O líder que pode mudar a relação China-EUA
07/02/2012 ÀS 00H00 Valor
O líder que pode mudar a relação China-EUA
Por Jeremy Page e Mark Peters | The Wall Street Journal, de Muscatine, Iowa, EUA
Essa pequena cidade às margens do Rio Mississippi há muito tempo alardeia que o escritor Mark Twain foi um de seus residentes, em 1854. Agora, os moradores percebem que têm outro motivo para se gabar: Muscatine desempenhou um pequeno, porém memorável, papel na ascensão de Xi Jinping, o homem que pode se tornar o líder máximo da China no meio do ano.
Vinte e sete anos atrás, Xi, então um promissor funcionário público numa região criadora de porcos da China, liderou uma delegação de entendidos em alimentação animal numa viagem ao Estado de Iowa. Ele visitou fazendas e o Rotary Club e assistiu a um jogo de beisebol. Passou também duas noites na casa de um casal de Muscatine, onde dormiu cercado de brinquedos Star Trek no quarto dos filhos do casal, que estavam estudando fora. Acredita-se que essa foi sua primeira viagem para fora da China.
Dia 15 de fevereiro, um dia após visitar a Casa Branca pela primeira vez, Xi, hoje o vice-presidente da China, planeja retornar a Muscatine e tomar chá com as pessoas que ele conheceu em 1985. Sua viagem de volta ao coração da América parece querer mostrar o que o torna tão diferente do atual líder chinês, Hu Jintao: um estilo confiante e pessoal e uma serena familiaridade com os Estados Unidos.
Os líderes chineses já se exibiram para os fotógrafos americanos no passado. Deng Xiaoping, por exemplo, usou um chapéu de cowboy num rodeio no Texas, em 1979. Porém, nenhum nunca fez um esforço tão ostensivo para demonstrar um vínculo longo e pessoal com a América.
Ao longo dos anos, Xi, que tem 58 anos, fez viagens periódicas aos EUA. Sua filha estuda em Harvard. Ele se encontra regularmente com autoridades e empresários americanos, incluindo Henry Paulson, ex-secretário do Tesouro. Quando o vice-presidente Joe Biden visitou a China em agosto, Xi o acompanhou à província de Sichuan, no oeste do país, e jantou com ele num restaurante local.
A China está à beira de uma mudança política que só acontece uma vez a cada dez anos. Em outubro ou novembro, Hu e outros seis dos nove membros do Politburo, a cúpula do governo chinês, irão se aposentar. A próxima geração de líderes do Partido Comunista, liderada por Xi, tomará posse num período em que o crescimento da segunda maior economia mundial está caindo e a pressão pública para que o país enfrente seus diversos problemas sociais, econômicos e ambientais está aumentando.
A personalidade e relativa popularidade de Xi aumentam as esperanças de alguns setores, tanto dentro quanto fora da China, de que ele retomará o tipo de reformas que marcaram os anos 90, mas que foram paralisadas nos últimos dez anos. Os EUA, por sua vez, estão ansiosos por ver se a ascensão de Xi a líder do Partido Comunista e presidente levarão a mudanças na diplomacia combativa que alarmou muitos dos vizinhos asiáticos da China nos últimos anos e levou os EUA a se focar mais na região no seu planejamento militar e diplomacia.
Xi é o membro mais proeminente do grupo conhecido na China como “jovens príncipes”- os filhos de conhecidos líderes revolucionários, muitos dos quais cresceram juntos. Seu pai, Xi Zhongxun, ajudou a levar as forças comunistas à vitória. Expulso em 1962, foi então politicamente reabilitado e ajudou a conduzir as reformas econômicas até a sua morte, em 2002.
Essas origens distinguem Xi do homem que ele deve substituir. Hu, cujo pai gerenciava uma loja de chá, teve que galgar a hierarquia do partido. Uma vez no poder, Hu cercou-se de pessoas de origem semelhante, entre eles o vice-premier Li Keqiang, seu preferido para sucedê-lo.
Xi “é uma figura-chave entre os jovens príncipes. Seu pai era uma figura popular”, diz Zheng Yongnian, uma especialista em política chinesa na Universidade Nacional de Cingapura. “Isso o torna mais confiante e, num nível pessoal, ele tem um conhecimento maior do Ocidente. Creio que ele está confiante de que pode consolidar o poder muito mais rápido do que Hu fez.”
Xi terá uma familiaridade maior com o Ocidente do que seus predecessores, incluindo Deng, que estudou na França nos anos 20 e fez uma visita histórica aos EUA em 1979, depois que as relações diplomáticas foram restabelecidas. Hu, assim como Xi, fez sua primeira viagem ao exterior em 1985, mas foi para a Coreia do Norte, e ele não visitou os EUA até pouco antes de assumir o poder, em 2002.
