pelos analistas pelos bons resultados e, o que era mais importante para Bañuelos, respeitada. A venda aconteceu em menos de duas semanas e o desfecho obrigou o espanhol a voltar da China rapidamente a bordo do seu Gulfstream 550 para assinar o contrato na semana passada. Os advogados foram chamados na própria segunda-feira pela manhã e o que era para ser apenas um memorando de entendimentos evoluiu, ao longo do dia, para um contrato de compra e venda.
A aproximação entre o empresário espanhol e o presidente da PDG, Zeca Grabowsky, aconteceu por intermédio dos sócios da Gas Investimentos, empresa de gestão de fundos que em janeiro se associou à Vinci Partners e têm participação tanto na Agre, quanto na PDG. A sede da Veremonte fica ao lado da Gas, num dos endereços mais caros de São Paulo.
Depois de passar mais da metade do ano passado em São Paulo, onde já comprou um apartamento no bairro nobre da Vila Nova Conceição, Bañuelos já entende perfeitamente o português. Mas não faz a mínima questão de aprender a língua e, segundo os que convivem com ele, sequer arrisca um portunhol. Falante, inteligente e rápido de raciocínio, usa o espanhol com sotaque valenciano e poucas pausas a seu favor. Nem todo mundo entende perfeitamente – incluindo nesse rol os que fecham negócios com ele – , o que não aconteceria, por exemplo, se o idioma usado fosse o inglês. É comum, depois de uma reunião com ele – quando normalmente centraliza as discussões – as pessoas se entreolharem com um ar implícito de “agora vamos conversar”.
A ousadia nos planos, que vem desde a sua chegada ao Brasil, não foi deixada de lado. Ao contrário. Segundo fontes próximas, Enrique Bañuelos planeja fechar um grande negócio na área de alimentos nos próximos dois meses. E mantém o discurso, já cultivado no primeiro plano, de entrar nos segmentos de infraestrutura, energia e varejo. O mercado imobiliário seria apenas a porta de entrada para novos segmentos. De concreto, até o momento, fechou uma parceria com a francesa Accor para a construção de quase 5 mil quartos e com a família real dos Emirados Árabes, que controla uma rede de hotéis de luxo.
Logo que chegou ao Brasil, Enrique Bañuelos foi apresentado ao mercado imobiliário pelo Credit Suisse. Impressionou os que estiveram com ele – cerca de dez empresas, a maioria atolada em problemas e algumas perto de quebrar- pela pretensão e nível de detalhamento do negócio que pretendia montar. A “plataforma líder de real estate no Brasil” seria uma holding com seis empresas unidas com um modelo complexo de participações cruzadas e estrutura em cascata. O plano, divulgado na época com exclusividade pelo Valor, era abrir o capital da nova companhia em Londres e Nova York. Previa, ainda, a criação de uma companhia hipotecária, de uma seguradora e até de “novas cidades brasileiras” em parceria com grandes grupos internacionais.
Deu um passo bem menos ambicioso, mas teve o mérito de ser o único consolidador do setor durante a crise. E teve ao seu lado uma figura importante para costurar esse novo modelo de negócio: Luiz Roberto Horst, o Beto, fundador da Agra. Foi ele quem apresentou os donos da Abyara e da Klabin Segall à Veremonte e foi escolhido para ficar á frente da Agre.
A boa relação do começo, porém, não demorou a desandar. Já no final do ano passado, Bañuelos começou a discordar da gestão de Beto à frente da Agra. Sempre ressaltou que não queria ter assento no conselho ou interferir no dia a dia do negócio, mas não foi exatamente assim que funcionou. O empresário espanhol não conhecia os detalhes da operação ou dos projetos, mas teria ficado descontente com algumas estratégias, como o investimento de R$ 12 milhões em uma campanha institucional de marketing. Agora, o empresário tem dito aos mais próximos que os gestores da PDG têm o conhecimento financeiro que faltava aos da Agra.
De origem humilde, Enrique Bañuelos chegou à lista dos bilionários da revista “Forbes”, em 2007, com uma fortuna estimada em US$ 7 bilhões. Parte disso estava em ações da Astroc, empresa que criou em 1995 e pegou carona no boom imobiliário espanhol. Menos de um ano depois da abertura de capital, o preço já era dez vezes maior em relação ao IPO, mas logo em seguida desabaram por conta de denúncias de que parte do resultado havia sido conseguido artificialmente e envolvia a venda de imóveis de sociedades controladas e, inclusive, do patrimônio pessoal do empresário. Nada ficou comprovado contra ele. Mesmo depois da perda substancial na bolsa de Madrid, continuou com dinheiro. “Ninguém sabe exatamente quanto ele tem, mas não tem frase dele que não tenha meio bilhão de dólares no meio”, diz um conhecido.
Casado e pai de duas filhas, que faz questão de preservar, é dono de um castelo numa área de 10 milhões de m2, construído no século XVIII, em Mallorca. Tem cinco casas: em Madrid, Londres, Nova York, Pequim e, a última aquisição, em São Paulo. Corredor, gosta de estar próximo de parques – não, por acaso, os metros quadrados mais caros de cada cidade. Seu apartamento em Nova York fica perto do Central Park e em Londres é vizinho do Hyde Park e aqui, claro, escolheu o Ibirapuera. Não carrega malas. Quando compra roupas, geralmente na Itália ou França, leva pelo menos cinco peças de cada modelo. Uma para cada residência. Além do celular de cada país, tem um número internacional para que sua esposa e filhas possam achá-lo. É dono de três aviões – dois Gulfstream 550 -, avaliados em US$ 50 milhões cada. Chegou a criar uma pequena companhia de aviação com 35 pessoas e aluga os aviões para cobrir os custos. Já foi chamado de Donald Trump europeu e de senhor dos tijolos, na Espanha. Neste momento, o título que faz brilhar seus olhos é o de maior acionista de uma empresa brasileira.