Paulson, que se encontrou com Xi pela última vez em dezembro, descreveu-o como um “líder forte e confiante”, com habilidade para se comunicar e um conhecimento dos EUA que vem crescendo desde sua primeira visita a Iowa.
Depois de se encontrar com Xi pela terceira vez no ano passado, Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, disse: “Ele é mais assertivo que Hu Jintao. Quando ele entra na sala, você sabe que há uma presença de destaque ali.”
O pai de Xi era reconhecido dentro do partido como um dos líderes mais capazes e eloquentes. Depois de ajudar os comunistas a chegar ao poder, ele foi vice-premier até ser expulso do partido em 1962, por apoiar a publicação de um livro considerado crítico ao presidente Mao Zedong. Depois da sua reabilitação, em 1978, ele propôs e supervisionou a criação da primeira zona econômica especial da China, na província de Cantão – passo importante na ascensão da China como uma potência na manufatura.
O pai de Xi era um político relativamente liberal. Ele defendeu um líder reformista do partido que foi removido em 1987 e condenou a violenta repressão aos protestos da Praça da Paz Celestial em 1989, de acordo com algumas pessoas próximas da elite do partido. Isso o novamente o deixão numa posição menos favorável no partido.
Sua atribulada carreira política causou turbulências na criação dos filhos. Xi Jinping tinha apenas 9 anos quando seu pai foi posto em prisão domiciliar, a qual se estendeu pela maioria dos 16 anos seguintes.
Aos 15 anos, Xi estava entre os milhões de estudantes enviados para trabalhar no campo durante a Revolução Cultural. Ele foi mandado para a província de Shaanxi, no norte da China, onde seu pai era famoso por haver ajudado a liderar os comunistas em 1930.
Numa entrevista a uma revista publicada pelo governo, em 1996, Xi disse que, durante a sua juventude, ele “passou por muito mais privações do que a maioria das pessoas” por causa das suas origens. Ele contou a outro repórter que foi preso três vezes.
Mesmo assim, ele inscreveu-se repetidamente para entrar no Partido Comunista quando estava no campo, de acordo com um ensaio que Xi escreveu em 2003. Depois de ser rejeitado nove vezes por causa de seu pai, ele foi aceito em 1974. Sua matrícula na renomada Universidade Tsinghua, em Pequim, foi rejeitadas duas vezes. Ele só foi aceito depois que seu pai intercedeu, dizendo que seus problemas políticos não deveriam prejudicar a educação do filho.
Quando Xi se formou, em 1979, com um diploma de química orgânica, seu pai havia voltado à elite do partido. Xi ganhou um emprego como secretário particular de um dos antigos companheiros de luta do pai, Geng Biao, um vice-premier e ministro da Defesa. Aquele trabalho em uniforme daria a Xi contatos duradouros nas forças armadas – algo que nem Hu nem seu predecessor, Jiang Zemin, tinham.
Xi pendurou seu uniforme em 1982 e foi trabalhar como vice-líder do Partido Comunista, no distrito de Zhengding, uma região de suinocultura da província de Hebei, no norte do país. Foi aí que ele conheceu Terry E. Branstad, então governador de Iowa, que visitou Hebei em 1984 como parte de um intercâmbio entre “Estados irmãos”. No ano seguinte, Xi levou a delegação de alimentação animal para Iowa.
Xi ascendeu continuamente no partido. Ele foi líder de Fujian e Zhejiang, duas das províncias economicamente mais dinâmicas da China, onde provou ser um administrador competente e favorável a empresas.
Ao contrário de Hu, que foi escolhido a dedo por Deng como futuro líder dez anos antes de assumir o poder, Xi emergiu de forma inesperada como potencial sucessor em 2007, em uma votação informal da cúpula do partido. Quando Xi assumir a liderança máxima, ele será o primeiro entre seus pares no Politburo. Sua principal tarefa será manter a unidade e promover o consenso entre seus membros.
Ainda não se sabe se Xi será mais incisivo que Hu ao lidar com os interesses burocráticos e corporativos que se opõem às reformas, ou com os agressivos generais que ditaram a diplomacia da China nos últimos anos.
Muitos chineses o consideram uma figura mais simpática que Hu, graças em parte ao seu sorriso fácil e à sua glamorosa esposa – a famosa cantora pop Peng Liyuan – e uma simplicidade que seus amigos atribuem aos anos passados no campo.
O retorno de Xi a Iowa é, em parte, teatro diplomático. Ele será o líder estrangeiro de mais alto nível a visitar o Estado desde que Nikita Khrushchev veio inspecionar a agricultura americana em 1959 na primeira visita de um líder soviético aos EUA. A viagem de Xi será uma oportunidade para demonstrar os benefícios do comércio com a China, que comprou US$ 627 milhões em exportações de Iowa em 2010, de acordo com o Conselho Empresarial China-EUA




